Grandes e Pequenas Gravadoras: a Batalha do Século?

Um olhar atento ao Mercado Fonográfico faz ver que os dois lados unem forças neste embate

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Não é de hoje a velha discussão em torno da briga entre Grandes Gravadoras (também conhecidas como Majors) e das Independentes (ou chamadas também de Indies). Uma discussão que tem gerado ao longo do tempo alguns preconceitos e muitos mal entendidos – um deles, a própria briga. O mercado fonográfico é como um sistema simbiótico em que majors e indies sobrevivem juntas (por mais que apenas três empresas dominem a maior parte do mercado). É claro que os dois setores se organizam em modelos bem diferentes (discrepantes, em alguns casos), porém, trabalham para atingir um mesmo propósito: o lucro.

Grandes ou pequenos, os selos e gravadoras são empresas e o lucro é sim uma das finalidades de sua existência. A maneira de consegui-lo pode sim ser bem diferente, mas no geral elas tem o mesmo objetivo e em escalas diferentes a mesma função para com o artista. E é aí que surge nossa primeira pergunta:

Afinal, qual o papel de uma gravadora?

Fundamentalmente, uma gravadora está associada ao marketing musical. Isso geralmente envolve promoção dos artistas e questões legais, podendo (ou não) envolver também produção, manufatura distribuição de discos, além de áreas especializadas na caça de novos talentos e na produção de novos produtos associados à música (videoclipes e merchandising são alguns exemplos).

O “pacote” oferecido por cada tipo de gravadora varia, principalmente em função do seu tamanho e alcance, mas resumindo bastante a questão: Grandes gravadoras são empresas gigantescas e, o principal, detentoras de muito dinheiro, portanto conseguem predominar o mercado através de uma extensa rede de distribuição e ao oferecer maior suporte na hora de tentar “vender” seus artistas às massas; Gravadoras independentes, obviamente, tem menos poder no que diz respeito ao dinheiro, carecendo de fundos na hora de distribuir e promover seu artista.

Dito isso, é hora de esmiuçar as diferenças entre as duas e entender um pouco mais de como funciona o mercado como um todo. O que nos leva ao próximo ponto:

Controle Criativo X Direito sobre as Músicas

Não é novidade para ninguém que os selos e gravadoras pequenas dão mais (se não total) liberdade para seus artistas criarem. E a ideia primordial de independência (pelo menos na música) é a de o artista ser livre para poder levar sua música onde bem entender, ideia amplamente encorajada pelas Indies. Nas Majors, a realidade é bem diferente. Guiados pelo gosto e pela proposta (muitas vezes) mainstream, existem produtores ou departamentos responsáveis por tentar deixar o produto mais “vendável” possível – por mais que isso venha mudando aos poucos nas últimas décadas. Esse é um preço a se pagar pela possível fama que as majors podem trazer, porém escolha que faz sentido para muitos artistas (principalmente os com viés mais Pop).

Um ponto muito delicado em toda a discussão é em quem detém o direito sobre as músicas. Muitas vezes, grandes gravadoras são ganham o direito sobre obra dos artistas – é claro que isso muda de contrato para contrato, mas, no geral, funciona assim -, podendo usá-las onde quer que seja (trilha de um filme, jogo, comercial ou qualquer outra lugar) independente da vontade de quem que criou a tal obra. O que não costuma acontecer com frequência em selos e gravadoras menores. Outro ponto positivo para menores, que ainda cobram uma porcentagem menor sobre os royalties.

Obrigações contratuais e venda de discos

Não há nenhuma regra, mas geralmente gravadoras assinam com uma banda por mais de um lançamento (podendo chegar a três ou quatro discos). Se o artista emplacar e conseguir algum sucesso, o contrato o faz manter relações com o selo pelo número de lançamentos pré-estabelecido previsto pelo contrato – caso contrário, será demitido. Isso pode trazer certa estabilidade para o artista, porém é também uma faca de dois gumes: se o mesmo estiver insatisfeito e não disposto a quebrar o contrato (e pagar as eventuais multas) terá de continuar lá até o fim do contrato. Um caso que ficou famoso foi o da banda Weezer, que demorou 16 anos (e sete álbuns) para finalmente poder sair da Interscope – Hurley (2010), seu oitavo álbum foi lançado pela Epitaph Records, consideravelmente muito menor.

Outro caso notório foi o de Radiohead que em 2007 lançou seu primeiro álbum fora da EMI, o fenômeno In Rainbows. Seu lançamento no formato “pague quanto puder” quebrou vários paradigmas e revolucionou o mercado todo. Desde então, esse esquema foi adotado por várias bandas. Algumas até mesmo chegando ao ponto de oferecer discos (no formato digital) totalmente sem custos ao ouvinte, como foi o caso do Nine Inch Nails, que havia rompido há pouco com a Interscope e em 2008 lançou os álbuns Ghosts e The Slip.

