O ensaio da utopia

Atrações da Mamba Negra, Malka e Rayna conversam sobre parceria musical

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Fotos: Bruno Dantas

liberdade

substantivo feminino

1.
Liberdade significa o direito de agir segundo o seu livre arbítrio, de acordo com a própria vontade, desde que não prejudique outra pessoa, é a sensação de estar livre e não depender de ninguém. Liberdade é também um conjunto de idéias liberais e dos direitos de cada cidadão.

Mamba Negra é uma festa, é um selo, é um coletivo… Em resumo, é um ambiente especial pela sua liberdade preservada. Desde quando surgiu, há seis anos, faz questão de manter e ser um dos redutos mais diversificados da noite. A cada edição, os corpos e a música interagem em perfeita harmonia. É quase como se a festa se transformasse em uma bolha: uma realidade paralela distante do conservadorismo que parece assolar o país neste momento. Evidentemente, essa atmosfera atrai uma pluralidade de músicos, artistas e um público que está ali para usufruir verdadeiramente desse espaço que à luz do dia nem sempre encontra vazão. A dupla Malka e Gavin Rayna Russom, que se apresentou na última edição do evento em São Paulo, personifica bem esses ideais vanguardistas. De um lado do b2b estava a diretora da Trava Bizness – primeira gravadora a lançar apenas artistas trans -, multi-instrumentista e produtora com 19 anos de carreira musical. Do outro, a integrante do grupo norte-americano LCD Soundsystem e ganhadora do Grammy de melhor faixa de Dance por “Tonite”, música do álbum american dream (2017). Juntas, produziram um dos sets mais completos e refinados que já vimos na pista da Mamba Negra. Por meio da música, as duas se combinam para exaurir uma poderosa vontade de viver. Em conversa com o Monkeybuzz, elas revelam como conseguiram se unir com tanta coesão e alcançar esse resultado.

MONKEYBUZZ

Como vocês conheceram o trabalho da outra?

MALKA

O trabalho da Rayna está nos meus ouvidos desde a primeira vez que ela esteve aqui, em 2006, e assim conheci o Black Meteoric Star. Depois, continuei a apreciar seu trabalho no LCD Soundsystem também.

MB

Como vocês se conheceram? 

RAYNA

Malka e eu tocamos no evento Me Chamo Pelo Meu Nome (celebração pelo direito ao nome de pessoas Trans e Travestis), apresentado pela A Revolta da Lâmpada, em 2018, mas não nos conectamos direito na época. Algum tempo depois, ela me mandou mensagem pela Internet e se apresentou. Estava voltando para São Paulo e então, podemos nos conhecer pessoalmente.

MB

Como vocês acreditam que o trabalho de vocês se entrelaça? Quais são os pontos em comum e as diferenças?

RAYNA

Para mim, há uma essência em comum, uma relação com o som e espaço. Uma vibração gótica e uma forte consideração pelo corpo. Nós duas trabalhamos com vários estilos e gêneros, conseguimos ser boas tanto no contexto da arte quanto nas festas. E claro, trabalhamos muito em colaboração.

MALKA

Creio que nossas influências se cruzam quando falamos de Acid e de música gótica. Temos muitas idéias parecidas no processo de síntese. As diferenças existem no que toca a matriz cultural da música de cada uma. Porém, mesmo tendo nascido em países com culturas musicais completamente diferentes, nos encontramos no meio do caminho através da pesquisa e ouvidos bem abertos.

MB

 Quando e como começou a história de vocês com a música eletrônica? 

