Yo La Tengo – Cine Joia, SP

Maturidade e muita criatividade renderam um grande espetáculo de belas músicas

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Fotos: Fabrício Vianna/Popload Gig
Nota: 4.5

Yo La Tengo parece ser muito mais que um trio, visto que apenas três músicos no palco dão conta do trabalho de muita gente ao mesmo tempo. Eles exploram diferentes timbres e configurações de palco para passear por sua discografia e entregar um espetáculo, acima de tudo, com uma cara muito orgânica. Foi isso o que vimos na noite de 3 de junho em São Paulo.

Na última vez que a banda passou pelo país antes desta turnê (que incluiu show no Rio de Janeiro) foi no festival SWU em 2010, quando o belo Fade ainda não havia sido lançado. Logo, não era difícil imaginar que a banda traria um repertório baseado nesse mais recente lançamento para as terras brasileiras. Entretanto, o que vimos foram músicas de diferentes períodos de sua carreira, incluindo agora. Era um show de Yo La Tengo, não do álbum.

Os três subiram ao palco e Ira começou os acordes de Stupid Things meio timidamente, bem num ritmo de aquecimento, com Georgia no baixo e James na bateria (e não vice-versa, como na grande maioria das músicas). Ao vivo, a faixa ganha muito mais peso e distorção, o que acabou acontecendo com muitas das faixas do disco novo, principalmente Before We Run (um verdadeiro Post-Rock no palco) e Ohm.

Muitas músicas eram bastante celebradas como favoritas do público, como From a Motel 6 e Autumn Sweater – essa última com Ira no sintetizador e os outros dois em baterias (uma normal e outra com o setup bem reduzido). Teve ainda teclado e um duo violão e guitarra, ambos de 12 cordas (coisa fina). A movimentação dos três pelo palco chega a parecer um triathlon, com o bastão sendo passado de um para o outro entre as modalidades.

Só depois de umas seis ou sete músicas que Ira decidiu dar as boas vindas ao público, mas, sinceramente, eu nem tinha reparado na falta de comunicação. As músicas já estavam falando bastante. Até porque o show oscilava entre músicas explosivas e outras absolutamente introspectivas, como I’ll Be Around e Cornelia and Jane – que, arrisco dizer, foi o momento mais bonito da semana de todos ali.

Dizer isso é chover no molhado, mas o maior problema foi (como sempre) o público, com sua mania de insatisfação com o lugar que está no show (mesmo em uma casa pequena como o Cine Joia) e as incansáveis tentativas de se aproximar do palco no meio das músicas, inclusive nessas bem calminhas e silenciosas. Do começo ao fim, era possível ouvir vários shhhh pedindo silêncio no meio da multidão não só por essa movimentação, mas também pelas conversas incessantes no meio das músicas (e como é estranho pensar em alguém que paga ingresso do show para ir ficar conversando enquanto a banda toca, como se fosse um restaurante com música ao vivo na qual não se presta atenção no músico).

Tom Courtenay, Super Kiwi e Last Days of Disco ajudaram a manter o concerto agradável para os públicos de qualquer fase da banda e o saldo da noite foi altíssimo. Ver Yo La Tengo ao vivo é compreender melhor o que significa “Rock Alternativo”, no sentido de uma banda que escolheu há vinte anos viver de uma forma diferente dos grandes nomes do Rock e, por isso, sabe se manter relevante e criativa sem parar. Não importa o visual, não importa nem mesmo a atitude. O protagonista desse show é a música – e, caramba, como ela é boa.

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ARTISTA: Yo La Tengo
MARCADORES: Cine Joia

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.