A Fortaleza de Mateus Fazeno Rock

“Rolê nas Ruínas”, disco de estreia do músico, tem influências que vão de Nirvana a Djavan; ele falou sobre o projeto, explicou o que significa “rock de favela” e contou como as ruas da capital cearense o inspiram

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Fotos: Nay Oliveira

“Fazeno Rock”. O gerúndio – com a licença poética de escrever como se fala no Ceará –que acompanha o nome de Mateus está ali para marcar. Para, notoriamente, contrapor as formas hegemônicas de criar rock. Com 26 anos e nascido e vivendo em Fortaleza, Mateus Fazeno Rock teve seu primeiro contato com o gênero quando criança, por meio de um vizinho que ouvia muito Nirvana, Silverchair e organizava festivais de rock no quintal de casa. Essa memória de infância motivou a pesquisa do artista quando, com as lan houses, o acesso à internet dominou as periferias do Brasil na metade dos anos 2000.

Mateus já conhecia uma coisa ou outra de violão, por conta de um projeto da ONG Revarte (Resgate dos valores através da Arte), na Sapiranga, seu bairro natal na periferia de Fortaleza. Ao lado de mais dois amigos – um que assumidamente não sabia tocar nada e outro que morria jurando que era baterista – decidiram ter uma banda. A ideia, como era esperado, não foi para frente, e os encontros entre os três eram mais imaginativos (sobre o que a banda poderia ser) do que práticos.

A engrenada veio mesmo a partir de um sarau, também realizado na Sapiranga. Além de apresentar poemas e algumas músicas, Mateus era realizador do encontro, o que o colocou em contato com diversos outros artistas e com o teatro. Apesar do contato com o rock através do grunge, Mateus não se identificava com os garotos loiros que via nas revistas. “Se você abrir uma revista de rock, as duas únicas pessoas pretas que aparecem são integrantes pretos do Sepultura ou o Jimi Hendrix”. Ele não nega a influência do Nirvana em sua musicalidade, mas buscou fundir Kurt Cobain com Djavan e abandonou virtuosismos em prol de linguagens do punk, que exigem mais energia e vontade. Um potencial enorme de identificação para jovens pretos roqueiros.

Rolê nas Ruínas (2020) é o disco de estreia de Mateus Fazeno Rock – e batemos um papo exclusivo com ele sobre o trabalho.

Mateus, o que define o “rock de favela”?

Primeiro, eu quis pontuar a forma de produção. No limite de horizonte que eu tenho, vejo que a maior parte das bandas de rock no Brasil, pelo menos as que ganharam alguma mídia, são brancas e geralmente de classe média para cima, que têm uma estrutura em torno, acesso ao estúdio, e minha produção foi toda em outro contexto. A permissão a se embevecer por outras musicalidades que fazem parte do meu universo, a expansão de ritmos dentro da linguagem rock. O que põe rock na coisa que eu tô fazendo é mais a energia e algumas texturas do que a própria estrutura musical em si. A história também que se conta.

O Rolê nas Ruínas fala sobre uma travessia no tempo e no espaço, de mundos em cisão. Uma história de jovens da favela fazendo suas coisas – festas, trabalhos, jornadas – e as coisas que acontecem nesse caminho com esse corpo, como o mundo recebe, percebe, trata e segrega o corpo favelado. Quais são as marcas que essa estrada deixa. Para fazer esse disco, eu de fato atravessei a cidade, no sentido material, mas tem essa travessia do mundo preto com o mundo branco. Tem esse atrito inegável.

Essas ruínas são de onde?

De Fortal. Uma cidade explorada pela especulação imobiliária, em que a galera ocupa terrenos e espaços e passa por desocupações para obras de Copa do Mundo ou qualquer dono de construtora, acordos empresariais. Guerra de facção que é resquício desse mundo em ruínas, de matar a gente, instigar a gente a adiantar um trabalho colonial. O Brasil é essa continuação desse processo de destruição.