RAYNA

Com uns sete anos de idade, tinha um mini piano elétrico de brinquedo que adorava pressionar todas as teclas ao mesmo tempo para produzir um efeito. Minha própria música. Na adolescência, comecei a ouvir música eletrônica voltada para o corpo. No início era Acid, Techno, Industrial, e claro, o Rap e os Samples que já estavam em evidência no Eletrônico, especialmente Public Enemy. Comecei a produzir música eletrônica com meu primo que morava na mesma rua. O pai dele era programador de computador e tinha uma boa conexão com tecnologia na época. Aos 14 anos, estava produzindo nossa primeira versão de Acid House, em 1989. Comecei a tocar em 1990, comprei meus primeiros equipamentos em 1991 e, a partir daí, comecei a experimentar com coisas antigas dos meus pais – violão, máquina de fita bobina. Eu também já estava tocando em bandas. Primeiro bandas de Punk e depois grupo de Noize, popular nas raves de crianças. Continuei a crescer a partir daí: festas, fazendo tracks, gravações experimentais e tocando em bandas até hoje.

MALKA

Desde nova me interessei em captar sons que eu compunha. A música eletrônica sempre foi o caminho de poder fazer isso e não precisar de uma banda. Quando eu era bem nova, costumava a gravar mixtapes com um amigo que continham entre piadas e um programa de rádio imaginário, em determinado momento da fita existiam as músicas. Sem saber os termos técnicos, sampleava batidas e criava loops usando os dois decks da fita k7. Na época, esse amigo tinha uma entrada para microfone, o que significava que podíamos gravar qualquer coisa ao redor do aparelho. Depois, pegávamos um som portátil para tocar aqueles loops gravados com uma guitarra minha que não afinava e cantávamos algumas letras de zoação por cima. Acho que foram as primeiras produções que já fiz na vida. Infelizmente, tudo perdido.

MB

Que tipo de som tem interessado mais vocês? O que estão ouvindo que a gente deveria ouvir também?

RAYNA

Para ser sincera, estou muito empolgada com o que a Malka está fazendo com a Trava Bizness e com todos as artistas que participam. Também tenho me divertido muito saindo por Nova York, ouvindo as pessoas fazendo sons radicais com uma atmosfera social. As coisas estão fodidas em todos os lugares, mas acho que São Paulo e Nova York estão mostrando o poder da resistência através da cultura e a cultura através da resistência. Ambos estão dando um bom exemplo, especialmente nos círculos queer, feminista, negro e em todas as interseções. Estou interessada e empolgada com isso.

MALKA

Essencialmente, ouço música brasileira, de todo o tipo e estilo músical. Produzir e ajudar a produzir artistas da Trava Bizness me fez viajar por diferentes tipos de beats e maneiras de se encarar a música. Tenho ouvido muito Funk e Rap que são os dois mundos musicais em que ainda existe vasta possibilidade de inovação – se misturados a musicalidade brasileira ou na música eletrônica européia. Tenho ouvido muito Luiza Lian, acho o trabalho do Charles Tixier fantástico. Eu sempre estou de olho também no que a minha mana BadSista está fazendo. Achei a produção do Pedrow no disco Rito de Passá da MC Tha impecável, as composições dela alinhadas a sonoridade dele produziram um dos melhores discos do ano. Ouço muito a música das minhas manas de antes da gravadora, ainda ouço muito o primeiro EP da Alice Guel, tudo da Rosa Luz, Dellacroix, elas estão nos meus ouvidos toda hora.

MB

Maiores referências na música eletrônica e de outros gêneros.

RAYNA

Acid era uma grande coisa para mim, é claro, falo sobre isso o tempo todo. E o Noize também, especialmente depois de conhecer Harry Pussy e Merzbow. Bandas de Punk como The Germs, Crass, The Slits e grupo de Hardcore como Burn, Within, Killing Time, Eye for a Eye, Absolution, Rites of Spring foram uma grande parte do que eu cresci e que ainda atuam como referência. As compositoras Eliane Radigue e Laurie Spiegel foram primordiais para eu me encontrasse. O fim abstrato e espiritual do Jazz, como o falecido John Coltrane, Alice Coltrane, Cecil Taylor e Albert Ayler. Toda a cena do Dream Syndicate: Tony Conrad e Angus Maclise especialmente, super importantes. Arthur Russell era grande exemplo para trabalhar em compor peças de vanguarda e faixas para o clube tge. Patrick Cowley, mesmo. Italo Disco e trilhas sonoras de filmes italianos. Doris Norton, super importante para mim. Eu poderia continuar e continuar… Mergulhei em muitas músicas, muitas delas nas pistas de dança ou em outros ambientes sociais, onde eu nem sabia o que estava ouvindo, mas a referência sônica permaneceu no meu corpo.

