O encontro com a batida perfeita

Uma conversa/sabatina com Papatinho sobre beats, referências, Dr. Dre X Kanye West, quase produzir para Kendrick Lamar e bicicletas enferrujadas

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Fotos: Divulgação / Fernando Schlaepfer

Nessa “brincadeira de fazer beat” – como ele diz – há mais de 13 anos, Papatinho foi de febre do underground a um dos xodós do mainstream trazendo debaixo do braço seu grande trunfo: a versatilidade. O carioca de 32 anos, hoje, vai do Rap ao Pop, passando pelo Funk e o Trap, mas começou sua carreira como beatmaker/produtor/cérebro por trás da ConeCrewDiretoria. O grupo formado sob os Arcos da Lapa foi um dos destaques do rap nacional durante a primeira metade dessa década e, com “Chama Os Mulekes”, lançada no final de 2011, atingiu o grande público – muito por conta do instrumental irresistível que sampleia “I Put Spell On You”, de Nina Simone.

A fumaça e os beats da Cone logo chamaram atenção de Marcelo D2, que convocou Papatinho para produzir um dos singles do disco Nada Pode Me Parar (2013). Ainda que pelo escopo do Rap, esta foi a primeira aventura de Tiago da Cal Alves, de fato, no mainstream. De lá para cá, a lista de colaborações cresceu e se diversificou, explodiu: Gabriel O Pensador, Criolo, MC Guimê, Ferrugem e até Capital Inicial ganharam produções de Papatinho. O auge de sua polivalência foi, durante algumas semanas de 2019, dividir-se entre o celebrado retorno de uma lenda do Rap e uma parceria das duas maiores estrelas do Pop nacional. Se um dia ele acordava pensando nos beats de Abaixo de Zero: Hello Hell (2019), de Black Alien, no outro, era hora de se dedicar à “Onda Diferente”, canção do trio Anitta, Ludmilla e Snoop Dogg.

Lançando seu primeiro EP solo, Rio (2019), no início desse ano, Papatinho sofreu (“Essas perguntas parecem fáceis, mas são as mais difíceis”, disse) e listou para o Monkeybuzz de onde vêm suas maiores e mais inusitadas inspirações. Além de falar do caminho até uma identidade sonora própria e das produções que colocaram seu nome entre os mais procurados de sua geração.

5 beats de outros produtores que inspiraram sua trajetória como beatmaker

Com certeza tem que ter o Dr. Dre, então eu vou de “Still Dre”. Esse beat é atemporal, um clássico e os timbres são sensacionais. Poderia escolher muitas outras dele, mas vou ficar com essa para dar espaço para os outros, senão eu vou lotar a resposta com Dr. Dre.

Kanye West eu sou tão fã quanto o Dre, são minhas duas maiores referências. Vou colocar “Get By”, do Talib Kweli, produzida pelo Kanye. Foda demais, sample da Nina Simone.

E outra do Kanye, que é muito “estilo Papatinho”. Porque, quando comecei, eu tinha muito essas referências de samplear: aumentar o tom, acelerar o pitch dos samples, principalmente de Soul. “Aquelas vozinhas”, que a galera fala popularmente, acabaram identificando a minha sonoridade e esse som foi o início de tudo: “Overnight Celebrity”, do Twista, produzida pelo Kanye West. Eu bebi muita dessa fonte do Kanye, é uma em que eu me inspirei para depois criar o meu estilo. Você começa a produzir com as suas referências até criar a sua própria sonoridade. Antes, você caminha por isso.

Vou colocar “Good Ol Love”, beat do 9th Wonder, música do Masta Ace. Esse sample é sensacional, bonitão. É outro estilo a partir do qual eu produzi muita coisa, principalmente pra ConeCrew, de samples bonitões, pra fazer aquelas músicas pra emocionar. Porque tem as músicas de festa e música para emocionar (risos). Como foi “Pra Minha Mãe”, da Cone, com esses samples de soul.

Para finalizar, tem que ter o J Dilla. Então, vou colocar “Players”, do Slum Village.

5 beats preferidos produzidos por você

Então, é muito difícil eu falar meus beats preferidos produzidos por mim. Acho que eu nunca tinha parado pra pensar nisso. Porque, cara, eu gosto dos meus beats (risos). É como se fosse filho. Eu tenho como identificar os que mais deram resultado, os que a galera mais gostou. Obviamente, eu tenho minha autocrítica de identificar coisas que eu não gosto tanto assim, e que eu acabei fazendo pela música. Porque há casos em que a música não exige tanto do produtor, do beatmaker. Às vezes eu preciso ser mais um complemento. Mas também reconheço que, em alguns momentos, a minha produção deu um destaque para a música. Enfim, é muito difícil falar, porque tem muita coisa que eu gosto que não lancei, ou que não lancei ainda.

