5pra1: Tom Waits

Na estreia da série, um mergulho por cinco discos de um dos artistas mais originais e inventivos de todos os tempos

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Fotos: David Corio

Nunca esqueço do que li – quando ainda era um jovenzinho – a respeito de Tom Waits, no livro Guia de Rock em CD (2000), de Arthur Dapieve e Luiz H Romanholli. Bandas e cantores catalogados foram divididos, para além de gêneros, em categorias que expressam os contextos em que surgiram. Exemplos: Invasão Britânica se referia aos grupos ingleses de peso que apareceram durante a década de 1960, como Beatles, Cream e Rolling Stones; Reação Americana representava coisas como The Allman Brothers Band e The Doors; e ainda havia os casos dos chamados “trovadores”, como Bob Dylan. Mas, como era de se esperar, existiam artistas cujas classificações e denominações seriam insuficientes e, para isso, os autores escolheram o termo “único”.  Ao lado de nomes como Frank Zappa e Van Morrison, Tom Waits era um desses únicos. E o que o destacava ainda mais era o fato de estar presente em um catálogo de Rock – e isso, ainda assim, fazer todo o sentido.

Mas qual a razão de Tom Waits ser tão único? Pode ter a ver com a aura quixotesca de um frequentador de bar que parece guardar todos os segredos da vida, ou com a capacidade de ressoar uma variedade impressionante de personagens, que vão do storytelling debochado à poesia mais crua. Ou então pode ser a habilidade de mesclar gêneros de forma totalmente desamarrada e inclassificável, mas coesa – é Jazz, é Blues, é Rockabilly, é Cabaret, é Gospel e continua sendo simplesmente Tom Waits. Ou pode ser ainda por conta dos trejeitos (sonoros e expressivos) que serviram de inspiração para Heath Leadger interpretar o Coringa e encantaram Francis Ford Coppola. Ou a maestria em, como ele mesmo diz, “cantar coisas horríveis em lindas melodias”. Deve ser tudo isso.

São mais de 40 anos de carreira e mais de 15 álbuns. Com dor no coração, alguns pontos altíssimos da discografia ficaram de fora, como Swordfishtrombones (1983) e Mule Variations (1999). Mas a série 5pra1 serve para isso: uma porta de entrada para o resto da viagem – que sempre vale a pena. Aqui vai uma seleção de cinco discos que mapeiam e apresentam as tantas faces e os tantos sons de Tom Waits:

Closing Time / The Heart Of Saturday Night (1973-1974)

Já comecei roubando logo na primeira escolha. Mas é por uma causa nobre: juntos, o álbum de estreia e seu sucessor, separados por pouco mais de 1 ano e meio, funcionam como o combo perfeito. É a dobradinha ideal para compreender o “velho Tom Waits” – na verdade, o jovem Tom Waits. E o que cantava e tocava o jovem Tom Waits?  Antes de desenvolver o vozeirão grave que se tornaria sua marca registrada, nosso herói usava a rouquidão de maneira mais singela e caminhava precisamente entre o Blues e o Jazz, além de breves incursões pelo Folk. As canções trazem bem menos fusões estilísticas do que as tantas outras que viriam, mas a atmosfera noturna, solitária e melancólica já aparece aqui – como se você estivesse dentro de Nighthawks, a famosa pintura de Edward Hopper, de 1942.

Canções como “Virginia Avenue” ou “Semi Suite” trazem harmonizações jazzeadas enquanto Waits canta sobre a solidão da cidade, e “Grapefruit Moon” e “Please Call Me, Baby” já mostram seu talento para compor baladas de colocar o coração em um moedor. Seu estilo até chega a remeter a Tony Bennett ou Frank Sinatra, mas o tom ébrio e algo caricato o distanciam dos crooners típicos do Jazz de forma contundente. Ambos os discos, ao mesmo tempo escorados na simplicidade, dão sinais de um artista que se tornaria absurdamente denso e complexo. Esses sinais afloram ainda mais em Nighthawks At The Diner, disco ao vivo de 1975 igualmente imperdível, e se transmutam em um mar de possibilidades ao longo da carreira de Waits.

