Cadê – Capital Inicial – Capital Inicial (1986)

Primeiro disco do famoso conjunto do Rock Brasileiro é um dos mais difíceis de ser encontrado no catálogo da banda

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No início de 1985, enquanto o primeiro Rock In Rio entrava para a história do Brasil, outro evento, menos, mas bastante importante, tinha lugar: a chegada às lojas do primeiro disco da Legião Urbana. Quem estivesse se convertendo ao Rock nacional naquele mês de janeiro fatalmente levaria um LP da Legião para casa, ao lado das atrações do festival, como Paralamas Do Sucesso, Lulu Santos, Blitz, Barão Vermelho ou Kid Abelha. O disco da banda brasiliense é importante justamente por marcar uma espécie de nacionalização daquela geração do Rock brazuca, no sentido de expandir o mapa vigente, até então restrito ao Rio de Janeiro. Se havia gente importante e talentosa em São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia, Brasília ou qualquer outro estado, era uma questão de tempo até que dessem as caras. O fato é que as bandas da área 061 já atuavam nos subterrâneos de Rio e São Paulo, os dois pólos do Rock no país. A banda de Renato Russo militara durante todo o ano de 1984 no circuito carioca, fazendo shows no Circo Voador, tendo suas gravações amadoras iniciais tocadas e pedidas na Fluminense FM e, por fim, assinado contrato com a EMI para as gravações do primeiro álbum, a ser produzido pelo jornalista José Emílio Rondeau. Brasília, no entanto, não era só Legião Urbana.

Dentre as várias formações candangas em atividade no início dos anos 80, era evidente que as primeiras a fazer sucesso fora do ambiente da capital federal seriam Aborto Elétrico ou Plebe Rude. Ou ambas. A primeira sofreu um baque inesperado em 1982 e encerrou suas atividades após uma discussão entre Renato Russo e Felipe “Fê” Lemos. Ambos já experimentavam desgastes em sua relação de companheiros de banda, iniciada em 1978. Renato formou Legião Urbana após algum tempo cantando sozinho e Fê, mais seu irmão e baixista do Aborto Elétrico, Flávio Lemos, recrutaram o guitarrista Loro Jones, que tocava na Blitx 64. Após algum tempo sem vocalista, o trio resolve apostar numa voz feminina e uma amiga, Heloisa Teixeira, que é recrutada e desligada do grupo pouco tempo depois. O posto seria ocupado por um amigo em comum, Dinho Ouro Preto, que fazia parte da famosa Turma da Colina (grupo de amigos que se reuniam nas festas underground) e era fã de Aborto Elétrico. Capital Inicial estava pronto para o sucesso, que não tardou a chegar. Ainda baseada em Brasília, a banda começa a receber convites para shows em outras partes do país e decide se mudar para São Paulo por questões logísticas.

A capital paulista naquele ano de 1985, já se encontrava em plena ebulição por causa da nascente cena Rock da cidade, que se traduzia no surgimento de várias boates e danceterias. Naquela época, “ser de Brasília” era algo a ser levado em conta, e signficava um certo pedigree sonoro para as formações oriundas do DF. Com o estouro iminente da Legião Urbana, já estabelecida no Rio e com a Plebe Rude também próxima da gravação de seu primeiro disco, Capital Inicial conseguira contrato com a gravadora CBS para gravar seu primeiro compacto, Descendo O Rio Nilo/Leve Desespero, que colocou a banda no mapa. Logo apareceriam= na trilha sonora do filme Areias Escaldantes, junto de Ultraje A Rigor, Ira!, Metrô, entre outros grupos prontos para receber seu lugar ao sol. A partir do êxito de vendas do compacto e da projeção do filme, o grupo foi contratado para a gravação de seu primeiro disco. No início de 1986, Capital Inicial, álbum homônimo, chega às lojas com grande expectativa causada pelo estouro nacional da faixa Música Urbana, pinçada do antigo repertório do Aborto Elétrico, que teve sua letra finalizada por Renato Russo após um bom tempo sem falar com os irmãos Lemos. O arranjo de metais da canção já apontava um grande diferencial do grupo em relação às outras bandas de Brasília, até então calcadas na sonoridade Punk. O uso de teclados, a cargo do produtor do disco, Bozo Barreti, tornou o som mais Pop e climático, algo que feriu ouvidos dos fãs de primeira hora, mas que possibilitou um alcance muito maior entre os novos consumidores do Rock brasileiro.

Além de Música Urbana, uma série de hits está presente neste primeiro disco: a revoltada Psicopata, a simpática No Cinema, a lírica Fátima, a invocada Tudo Mal e a melhor canção do álbum (e da carreira da banda até hoje), Leve Desespero, que já fora lançada como lado-B do primeiro compacto, mas que aparecia refeita e com um arranjo que não deixava nada a dever a qualquer banda inglesa de Pós-Punk da época. Bozo acabaria efetivado na banda e o grupo conseguiria colocar seu nome entre as formações de ponta, surgidas no boom do Rock nacional oitentista, numa carreira incrivelmente longeva, que dura até hoje, mas que não se identifica totalmente com este início.

O primeiro disco do Capital foi lançado em CD e relaçado num box, junto com os primeiro trabalhos de Legião Urbana e Plebe Rude, por conta do documentário Rock de Brasília. Mesmo assim, é bastante raro e pode ser encontrado em sites por valores que variam entre R$ 60,00 e R$ 100,00.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.