E são estilos e épocas variados, eu tô há 13 anos nessa brincadeira de fazer beat. Tem o Boom Bap da fase inicial, até os Traps ou Traps Funks que eu tô fazendo agora. Não tem como comparar um Trap Funk que fiz ontem e que eu amo, com um beat que eu fiz em 2008 e que amo também. Eles fogem muito um do estilo do outro. Eu assinei todas as produções da ConeCrew e eu sabia que, para conseguir me manter como produtor, ia ter que ter versatilidade para aprender a produzir todo tipo de música. Esses beats acabam ficando incomparáveis. Começar produzindo Boom Bap com sample de Soul e estar produzindo hoje o que eu tô produzindo, de qualquer estilo, exigiu um estudo grande. E, como consequência, um se diferencia muito do outro para eu mencionar 5. Mas vou fazer assim: 5 que foram muito importantes e que colocaram meu nome em evidência e que tem que ter na lista.

“Chamas o Mulekes”, da Cone Crew Diretoria. Foi o beat que fez o público e a galera da cena prestarem atenção em mim como produtor e beatmaker. Meu grupo rodou o Brasil e acho que esse som foi um dos culpados.

Um mais antigo também, mas que foi muito importante para eu me expandir para além do universo ConeCrew: “Está Chegando A Hora (Abre Alas)”, do Marcelo D2. Foi single de rádio em 2013. A galera tava se amarrando nos meus beats na Cone, mas eu precisava disso. Era só ConeCrew, aí daqui a pouco “pá” Marcelo D2, que era número 1 na rádio. Sample do Ivan lins, muito maneiro. Foi uma fase muito foda. Então coloco esses 2 beats para representar essa época.

E agora, do momento atual, vou colocar mais três, seguindo esse mesmo raciocínio: “Bendito”, do Hadrian feat. Lit Killah, porque me abriu portas para o mercado latino. Eu produzi esse beat em Miami, aí depois disso já fui para México, Porto Rico. Foi muito importante para ter esse contato com a América Latina.

“Vai Baby”, do Black Alien. Em uma semana, eu produzi o álbum inteiro do Black Alien – podia até ser outra faixa escolhida, tranquilamente – e “Onda Diferente”, da Anitta com a Ludmilla, dois universos muito opostos. O álbum do Black fez ele voltar pra cena sinistramente, pesadão. E o outro lado, Anitta com a Ludmilla, o auge do Pop do Brasil, com verso do Snoop Dogg. Pode adicionar mais esses dois. Esses cinco definem a minha caminhada.

5 MCs, vivos ou mortos, com os quais você gostaria de trabalhar

Quando falam 5 MCs vivos ou mortos, já pensam logo em Tupac e Notorious B.I.G., então: Pac e Biggie. Gostaria também de trabalhar com o Kendrick Lamar, que não é tão longe assim do meu sonho. Já bati na trave durante as minhas viagens. Mas a vontade de trabalhar com ele continua. Porra, Jay-Z, não preciso falar nada. E no Brasil um cara que eu nunca trabalhei e gostaria de trabalhar é o Mano Brown.

Eu poderia citar também o Sabotage. Não que eu o tenha conhecido, comecei a produzir depois que ele tinha falecido. Mas eu tive a oportunidade de fazer um remix oficial de uma música dele. Então, é muita satisfação. Eu trabalhei com o Sabotage, eu posso falar isso! A família dele veio até mim e eu fiz esse remix de “Respeito É Lei”.

Você recebe uma ligação para escolher colaborar com as seguintes duplas: Dr. Dre X Timbaland ou Kanye West X Pharrell. Com qual dupla você escolhe trabalhar?

Caraca, maluco, acho que eu não consigo nem responder. Porque com certeza eu queria trabalhar com o Dre, então ele seria a primeira opção. Mas aí dá muita pena negar uma dupla formada por Kanye West e Pharrell. Acho que eu ia pedir para ajustar e juntar Dr. Dre e Kanye West. Se pudesse fazer essa modificação, aí seria perfeito (risos).

Inspirações mais inusitadas para samples

O tempo inteiro eu sampleio coisas, gravo áudio de uma porrada de coisa. No estúdio ou fora do estúdio. Já sampleei música oriental de relaxamento, trilha sonora de vídeo game, sampleei a voz da Anitta a capela e fiz um beat. Já sampleei bicicleta enferrujada, que anda fazendo aquele barulho agudo, e até barulho em lata de Red Bull. Gosto muito de desenvolver sonoridades novas, então tô sempre criando meus próprios samples ou sampleando coisas estranhas, diferentes.

Qual é a melhor música do novo álbum do Black Alien?

É difícil falar a melhor, mas eu posso te falar que a que eu mais me divirto escutando é “Aniversário de Sobriedade”. Um pianinho simples, mas envolvente pra caramba. É o som que a gente mais gosta de escutar lá no estúdio, quando põe o álbum do Black Alien. E tem o refrão que nunca saiu e virou saxofone. A gente tinha dois dias para entregar o disco, ficou dormindo no estúdio para fazer essa faixa. Até que criamos uma melodia para o refrão, e eu falei para ele: “Pô e se a gente botar um sax aí nessa melodia?” Porque a gente tinha criado a melodia pro refrão, mas não tinha letra. Aí gravei o Marcelo Cebukin no sax e depois ele ainda fez um solo, aí acabou virando aquilo ali mesmo. E eu me amarro nesse som. Mas eu adoro e amo todas (risos).

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ARTISTA: Papatinho
MARCADORES: Entrevista