Destaques: “Grapefruit Moon”, “Virgina Avenue”, “Semi Suite” e “Please Call Me Baby”

Blue Valentine (1978)

“Tom Waits conta sempre as mesmas histórias (…) Mas ele faz com que cada uma soe diferente. Por isso ele é um grande contador de histórias”. Esse trecho está no primeiro parágrafo da crítica de Blue Valentine escrita por Don Shewey, em 1979, para a RollingStone. E, para além do barítono áspero praticamente desenvolvido por completo, o aprimoramento do storytelling é, de fato, um dos trunfos do disco que fechou a primeira década de Tom Waits na ativa. É verdade que ele já era bom nisso, mas aqui a capacidade narrativa ganha bem mais força literária, com deslocamentos de eu lírico e cenas/diálogos/personagens que colocavam sensibilidade no que parece cartunesco e poesia de rara beleza em meio ao melodrama.

Em “Christmas Card From A Hooker In Minneapolis”, talvez a grande canção do repertório, Waits, como o título anuncia, encarna uma prostituta escrevendo uma carta para um antigo amor – agora distante. A remetente, grávida, conta sobre o trombonista que vai assumir o filho que ela espera na barriga e que lhe deu uma aliança, sobre o Mario que foi preso, sobre ter parado de tomar uísque e fumar maconha… Até que, ao fim da letra/do conto/da poesia, descobrimos que ela só precisa de dinheiro emprestado, que o trombonista nem existe e que ela vai pegar uma condicional provavelmente no Dia dos Namorados. Esse tipo de narrativa perpassa toda obra e o aproxima dos escritores da geração Beatnik ou de Charles Bukowski (e seu predecessor, John Fante). Mas, munido de pianos sedutores que vão da safadeza do Blues à ternura do Gospel e uma guitarra (antes rara) aqui e acolá, Waits dá toques de redenção e comicidade, transformado a experiência em algo único. O lamento de bêbado contador de história – que você começa ignorando e termina vidrado no causo – também se destaca na cheia de Blues “$ 29,00”, na própria “Blue Valentines” e na feita-para-um-bordel-lotado-de-mafiosos “Romeo Is Bleeding”.

Destaques: “Christmas Card From A Hooker In Minneapolis”, “Romes Is Bleeding” e “Blue Valentines”

Rain Dogs (1985)

Pelas listas espalhadas por aí, é comum vermos Rain Dogs no lugar mais alto do pódio entre os melhores discos de Tom Waits. Ele até já havia deixado de lado um pouco as linhas de piano jazzeadas e as baladas melancólicas no excelente antecessor Swordfishtrombones, lançado em 1983, dois anos antes. Mas, na época de seu nono disco e provável clássico supremo, ele se jogou de vez na cacofonia de percussões estranhas, o buzinas, guitarras intencionalmente desajeitadas (pelas mãos de Marc Ribot e Keith Richards) e alguns pianos discretos. O pacote, logo no início, vem acompanhado de uma leva de personagens que vai de um chinês bêbado (“Singapore”), passa por um bombeiro cego (“Clap Hands”, quase um Rap) e os tios Vernon, Biltmore e William (“Cemetery Polka”). Em meio a tantas vozes, também há espaços para a franqueza total – ainda que com certa dose de galhofa – em “Tango ‘Til They Sore”, uma despedida à vida. (“Vou contar todos os meus segredos / Mas eu minto sobre meu passado/ Então me mande pra cama pra sempre”).

As doses ainda trazem a springsteeniana (e a mais Pop do disco) “Hand Down Your Head”, o flerte com o Country em “Blind Love”, além da balada em violão mais bonita de sua discografia, “Time”. Um respiro paciente misturado à confusão. As coisas voltam a ficar insólitas em “9th Happening”, uma literal narração guiada pelo vozeirão, e se tornam inequivocamente oitentistas em “Downtown Train”, que se tornaria hit na voz de Rod Stewart.

São 19 faixas espalhadas em mais de 50 minutos e uma viagem intensa, bagunçada e inesquecível por personagens excêntricos e marginalizados e que, embora caricatos, expressam um existencialismo inerente, como é típico de Tom Waits. Rain Dogs foi o maior sucesso comercial de sua carreira até então e é um dos discos mais marcantes e originais dos anos 1980. “Em qualquer lugar em que repouse minha cabeça, eu vou, enfim, estar em casa”, ele canta até rasgar os pulmões no verso final de “Anywhere I Lay My Head”, que fecha o disco. Ele nunca havia se sentido tão livre.

