Evolução francesa

Quem são os novos MCs que mantêm a França como um dos polos mais importantes do Rap mundial

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Fotos: Divulgação / Hype Soul

No auge das rixas entre as costas leste e oeste no Hip Hop americano, o OutKast ganha artista revelação no ano de 1995 na premiação da The Source. Sob olhares surpresos e perplexos e uma chuva de vaias, Andre 3000, um dos integrantes do duo, toma a voz no microfone e profere: “o sul tem algo a dizer”. De lá para cá, as derivações do Southern Hip Hop, como o Trap e Drill, foram ocupando espaços decisivos da narrativa do Rap durante o século 21. Lançamentos de Atlanta (cidade do OutKast e de tantos outros expoentes do Rap) somaram 2,6 milhões de vendas equivalentes a álbum só no ano passado. No entanto, o reinado da cidade compreende apenas o território americano.

Em Paris, as vendas atingiram os mesmos 2,6 milhões. Porém, uma quantidade massiva de streamings não foi contabilizada devido a esforços das instituições fonográficas francesas em implementar um sistema mais fiel ao consumo. De acordo com a RIAA (Associação Americana da Indústria de Gravação), 1.500 streamings contabilizam um álbum vendido. O imbróglio é que a instituição não distingue de onde esses streamings vêm: contas gratuitas do Spotify se equivalem, por exemplo, a contas pagas do Apple Music, e visualizações no YouTube também entram na conta.

Essa dificuldade de distinção acarreta em uma imprecisão na contagem, uma vez que não há como distinguir audição ativa e passiva. Isto é, se o consumo vem, de fato, de uma audiência ativa ou simplesmente de alguém que soltou uma playlist para tocar no churrasco de domingo. Tentando criar um sistema mais preciso e fiel à realidade e às formas de ouvir música hoje em dia, o SNEP (a versão francesa do RIAA) reformou os critérios em abril de 2018. Assim como nos EUA, 1.500 streams equivalem a um álbum, mas apenas streamings vindos de fontes pagas entram na contagem.

Isso permite deduzir que, caso fossem contabilizados como nos EUA, os milhões de vendas do Rap francês somadas aos streamings não pagos ultrapassariam a marca de 2,6 milhões de vendas. Diferentemente do Grime, na Inglaterra, o Rap francês não carrega traços tão diferentes do americano – e é, sim, muito inspirado na estética que o sul dos Estados Unidos difundiu. Ainda assim, a França definitivamente tem se estabelecido como a frente global do Rap em língua não-inglesa. Separamos dez álbuns do Rap da França para você conhecer o que de melhor tem rolado por lá:

Laylow – Trinity (2020)

Trinity é o primeiro álbum de estúdio de Laylow. O título, referência a um dos principais personagens de Matrix, indica o conceito ambientado nesse universo. Aqui, Trinity se apresenta como um “software de emulação emocional” – como define o produtor Dioscures – que “deseja” fazer o homem encontrar certas emoções perdidas em uma realidade que lhe escapa. O disco traz 22 faixas intercaladas por sete interlúdios que o seccionam e são responsáveis por introduzir Trinity e demais personagens do universo. Com abordagem sonora e produções ambiciosas, Laylow ganhou notoriedade na cena francesa no início de 2019 e guarda paralelos com Travis Scott.

Alpha Wann – Une Main Lauve L’outre (2018)

Com família em Nova York, Alpha Wann descobriu a cultura Hip Hop muito cedo. Reconhecido por sua precisão cirúrgica na narrativa e pela habilidade em brincar com as possibilidades da palavra em meio a referências diversas, o rapper tem um pouco de JAY-Z e um pouco de Pusha T na receita. Seu aguardado disco de estreia chegou em setembro de 2018, impulsionado pelos singles “Stupéfiant et noir” e “Ça va ensemble”. Alpha Wann, que alavancou seu reconhecimento internacional com uma aparição na série COLORS, aposta em um trabalho conceitual, e Une Main Lauve L’outre já figura entre os clássicos do Rap francês.

Josman – Split (2020)

Josman descobriu o Rap ainda pré-adolescente, no quarto da irmã, que era fã de Lil Wayne e 50 Cent. Já muito novo, começou a produzir e gravar seus próprios sons caseiramente para depois finalizar em estúdio. Após quatro projetos bem-sucedidos e sem feats, ele lançou seu primeiro disco, SPLIT. O título da obra é uma referência a Fragmentado, filme dirigido por M. Night Shyamalan (o mesmo de Sinais e Sexto Sentido). Lançado em 2017, o longa conta a história de Kevin, que sofre de um distúrbio dissociativo de identidade e é diagnosticado como portador de 23 personalidades diferentes – a mesma quantidade de músicas no disco do rapper francês. O trabalho de Josman destaca-se pelo zelo audiovisual e por clipes ousados e criativos – frutos de uma parceria de longa data com o diretor Marius Gonzales. Recentemente, ele lançou o clipe/curta-metragem da faixa “J’allume”.