MALKA

Nine Inch Nails, com certeza, influencia o meu trabalho até hoje. Toda gangue e sonoridade da DFA Records. Curto muito o trampo da Anna, a Saskia e a Raianny Sinara.

MB

Qual a diferença em tocar sozinha e tocar juntas?

RAYNA

Há níveis aos quais não consigo acessar, a menos que esteja tocando sozinha. É assim que é para mim. Eu consigo ir muito mais fundo sozinho. Porém, tocar com outra pessoa traz certos aspectos em foco nítido, e isso pode ser um bom negócio.

MALKA

É um pouco diferente em como sinto as vibrações. Tenho costume de dividir palco com as meninas que fazem freestyle comigo em sets e é muito interessante as coisas que podem acontecer quando estamos entrelaçando energias diferentes e encontrar suas similaridades em um estado de improviso. Já sozinha enxergo como um estado de imersão.

MB

Qual instrumento cada uma toca? Como vocês aproveitam instrumentos acústicos na música eletrônica?

RAYNA

Eu não toco instrumentos. O que eu faço é moldar o som e eu uso instrumentos para fazer isso. De certa forma, é como se eu tocasse de tudo porque minha abordagem é profundamente estrutural. Ultimamente, quanto aos instrumentos acústicos, usei violão, saxofone e piano, além do espaço acústico. O espaço tem muito a ver com a maneira que me movo entre as abordagens eletrônicas e acústicas. Eu basicamente penso em tudo como um módulo de sintetizador.

MALKA

Toquei na apresentação da Mamba Negra uma viola de arco ligada a uma mesa de efeitos com um Microkorg.

MB

Como a música eletrônica pode ser um espaço de resistência queer?

RAYNA

A primeira instância em que isso me tocou foi ao ter percebido que a flexibilidade e a fluidez do som que se pode acessar através do eletrônico, faz um paralelo às minhas experiências internas de sexo, gênero e sexualidade. O que eu estava experimentando internamente sobre esses temas não refletia em nenhum lugar da cultura em geral, e possivelmente ainda não é, mas o som eletrônico me permitiu criar meu próprio contexto e ambiente em que minhas experiências faziam sentido e tinham ressonância. Em outro nível, é algo que une as pessoas e excita sua imaginação, o que, especialmente para as pessoas queer, é uma chave significativa para criar resistência. Na pior, nós, estranhos, ficamos isolados e roubados de nossa imaginação por um sistema de organização social que nega, nos explora ou a ambos. A experiência na música eletrônica pode ser um antídoto para isso.

MALKA

A música eletrônica tem uma história com os corpos dissidentes. Sempre abraçaram a noite, o que a sociedade não quer aceitar durante a luz do dia. O momento atual da música eletrônica brasileira abraça muitas pessoas, criando uma linguagem musical de novos corpos, de perspectivas diferentes da norma. É algo que em tempos de repressão e censura pode ser mais perigoso, e quando a arte encontra com a sensação de perigo, ela move muitos sentimentos.

MB

O que vocês esperam da música eletrônica no Brasil e no mundo?

RAYNA

Que as pessoas continuem construindo a cultura local e reinventando o meio, as técnicas e os métodos!

MALKA

Vejo cada dia mais as barreiras entre os estilos se dissolvendo. Vejo o aumento da música eletrônica sendo feita ao vivo. Vejo um futuro de shows eletro-acústicos cada vez mais modernos.

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