Como você analisa, hoje em dia, a questão do apagamento histórico do negro como criador do rock? Sente falta de mais pivetes como você?

Esse é um ponto muito crucial para mim. O Nirvana, por exemplo, me marcou muito e não tinha como não refletir na minha forma de pensar música, mas de fato exige o exercício de você ir atrás. Foi muita grana injetada para construir o Elvis Presley e apagar tantos outros do Blues, do Blues-rock. Qual era a forma de conhecer as bandas de rock? Indo na lan house ou consumindo revistinha. Se você abrir uma revista de rock, as duas únicas pessoas pretas que aparecem são integrantes pretos do Sepultura ou o Jimi Hendrix, e só. Além de tudo, se a gente for ver as histórias, elas não são nossas, não tem a ver com a gente. Não tô falando que precisa falar sobre racismo, mas que não fala sobre questões da nossa existência, de quem a gente pode ser.

Me conta mais sobre a capa e contracapa? Me lembrou muito os clássicos da MPB.

Quem me ajudou nesse corre foi a Arara, uma artista do interior do Ceará. A gente foi ouvindo os discos aos poucos e conversando e chegamos nessa concepção que deveria ser um retrato e aí só fomos pesquisando climas. Tem uma capa em especial que é uma das referências mais diretas, que é o disco MINAS (1975), do Milton Nascimento.

“Aquela Ultraviolência” é a música mais narrativa do disco. Qual a história dela?

É a única música do disco que não é minha, é do Caiô. Ela fala muito sobre alguns processos de construção enquanto homem preto tanto nas relações afetivas quanto nas relações de amizade e a inserção no mundo branco. Muitas vezes, para validar nosso trampo, nóis que tá na arte – pelo menos aqui em Fortaleza – tem que passar por determinados rolês específicos como se só dali fosse surgir o mercado ou profissionalismo do seu corre. Nessa, a gente se relaciona com brancos playboys e nesses espaços não existe cuidado com a gente. Quando não existe cuidado, não existe diálogo. As cisões são mais bruscas, mais doloridas, a gente se mata em diversos sentidos para caber e deixar de caber.

Quais são as coisas que te dão mais medo?

Tenho muito medo de morrer de tiro. Já imaginei em trezentas situações na minha vida, tipo “eu vou morrer agora”. E aí penso porque tenho esse medo. Porque tenho esse medo se não sou envolvido, se corro pelo certo aqui, se acredito que tô aqui na minha, na paz. Esse medo é iminente e ele é da infância. Se você cresceu na favela, sabe. Já perdi muitos amigos e amigas pra guerra, já passei por diversos baques violentos, principalmente quando era mais novo, 13, 14 anos, uns baque traumatizante. Não é um motivo vazio. Só em ter pessoas ao meu redor que passaram, já é motivo suficiente.

E o que te dá coragem?

Esses dias vi várias pessoas compartilhando um post que dizia: “quando me sinto respeitado e acolhido, a minha criatividade se expande”. O que me dá mais coragem é quando eu estou em espaços de acolhimento e respeito. Todo esse processo de fazer esse disco foi um processo de entender as furadas que eu tava me metendo na minha vida, as péssimas escolhas e mudei minhas rotas e posturas e as coisas “desalinharam”. Quando você está com gente que lhe ama, só vai e fé que vai dar tudo certo. E o que não der também você também vai ter amor pra resolver.

“A maior parte das bandas de rock no Brasil, pelo menos as que ganharam alguma mídia, são brancas e geralmente de classe média para cima, que têm uma estrutura, acesso ao estúdio, e minha produção foi toda em outro contexto. A permissão a se embevecer por outras musicalidades que fazem parte do meu universo, a expansão de ritmos dentro da linguagem rock. O que põe rock na coisa que eu tô fazendo é mais a energia e algumas texturas do que a própria estrutura musical em si. A história também que se conta.”