Destaques: “Clap Hands”, “Time” e “Anywhere I Lay My Head”

Bone Machine (1992)

Durante a primeira metade dos anos 1990, o mundo colhia os frutos do fim da Guerra Fria e o medo de um novo conflito ou de uma crise nuclear havia sido, pelo menos por ora, superado. Mesmo assim, em setembro de 1992, Tom Waits lançou o disco mais apocalíptico, sombrio e “difícil” de sua carreira. A morte – não apenas sua, mas, em certos momentos, da humanidade inteira – é tema que percorre todo repertório, como na abertura “The Earth Died Screaming”: “The earth died screaming / While I lay dreaming / Dreaming of you” (“A terra morreu gritando/ enquanto eu sonhava/ sonhava com você”). Ainda que as letras tenham trechos ternos como esse, a atmosfera geral é soturna e ornamentada por um instrumental minimalista, com percussões, banjos, sopros e cordas, utilizados sempre de forma econômica. Como uma grande orquestra em que cada um faz sua parte, a menorzinha que seja. Um falsete sofrido e elástico conduz a fatalista “Dirt In The Ground”, enquanto um saxofone barítono se junta ao que parece ser uma botina batendo no assoalho – especialmente desde Rain Dogs, Waits pareceu criar um fascínio por percussões não muito convencionais.

Por incrível que pareça, uma canção do mórbido Bone Machine foi regravada pelo Ramones: “I Don’t Wanna Grow Up” – aquela lá mesmo – ganhou uma famosa versão incluída em ¡Adios Amigos! (1995), último disco lançado pela banda. A original, composta por Waits e pela esposa, Kathleen Brennan, tem as mesmas melodia e harmonia, embora não soe nada jovial, lembrando muito mais (como de costume) alguém embriagado resmungando em um balcão de bar. Mas, por mais sinistra que seja a experiência de passar por esse disco, ele carrega, como de costume, uma doçura discreta. Ao fim da jornada, os papos de morte parecem mais falar sobre libertação, renovação e novos ares. Como alguém que não sabe ao certo para onde ir, mas que, definitivamente, chegou, pelo menos, em algum lugar. O mergulho mais fúnebre de Tom Waits rendeu um Grammy de Melhor Álbum de Música Alternativa.

Destaques: “The Earth Died Screaming”, “Dirt In The Ground” e “I Don’t Wanna Grow Up”

Bad As Me (2011)

Tom Waits não soltava um material de inéditas havia sete anos, desde Real Gone (2004), e a volta do maior hiato de sua carreira aconteceu em grande estilo. Composto e produzido em parceria com a esposa Kathleen, o único trabalho de Waits lançado durante a década passada conta também com o talento (e os barulhos) de convidados ilustres, como Keith Richards e Flea, além de Marc Ribot, comparsa de longa data. Com 13 faixas, o disco funciona como boa parte da obra de Tom Waits: remete a tudo o que ele já lançou e ao mesmo tempo não se parece com nada do que ele já lançou. Baladas melancólicas e jazzeadas, à la Blue Valentine, marcam presença em “Kiss Me”, e os trabalhos percussivos atípicos também dão as caras em “Raised Right Men” e “Hell Broke Luce”. A segunda, uma barulheira orquestrada que parece ter influência do Noise, traz aquelas punchlines que amamos como “de quantas maneiras se pode polir uma merda?”.

O que destaca Bad As Me entre outros álbuns de Waits talvez seja justamente a forma com que maluquices e qualidades de 40 anos de carreira se combinam. “Talking At The Same Time” coloca o velho-Tom-no-balcão-do-bar – as frases súbitas e aceleradas de piano, sopros marcando o andamento – junto a um raro vocal agudo. O resultado é algo entre a psicodelia e a zombaria, uma coisa meio lynchiana. Por outro lado, influências do Rockabilly são notadas em “Get Lost” e os flertes com o Country e o Folk aparecem em “Last Leaf” – a versatilidade de referências rendeu uma indicação ao Grammy de Melhor Álbum de Música Alternativa. “New Year’s Eve”, das lamúrias amorosas mais bonitas de toda sua obra, fecha o repertório de maneira comovente e é mais uma amostra de como o álbum condensa sons de quatro décadas de carreira – mas com alma, coração e voz de alguém com mais de 60 anos. Na faixa-título, ele declara amor a alguém que é “o mesmo tipo ruim que ele”. Mas Tom Waits, a mim, sempre pareceu mais dizer que todos são tão ruins e tão bons quanto ele.

Destaques: “New Year’s Eve”, “Bad As Me” e “Talking At The Same Time”

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ARTISTA: Tom Waits