Cadê: Claudinho & Buchecha – Claudinho & Buchecha (1996)

Primeiro álbum da dupla é um milagre de simplicidade e achados poéticos

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Em algum lugar de 1995, Lulu Santos gravava seu álbum Eu e Memê, Memê e Eu, no qual o veterano cantor e compositor carioca procurava uma maneira de renovar sua carreira. Por conselho de Memê, o produtor e DJ Marcelo Mansur, Lulu voltou sua atenção para as inúmeras duplas e artistas da zona norte carioca ou mesmo da região metropolitana, que militavam na cada fez maior cena Funk. Era uma boa maneira de atingir um público ainda inexplorado e se reinventar, tudo ao mesmo tempo. Lulu gostou de William e Duda, os responsáveis por um grande sucesso dos bailes, o Rap do Borel, sobre a famosa comunidade tijucana, e decidiu chamá-los para participar de uma faixa do próprio disco, intitulada “Perereca FM”. Era pouco maior que uma vinheta, na qual a dupla ligava para uma emissora de rádio e pedia o Rap do Lu, que era o antigo sucesso Toda Forma de Amor devidamente remixado, repaginado e com introdução da dupla, que também aparecia no final da faixa.

Esta participação dos funkeiros no álbum de Lulu foi simbólica ao extremo e serviu para que vários artistas que militavam no subterrâneo suburbano carioca tivessem a chance de aparecer. As duplas e MC’s eram, na maioria das vezes, desafinados e não tinham uma noção muito precisa do aspecto musical, algo que não se aplicava a Claudinho & Buchecha. Os dois se conheceram ainda meninos na comunidade do Salgueiro, em São Gonçalo, munícipio do Grande Rio. Como a maioria dos jovens nascidos ali, ambos largaram os estudos na quarta série primária e foram trabalhar. Buchecha (nascido Claucirlei Jovêncio de Sousa) vendera doce nos ônibus de Niterói, fora office boy e pedreiro, até entrar para um grupo de pagode aos quinze anos. Claudinho (Claudio Rodrigues de Mattos) vendera pipa na praia e também trabalhara como ajudante de pedreiro. Foi ele que teve a ideia de formar a dupla em 1992, quando convenceu Buchecha a participar de um concurso de rap no Clube Mauá, em São Gonçalo. O entusiasmo não foi dos maiores, mas a dupla inscreveu o Rap Da Bandeira Branca e obteve o primeiro lugar. Mesmo assim, Buchecha continuava sem vontade de ser MC. Isso mudou quando ganharam mais um festival, desta vez, com o Rap do Salgueiro. O sucesso dessa canção foi tanto que o então reticente Buchecha logo estava aprimorando seus dotes de compositor, usando recursos inusitados em suas rimas, como usar um dicionário para encontrar palavras mais rebuscadas e enriquecê-las. Vocábulos como “desditoso”, “adjudicar”, entre outros, davam conta da preocupação do autor.

O Rap do Salgueiro, uma ode à comunidade em que nasceram e à própria cena Funk daquele tempo – radicalmente diferente do que existe hoje -, varreu as rádios e catapultou o sucesso da dupla numa velocidade impressionante. A afinação dos dois foi fator de grande importância. Até então, a maioria das gravações era feita em péssimas condições, fosse em estúdio, fosse em versões ao vivo, pirateadas das apresentações nos bailes. A sensação de identificação do ouvinte com a canção era o que valia, mas Claudinho e Buchecha foram os primeiros que apontaram para a possibilidade de enfatizar o aspecto musical das canções. A dupla também tinha influências maiores, indo do básico Funk Melody ouvido nos bailes do fim dos anos 1980, chegando ao Pop do próprio Lulu Santos. Não por acaso, registraram uma simpática versão de Tempos Modernos no primeiro disco, que não tardaria a chegar.

Após o convite da gravadora MCA (depois Universal), Claudinho e Buchecha adentraram o estúdio e foram produzidos por Victor Junior e Robson Leandro, dois sujeitos que eram desconhecidos apenas fora da cena carioca dos bailes, uma vez que ambos eram responsáveis por quase todas as gravações que circulavam nas rádios. Os dois tiveram a sensibilidade para acrescentar instrumentos além do bate-estaca eletrônico de baixíssimo custo que caracterizava as produções naquela época. O resultado é sensacional em sua simplicidade absoluta. O álbum produziu cinco hits irresistíveis, que serviram para credenciar a dupla como promessa na música Pop do país (ainda no segmento do Funk mas já apontando para uma transição que viria dois anos depois) e solidificar a presença de Claudinho e Buchecha como nascentes ídolos jovens, cuja positividade, dança e atitude conseguiram grande apelo junto ao público em geral, inclusive o infantil.

A primeira canção nas paradas era a já conhecida Rap do Salgueiro, com sua vibração de baile e pedidos pela paz, com indiretas sensacionais para o pessoal que ia brigar em vez de se divertir, conclamando-os a prestar atenção nas mulheres rebolativas. No mesmo molde de canção para o baile, veio Carrossel de Emoções, com mais saudações às comunidades carentes, além de versos (“Menino de Deus e massa da favela eram as mais visadas na imagem de uma tela. Sorria, era tão legal ver o mulão, zoando no trenzinho, acenando com a mão”) sobre a própria dinâmica da dança no salão, algo absolutamente sensacional. Em seguida estourou o maior sucesso da carreira da dupla, Conquista, com seu indefectível Sabe, tchururu, estou louco pra te ver, oh, yéis, uma das marcas registradas de Buchecha como cantor. O que pode parecer caricato, demonstrava uma noção mínima de música americana, do R&B americano daquela época, que certamente se refletia na estrutura das composições. Foi um hit naquele ano, algo que também aconteceu com Tempos Modernos, da primeira leva de composições de Lulu Santos, totalmente recriada num instrumental dançante/eletrônico muito digno para uma produção tão simples, alternando efeitos e teclados tocados ao vivo, com um resultado bem interessante. Fazer versões de canções Pop tornou-se uma marca registrada da dupla nos discos seguintes a partir dessa gravação.

O grande sucesso do primeiro álbum da dupla é, sem dúvida, Nosso Sonho, uma canção oscilando entre a dança e o romantismo, baseada numa história real de uma fã da dupla, que morava no município de Duque de Caxias, que queria “ficar” com Buchecha, que, todo cavalheiro, explica para a menina na letra da canção que isso não é possível pela diferença de idade e demais fatores “extra-campo”. A música ultrapassou o universo do Funk Carioca e chegou nas paradas de música Pop com grande apelo.

Claudinho e Buchecha foram artistas inseridos num contexto Pop nacional dos anos 1990 de inclusão, recepção de novas influências e uma grande riqueza disfarçada de simplicidade. Falaram a língua do povo, de vários lugares e passaram para um padrão mais elaborado em termos de produção e arranjos a partir do terceiro disco, Só Love, gravado em 1998. Mesmo assim, nunca deixaram de lado suas raízes humildes, permanecendo sempre como jovens talentos vinculados ao subúrbio do Rio e municípios próximos. A carreira foi abortada em 2002, quando Claudinho morreu num desastre automobilístico, aos 27 anos. Buchecha continuou em carreira solo, mas nunca repetiu o mesmo sucesso e inspiração.

O primeiro álbum da dupla está fora de catálogo há tempos mas pode ser encontrado por valores que variam entre R$ 30,00 e R$ 50,00, verdadeiro documento de espontaneidade e talento.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.