Felipe S através do vento e do fogo

O músico fala sobre seu segundo disco solo, “Espelhos”, uma meditação a respeito de urgências e desastres do mundo tecnológico – mas que aponta caminhos nesse aparente beco sem saída

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Fotos: Luan Cardoso

Espelhos, novo álbum de Felipe S, nasce após passar pela prova do fogo. Segundo disco solo do artista, que é também integrante da Mombojó, chega agora em outubro após atravessar a pandemia na prateleira, na espera de um momento mais oportuno para ser mostrado ao público.

Ser artista é habitar um lugar de incerteza, mas toda crise parece amplificada nos últimos anos no Brasil. Assim, o sucessor de Cabeça de Felipe (2017) chega marcado pela tensão política, ambiental e tecnológica, olhando de frente para a instabilidade. Espelhos reflete nossas urgências, que não são poucas, mas consegue fazê-lo sem ser catastrófico. O artista fala sobre a criação do trabalho num mundo de mudanças, processando nossos excessos de informação e entendendo como fazemos parte disso tudo:

“Meu plano era lançar em 2018 o ano que eu gravei o disco, mas foi na época que o Mombojó mudou de empresário e resolvemos fazer um disco novo. Daí preferi esperar. Depois o plano era lançar ele em 2020. Em março de 2020 tive a última reunião presencial sobre a capa do disco e logo depois veio a pandemia. O nome do disco seria vinte vinte, mas depois de tantas desgraças preferi mudar o nome. Espelhos foi sugestão de Renan Costa Lima que assinou o projeto gráfico. Agora nesse isolamento e com o Mombojó espalhado por várias cidades achei que seria o momento ideal”.

Produzido por Habacuque Lima, o disco traz elementos eletrônicos que acenam para uma espécie de ficção científica. O celular é um personagem que suscita uma relação simbiótica – ou seria parasitária? – entre o humano e a máquina. Os videoclipes das músicas “Umbigo Digital” e “Amigo Máquina”, as primeiras lançadas para a divulgação de Espelhos, possuem uma narrativa interligada e contam a história de um dispositivo que pode ser colocado no umbigo para que se acesse uma realidade virtual capaz de substituir a vida ao ar livre. Questionado sobre o vício no celular, felizmente, diz Felipe que “graças [ao nascimento da] minha filha dei uma diminuída brusca. Agora que estou lançando disco e com ela as tardes na escola, tenho voltado a usar o celular de uma maneira diferente. Fico mais focado em postar informações sobre o meu lançamento e produzir conteúdo”.

Transitando de papel entre um amigo confidente e um colega de trabalho inevitável, o celular adapta-se e dita o ritmo do cotidiano. Quando Espelhos fala do mundo lá fora, no entanto, não ignora os conflitos que estão redesenhando a sociedade em velocidade acelerada. “Violento Monumento” é uma música premonitória que alude a um “monumento sem cabeça no sol”. Recentemente assistimos à estátua de Borba Gato pegando fogo num ato de protesto. O ato soma-se a inúmeros outros mundo afora, e faz parte de um debate sobre o lugar das estátuas e monumentos construídos com fins em homenagem a figuras históricas ligadas à opressão. A guerra contra as estátuas, no entanto, não é de hoje:  “A letra de [Violento Monumento] veio da memória do dia em que arrancaram a cabeça de Saddam Hussein. Aquilo ficou na minha cabeça, eu tinha 20 anos (2003) fui buscar essa memória para construir o começo dessa letra”.

Nesse mundo de destruição, o vento e o fogo aparecem no disco como uma espécie de divindade, forças naturais que transam e transmutam nossa dependência do mundo virtual. E como tudo o que passa metaforicamente pelo fogo, Espelhos nasce mais forte do que se fosse lançado no contexto em que foi concebido.

Nessa trajetória, as participações especiais dão o tom redentor: “Tem Juçara Marçal em ‘Umbigo Digital’, Otto em ‘Atlântico Várzea’, Lucas Afonso ‘Sujeição’ e Barbarelli em ‘Liberta’ dividindo a voz comigo. Tem Homero Basílio e Mestre Nico nas percussões, Felipe Pacheco nas cordas em ‘Vento e Fogo’ e Arthur Dossa na guitarra do final instrumental de ‘Pela Janela da Sala’.

É nos contatos, nas amizades e na colaboração que parece estar a resposta: “Para ‘Umbigo Digital’ eu fiquei buscando alguém da minha máxima admiração pra ser um chamado irrecusável. Nessa música eu falo muito de mim mesmo então queria fazer a auto ajuda bem feita. E Juçara eu encontrei na fila de uma peça de teatro e convidei ela. Não foi premeditado. Ela foi super generosa e aceitou. Gravamos na semana que minha filha nasceu, Julho de 2019. Eu estava tão maluco que esqueci de mandar a música pra ela. Fiquei super constrangido. Mas ela mandou muito bem. Otto acho que era algo que alguma hora ia acontecer porque vejo ele como uma das maiores referências entre os artistas pernambucanos, além dele ser amigo do meu pai desde os anos 90. Foi muito incrível porque ele criou a parte dele na música na hora de gravar e hoje em dia tenho certeza que nem lembra mais da letra (risos).

Lucas eu virei amigo dele no festival Lula Livre onde ele foi o apresentador aqui em SP, achei ele na internet e fiz o convite. Hoje em dia se damos super bem, imagino que quando tiver seguro nós vamos fazer mais coisas juntos. Barbarelli foi uma cantora que eu convidei para gravar um disco, fazendo junto com o pessoal que toca comigo (Arthur e Rafa) em breve lançaremos duas músicas. Ela tem vinte e poucos anos e tem uma voz incrível.

Homero Basílio toca na orquestra sinfônica e já fizemos várias coisas no disco anterior Cabeça de Felipe. Foi uma continuidade, somos muito amigos. Mestre Nico foi a primeira vez que gravou algo comigo e foi incrível. Ele gravou as percussões de maracatu rural em ‘Violento Monumento’ e a alfaia em ‘Atlântico Várzea’. Felipe Pacheco é um dos músicos que mais se destacaram fazendo participação para grandes nomes da MPB ultimamente. Ele gravou várias camadas de cordas com seu violino no seu quarto. Me emocionei muito ouvindo essa música que antes era só voz e violão e Arthur Dossa fez o solinho de guitarra latino que é de costume no seu projeto The Raulis. Ele faz isso com uma facilidade tremenda, muito bom”.

Espelhos chega num contexto em que consumimos desastres diariamente através das telas dos celulares. Fazemos parte disso, mas, mesmo assim, Felipe S. tenta desenhar um caminho para fora desse beco sem saída. E, ao longo de oito faixas, aponta diversas possibilidades de autoconhecimento.

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ARTISTA: Felipe S.

Autor:

é músico e escreve sobre arte