Fernê em voo livre

Banda paulistana aproveita a quarentena para lançar seu EP de estreia, que mistura Folk, psicodelia e Noise

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Fotos: Julia Maurano

A formação de uma banda não exige um grande propósito, claro e bem estruturado. Para fazer música, sempre bastou o desejo descompromissado de se reunir entre amigos para trocar ideias e compartilhar sentimentos e angústias – em relação a si mesmo e ao mundo – em forma de harmonias, timbres, ritmos e poesia.

Esse simples prazer de tocar junto é o fio condutor da Fernê, que apresenta a juventude e o frescor das primeiras experiências como banda em seu EP de estreia homônimo, lançado no dia 4 de setembro pelo Seloki Records. As quatro faixas trazem temas bastantes íntimos permeados po uma sonoridade flutuante e etérea que mistura Folk, psicodelia e Noise.

A banda paulistana, formada por Manuela Julian (vocais), Chico Bernardes (guitarra), Theo Ceccato (bateria), Tom Caffe (baixo) e Max Huszar (guitarra), surgiu há três ou quatro anos, mas só adotou esse nome – homenagem ao apreço dos amigos pelo bitter com Coca-Cola – e passou a fazer shows com mais frequência a partir de 2019. Foi também só no ano passado que o grupo decidiu gravar em estúdio o material que possuía até então.

Com tudo mais estruturado, o quarteto integrou Max e, ainda sem lançar nada de fato, partiu para, nas palavras de Tom, “explorar as águas desconhecidas das duas guitarras”. Mas aí veio a pandemia. “A gente estava bem imerso nesse lance de compor músicas novas, então foi meio que um choque”, relata Manu.

Em isolamento, os cinco decidiram, enfim, revisar as gravações das faixas feitas em 2019 e arquitetar o lançamento de Fernê (2020). “De certa maneira, ajudou a gente a sair do ócio”, explica Chico. “Sem fazer shows, a gente achou um bom momento pra organizar tudo e lançar esse material, que já é antigo”.

Gênese

Cada música do EP foi composta por um integrante da banda, com exceção de Max. A primeira, a eletrizante “Azul”, é fruto da parceria entre Tom e Theo. O baterista também assina “Ideias Doem”, faixa à la Sonic Youth que revela o lado mais Noise do grupo. “Outros Tempos”, composta por Chico, é a que mais se aproxima do Folk de seu trabalho solo. Por fim, a psicodélica “Consolação”, carro-chefe do trabalho, foi escrita por Manu, e fala sobre “quando você não se reconhece, não sabe muito onde se sustentar e se sente meio desesperado e até infantilizado”.

Fernê é o resultado de um projeto de Folk que começou na diversão e foi se tornando “mais sério” com o tempo, seguindo os passos das trocas afetivas e criativas entre os jovens músicos. Às influências bucólicas de Neil Young e Nick Drake somaram-se elementos do Rck psicodélico setentista e contemporâneo, de Mutantes a Tame Impala, e do Noise e do Shoegaze, de Sonic Youth a My Bloody Valentine.

“O baixo e bateria são coisas mais secas e formam uma cama para eu e a Manu jorrarmos com guitarras e vocais cheios de reverb”, descreve Chico. A vocalista destaca que também se inspira em “Thom Yorke e o jeito que ele acompanha a melodia”, e nos vocais femininos de Rita Lee, Cat Power e da vocalista do Portishead, Beth Gibbons.

Chico e Manu também acreditam que, se há um conceito para a banda e para o EP, ele não foi premeditado – apareceu depois. Para Theo, o único conceito que caberia é o de gênese. “Diria até que já estamos em outra fase, mas essas quatro faixas do EP são o essencial, o fundamental”.

“Sempre existem picuinhas que aparecem na gravação, que nesse caso vieram de quatro pessoas. A gente não buscou aquela coisa perfeita, canal por canal, gravada no clique... É bem a gente em nossa experiência de estar junto tocando”. (Foto: Alice Rocha)

Raw power

As faixas de Fernê foram gravadas durante dois dias no estúdio Canoa, com mixagem do produtor Thales Castanheira. As bases foram captadas em um Tascam de quatro canais – guitarra, baixo, bateria e voz –, o que rendeu experiências novas e ricas para o grupo. O único que nunca tinha gravado em estúdio era Tom, que se recorda de ter muito “frio na barriga” e sentir-se em “um momento destacado do real”.

Manu frequenta estúdios desde pequena, devido à rotina do pai – o compositor Antônio Pinto –, e mais tarde com outros projetos, como a banda Pelados, mas nunca havia gravado ao vivo na K7. “Abriu novas perspectivas sobre como gravar minha própria voz. Tem essa coisa da música crua e intensa”. Entusiasta da criação em sua forma mais orgânica e intuitiva, Theo diz que “a sensação do ao vivo” é uma das coisas que ele mais valoriza ao escutar música e aponta, por exemplo, a clara diferença entre as gravações dos discos 1969 e Raw Power, dos Stooges – o primeiro de estúdio e o segundo praticamente ao vivo.

A experiência também foi intensa para Chico. “Aqueles dois dias pareceram os 30 em que gravei meu álbum. Sempre existem picuinhas que aparecem na gravação, que nesse caso vieram de quatro pessoas. A gente não buscou aquela coisa perfeita, canal por canal, gravada no clique… É bem a gente em nossa experiência de estar junto tocando”.

Novo normal

O desafio agora é enfrentar o que Chico batiza de “depressão pós-lançamento”, aquele momento de vazio após soltar algum trabalho para o mundo, que a quarentena tornou ainda mais difícil para uma “banda performática”.

O grupo, por enquanto, descarta a possibilidade de fazer lives nas redes sociais ou “botar alguém sozinho pra representar a banda”. “Fazemos esse som junto. Pensamos em montar o EP agora mais como uma forma terminar o que a gente já tinha começado a produzir, para concluir esse momento, e ter uma identidade mais completa para seguir em frente”, diz Manu.

O mundinho Fernê, criado pelos cinco amigos, agora está aberto a quem quiser sentir e colaborar. “Eu acredito na arte como uma linguagem, um processo rico e interessante de comunicação de algo que também não é só nosso”, completa.

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ARTISTA: Fernê

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