Qual foi a principal mudança de postura que você sentiu que abriu esses caminhos?

Foi ser sincero comigo. Entender meus desejos e vontades como ser humano, não negar minhas necessidades de vida. Acho que gente passa muito por isso de estar com uns filtros que nem são nossos na hora de fazer as escolhas da vida. As vezes é o tapa da vida que fala com a gente, às vezes é o carinho. Pode ser pelo amor ou pode vim pela dor.

Como faz para misturar Djavan e Nirvana no mesmo som?

Nem sei, porque o Djavan eu uso como um adjetivo de música boa. Tem uma mana que eu conheço que ela usa um termo nas escritas dela e que depois eu peguei para mim que é “excelência preta”. O fato de que os pretos são muito bons no que fazem. Acho que o Djavan é o sinônimo disso.

Essa excelência vem de uma coisa natural nossa ou parte da pressão de precisar ser duas, três vezes melhor?

Eu acho que são duas questões distintas. Acho que existe essa pressão. Tenho um amigo que era gerente de uma super lanchonete aqui e ele vivia sobre pressão. Eu pensava muito nisso, tipo “cara, ele tá realmente numa situação em que ele é o superior de um monte de branco naquele lugar”. E aí tem todo um mecanismo que criam para desvalidar qualquer ação da gente. Então se a gente dá um vacilo, é cobrado 5x mais. Mas eu acho também que a gente tem um flow, uma manha, um suingue em várias coisas da vida pela própria vivência. Já que a gente tem tanto que se virar, a gente pega umas manha. Se você é músico, se você é gerente de algum lugar, se você tá simplesmente indo pra parada de ônibus, tem as manha que a gente tem que lidar no dia a dia.

A frase “legaliza a missa pro trabalhador” é muito potente, vi que “Missa Negra” é o nome do seu show também. Qual é o lance da missa?

O lance da missa veio como uma relação mais direta da missa e do culto aos domingos. Eu gosto muito de ir à praia e tava observando que a praia aos domingos é majoritariamente preta. Historicamente, onde a gente foi colocado nas classes sociais, a gente tá a semana inteira no corre e até esse direito de lazer é negado. Aqui em Fortaleza tem uma praia que atualmente se chama “Praia dos Crush”. Quando ela lota de pretos aos domingos, a polícia dá uns tiros pra galera se dispersar e ir pra casa. Eu ficava pensando nessa praia ao domingo como um ritual. Pessoal fala “minha praia é sagrada, o domingo ninguém tira”. É o lance de descriminalizar nosso lazer e propor esse descanso como um ritual sagrado, já que a gente tá boa parte da vida no corre.

“Quando você está com gente que lhe ama, só vai e fé que vai dar tudo certo. E o que não der você também vai ter amor pra resolver”

Como a gente percebe na sua música, existem muitas semelhanças entre o Harlem e Cajazeiras. Quais as diferenças?

Eu nem sei. O alvo é o mesmo. Muda o contexto político e talvez os motivos. Por exemplo, aqui a gente vive um lance das facções organizadas, milícias… E todo esse corre é o mesmo corre de quando surgiu no Brasil as milícias no período pós-abolição, que já era mesmo para proteger as propriedades privadas dos brancos e judeus e pra garantir um processo que dizia que “em 100 anos não haverá mais negros nem indígenas no Brasil”. Todo esse processo, não só de miscigenação, mas do assassinato e encarceramento, servia a isso. Quando rola essas coisas das facções, os territórios guerreiam entre si e a favela esquece que nós somos uma forte conexão econômica, política e cultural e perde tempo se matando. Somatizando: a gente morre demais.

Puxando o gancho da última música do disco: se o fim do mundo fosse hoje, o que você faria?

Ia tomar um banho de lagoa lá na Sabiaguaba! Depois ia para casa almoçar com a minha família, baiãozinho, peixe e esperar (risos).

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