Freeze Corleone – Projet Blue Beam (2018)

Projet Blue Beam é o primeiro álbum de Freeze corleone. O artista gosta de basear suas letras em temas que fogem daqueles que pautam o Rap convencional e, em seu debut, não poderia ser diferente. Aqui, o escolhido da vez é uma teoria da conspiração chamada Blue Beam Project. O caso é: a NASA visaria manipular as pessoas a fim de criar uma nova religião global, seguidora de um anti-cristo. Apesar de Freeze corleone não defender objetivamente a comprovação da tal teoria como quem defende o anti-vax, a vibe conspiratória perpassa todo o álbum, da escolha instrumental à impostação de voz. Recentemente, o disco recebeu uma versão Chopped & Screwed à la Memphis Rap, o que tornou a coisa mais sinistra ainda.

Niska – Mr Sal (2019)

Com clipes usualmente na casa das centenas de milhões de visualizações, Niska é um dos nomes que puxam a camada mais pop do Rap na França. Apesar disso, o rapper é reconhecido pelo seu flow característico e “firulas” líricas. Mr. Sal, seu terceiro álbum de estúdio, foi certificado como disco de ouro primeiro na Bélgica e depois na França, logo no fim de semana seguinte ao seu lançamento. Hoje já é disco duplo de platina na terra natal, com número que ultrapassam a marca dos 200 mil.

Maes – Les derniers salopards (2020)

Maes também faz parte da camada mais palatável e mainstream do Rap francês. Junto a artistas como a dupla PNL, ele é “o cara que canta”. Vai para um lado mais dançante, surfa na onda do Dancehall e do Afrobeat e, por consequência, também aparece no trampo de uma galera. Les Dernier Salopards é o segundo álbum de estúdio de Maes e foi certificado como disco de platina em fevereiro desse ano com mais de 100 mil álbuns vendidos.

Makala – Radio Suicide (2019)

Makala é o expoente do Rap alternativo nesta lista. E, na verdade, ele não é francês, e, sim, suíço e de pais congoleses. Mas atua no mercado francês de Rap e é contratado da Bertelsmann Music Group no país. Seu primeiro álbum de estúdio, Radio Suicide, é produzido inteiramente por Pink Flamingo, colaborador de longa data do artista. Makala tem um som que se aproxima de membros da Odd Future & Amigos, como The Internet, Aminé, Anderson .Paak e outros. Junto ao álbum, ele lançou também o Radio Suicide Show, um programa – outro fator que o aproxima de Tyler e seus comparsas, donos do (já) clássico Loiter Squad – no YouTube em que ele e seus amigos enfrentam uma série de desafios.

13 Block – BLO (2019)

Influenciados fortemente pelo Drill de Chicago e o Trap de Atlanta, o quarteto lançou seu primeiro álbum de estúdio, BLO, em abril de 2019. Prolíficos como a maioria dos trappers, as 24 faixas (sem participações) foram as selecionadas entre 50 músicas gravadas em um estúdio em Dax, no sul da França, alugado especialmente para a criação do projeto. Apesar de não baterem números exorbitantes, BLO foi certificado como disco de ouro pelo SNEP, com mais de 50 mil vendas e é o que se ouve nas ruas da França.

Koba LAD – L’Affranchi (2019)

Koba LaD tem origem congolesa, apenas 20 anos de idade e dois discos certificados como platina pelo SNEP. Com sua série de freestyles chamada Ténébreux, ele chamou atenção na cena e assinou com a divisão francesa da Def Jam, uma das maiores gravadoras de Rap do mundo. No seu trabalho, com influências notáveis de Young Thug e Chief Keef, Koba LaD encarna o estilo de vida hedonista do jovem negro nascido no século 21.

Dinos – Taciturne (2019)

Dinos é o mais próximo do “Rap de mensagem” nessa lista. Em seu segundo álbum, Taciturne, ele explora um lado pessoal e introspectivo. O disco também é mais contemporâneo em termos de sonoridade do que seus trabalhos anteriores e se aproxima das tendências do Trap, sem deixar de lado, entretanto, a preocupação lírica. O álbum está disponível em três versões físicas, com três capas diferentes: as versões padrão, diurna e noturna, as quais incluem faixas bônus disponíveis exclusivamente para essas versões. Taciturne é um álbum coerente em sua proposta, apesar de ter sido criado em espontâneas sessões de estúdio, com exceção da faixa “Les garçons ne pleurent pas”.

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