Frequências Novas no Brasil

Dentre as diversas experiências que tivemos no Festival Novas Frequências, a percepção de uma efervescente cena brasileira foi a mais marcante

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“A expressão ‘cena musical’ é usada para designar uma certa efervescência na atividade musical de determinada cidade ou região, assim como a dinâmica das relações entre vários agentes envolvidos, tanto na criação como na difusão e consumo de determinado gênero musical”. Esta definição introduz um dos assuntos que mais chamou atenção no Festival Novas Frequências: a existência de uma nova cena sonora no nosso país.

Apresentações, que passaram por infinitos estilos e referências musicais, demonstraram que existe sim uma galera brasileira disposta a reciclar heranças e incorporar outros procedimentos nos processos de criação. DJ’s, selos, coletivos, produtores, professores, amigos, bandas e encontros rechearam os dias do festival de uma energia intensa e genuína da cena – palavra que muitas vezes era usada para se referir ao que acontece no cotidiano dos envolvidos parece abrigar expatriados do Rock, Jazz, Música Eletrônica e todas as demais categorias e nomes que não possuem mais a capacidade de rotular projetos. Se há algo que a música contemporânea conquistou é a dissolução de termos inundados pela história e nisso os artistas deste contexto parecem estar de acordo.

Uma das apresentações brasileiras mais notáveis do festival, na verdade, não estava prevista no line up. A aparição do conjunto Rádio-Lixo se deu por um convite da curadoria junto a Philip Jeck (compositor inglês convidado do evento) para uma feliz parceria no show que encerrou o Novas Frequências. Ligados pelos mesmos processos e pensamentos sobre vinis, samplers e outras sonoridades, Philip Jeck e Rádio-Lixo uniram tempos e gerações distintas no instante da eternidade que a experiência de uma performance pode propiciar. Criados no Rio de Janeiro, o pessoal da Rádio vive com som e contribuiu a seu modo nas ideias que a cena pensa.

Radio – Lixo – A

Outras apresentações de artistas daqui aconteceram nos dois domingos ensolarados do festival que, com exclusividade brazuca, ilustraram bem a cara da tal cena. O pátio externo da Casa Daros abrigou no primeiro domingo os projetos Auto, Hojer Yama e Osvardo- conjunto mencionado no texto sobre destaques do festival. Auto retomou os trabalhos em 2010 após um longo período recesso e em julho desse ano lançou o álbum Crossfire pela Submarine Records. Participam da banda Jonathan Gall (voz), Marcilio Silva (baixo), Marcelo Fusco (eletrônicos), Alexandre Amaral (bateria) e Carlos Issa (guitarra e eletrônicos) que também apresentou seu mais novo projeto solo, Hojer Yama. Criador de vários projetos sonoros como [Objeto Amarelo] (http://www.objetoamarelo.org), Tarde Abstrata e outros, Issa é um dos nomes paulistanos que articula vários sons e pessoas em contextos similares ao do festival.

Auto – The Woods

No segundo domingo, foi a vez do Quintavant Ensamble subir ao palco. Fruto do projeto Quintavant, uma espécie de selo, coletivo, agregador e produtor de shows e sons, o Ensamble foi comissionado pelo festival e reuniu treze músicos da cena carioca divididos em 4 blocos. Participaram: Cadu Tenório, Lucas Pires, Eduardo Manso, Léo Monteiro, Felipe Zenícola, Alex Zhemchuzhnikov, Paulo Caetano, Negro Leo, Marcos Thanus, Renato Godoy, Barrão, Sergio Mekler e Luiz Zerbini. A frente de projetos como DEDO, Chinese Cookie Poets, Bemônio e Chelpa Ferro, esses nomes tem algo a dizer e foram muitas vezes eles que esgotaram os ingressos e os CDs e LPs que eram vendidos junto aos shows. Vale ressaltar que, no mesmo dia do show do grupo, o selo QTV lançou a coletânea Three Squares Swing On Fire, disco chave no entendimento de como a cena carioca se estrutura e de como o coletivo pensa e se apresenta.

Nesses mesmos domingos ilustrativos e auto explicativos aconteceram dois painéis de discussões com figuras emblemáticas que alimentam as frequências novas do Brasil. Ambos foram bem interessantes e ajudaram a complementar os shows na busca de entendimento sobre os novos rumos da experimentação sonora nacional. O primeiro tinha como título “Experimentação e Política Cultural”. Sobre esse mote, participantes e DJ’s dos coletivos Wobble, Metanol e Quintavant, o produtor Fred da agencia Norópolis, o curador Chico Dub, a produtora do festival Tathiana Lopes junto ao lendário produtor de festivais Marcos Boffa, discutiram possíveis caminhos de ampliar a criação e a circulação de música contemporânea no país.

Segundo Akin, representante do coletivo e rádio Metanol, “o gosto tem que ser ampliado e as pessoas tem que entender que as iniciativas culturais funcionam em um espectro de 360 graus. Não importa se é Música Eletrônica, se é Música Experimental, não importa se é Rock, Axé, Pagode, Funk… a gente está passando por um momento de convergência e intersecção de ideias. A coisa começa a funcionar quando a gente entende que não existe mais o público específico de algum estilo.” Opiniões como essa eram comuns de serem escutadas e discutidas nos eventos do festival. E foi também essas ideias que apareceram no outro painel de discussão composto por integrantes da Skol Music (patrocinadora do festival) junto aos produtores Miranda e Dudu Marote, responsáveis pelos selos Ganzá e Indie.

Treino Dezembro

Ambos os painéis, assim como algumas conversas informais do festival, deixaram clara a importância da enxurrada de novos selos que estão surgindo. Responsáveis por incentivar, organizar e distribuir a produção musical contemporânea, essas iniciativas ocupam um papel essencial nas articulações que permeiam a cena. Dois desses selos tiveram destaque ao se apresentarem durante uma das festas organizadas pelo festival: 40% FODA/MANEIRISSÍMO e DOMINA. O primeiro é dirigido por Gabriel Guerra e Lucas de Paiva. O selo já lançou artistas como Zopelar, SeixlacK e trabalhos autorais dos organizadores do projeto. O segundo, DOMINA, é um selo montado por Pedro Manara e Marcelo Mudou que lançou os álbuns Ihnteractions de Manara e Colorin de Kinkid. Além do selo, a dupla também produz o Domina Live, projeto ao vivo de música eletrônica orientada para pista.

Jardins do MAM – 22/09/13

Algumas outras atrações nacionais também foram apresentadas no clube LA PAZ nas duas festas que o festival organiza. Nomes como Bruno Real, Victor Lucindo, Mauro Telefunksoul, Mega Bo, Antonio Antmaper, Serge Erége e Pedro Marighella apresentaram seus projetos que completam um recorte da tal cena brasileira que o festival buscou entender, explorar e questionar. Na acepção mais antiga da palavra, cena é a parte principal do palco e espaço utilizado para representação. Como a iluminação é parte fundamental deste elemento fundamental da cenografia, espera-se que nesta aqui estejam todos bem iluminados mas pelo que sentimos ao longo destes quinzes dias, a luz está bastante favorável.

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Autor:

Alguém que convive e trabalha com som