Nesses casos (e em muitos outros) a renda referente aos álbuns vinha também (e no caso do NIN exclusivamente) da venda dos discos físicos (no caso do In Rainbows mais de 100 mil só na primeira semana). A partir daí, essa prática virou uma grande ferramenta de marketing, até mesmo para artistas totalmente independentes. Disponibilizar uma obra para audição antes do seu lançamento oficial ou mesmo seu vazamentos se tornaram ótimas estratégias para gerar um buzz com o público e mais uma ferramenta para tentar alavancar a venda do exemplar físico – uma das possíveis rendas do artista, mas que no fim das contas nem ajuda tanto assim.

Em casos normais, paga-se muito pouco pela venda de discos (ou mesmo pelos serviços de streaming) e geralmente requer um número grande de exemplares somente para pagar as despesas das gravações. E a maior parte da fatia do possível lucro geralmente fica com a própria gravadora (que teve todos os custos operacionais) – e mais uma vez vale a pena frisar que existem casos diferentes, dependendo da relação contratual. Portanto, se realmente quer ajudar uma banda que gosta compre os discos diretamente em seus shows, no site do próprio artista ou ainda itens de merchandising, como camisetas, pôsteres e o que o mais ela tiver a lhe oferecer.

Indies podem fazer parte das Majors

Aqui nos deparamos com outra questão importante e na realidade muito comum. Não são raros os casos de pequenos selos que já nascem como subsidiarias de uma grande gravadora, ou seja, com o respaldo (e com o dinheiro) de uma delas ou ainda pequenos selos que são comprados por empresas maiores. Por exemplo, selos como Parlophone, Sub Pop e Atlantic (que pertencem a Warner), Columbia e RCA (Sony) e Sanctuary, Polydor e Decca (Universal) estão nas mãos destas três grandes potencias do mercado. Seguindo este mesmo modelo de aquisições e fusões, muitas das gravadoras Indies mais famosas hoje em dia são subselos de um nome maior. Um exemplo: o Beggars Group é dono de importantes selos como 4AD, Rough Trade Records, Matador Records e XL Recordings. É claro que também existem selos totalmente independentes e o surgimento de novos deles ou ainda de microselos tem se tornado uma tendência – e a principal causa disso é facilidade de distribuir música pela Internet sem a necessidade de um lançamento físico ou de se terceirizar essa função -, e, não à toa, muito coisa interessante e inovadora tem surgido exatamente destes lugares.

Mais interligados do que comumente se pensa, grandes e pequenos trocam figurinhas e não é raro algum artista de um selo menor vir a ser adquirido por um dos grandes ou mesmo de uma colaboração de distribuição entre pequenos e grandes selos. Basicamente, o pequeno selo é onde o artista pode experimentar à vontade e possivelmente ser absorvido em uma grande distribuidora, caso ele atinja algum sucesso comercial. Não é difícil perceber que são as leis de mercado que gerem essa Indústria, não é? O mais espantoso na verdade é pensar que a maior parte dela é dominada somente por essas três empresas – e isso sim pode ser de certa forma assustador.

O rumo ao monopólio (se tratando das gigantes) ou pelo menos na concentração de poder nas mãos de poucos vem se traçando desde final dos anos 80, quando havia o dobro de mega empresas no páreo. Fusões e compras deixaram somente três delas vivas e ainda mais gigantescas. Felizmente o mercado, cada vez mais divididos em nichos cada vez mais específicos, torna um possível monopólio praticamente inviável ou pelo menos com que tenha menor força – se é que um dia isso acontecerá.

Se a nossa analise até agora se pautou no macro, é hora de entrar no micro e analisar como é para o músico se afiliar com esse ou aquele selo ou gravadora:

Qual tipo de gravadora faz mais sentido para o artista?

Como tudo na vida: Depende. O alcance de distribuição de uma Indie é muito menor que a de uma Major, porém a liberdade encontrada lá é um fator que não pode ser ignorado. Pequenas ou grandes, cada uma tem seus prós e contras e realmente cabe o artista mensurar sua escolha. Tudo depende de suas pretensões e de onde quer chegar.

E lembre-se, começar em uma pequena não significa que terá que ficar lá para sempre e o mesmo vale para o inverso – como foi o caso do Weezer. Como já disse antes, bandas podem começar em pequenos selos e posteriormente ir para maiores – como, por exemplo, Coldplay, que assinou com a Fierce Panda antes de ir para a Parlophone, ou ainda Florence and the Machine, Kate Nash e Bloc Party, que começaram na Moshi Moshi antes se mudarem para outras maiores.

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MARCADORES: Discussão

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts