Inovação X Zona de Conforto

Arriscar-se é um desafio não só para ouvintes, mas também para os músicos, porém este é o único caminho possível para evolução do nosso cenário musical

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Em um mercado cada vez mais plural, ouvintes não se prendem mais em um só gênero especifico e cada vez mais se instruem a conhecer um pouco de tudo, ao invés de se especializar em um estilo especifico. Se antigamente existiam os que chamavam metaleiros, punks, hippies e outros tantos grupos que fundamentavam grande parte da sua identidade pelo estilo de música que ouviam, hoje em dia, isso já não faz mais tanto sentido. Os gostos se pulverizaram, ainda mais se tratando do público Indie. Derrubando as barreiras estilísticas e saindo da sua zona de conforto, o ouvinte consegue aproveitar mais as diversas vertentes existentes e explorar novos horizontes de seus próprios gostos.

Porém, esse fenômeno não acontece somente com os ouvintes, muitas bandas conseguem quebrar barreiras, às vezes amalgamando inúmeros estilos em sua música ou às vezes fazendo algo que dê nós na cabeça de quem tenta classificar ou enquadra-la dentro de algum estilo ou vertente – e é partir daí que as coisas se tornam interessantes. A inovação sempre se baseia em ideias previamente existentes, mas há alguns que conseguem levá-las tão adiante que soam como se fossem inteiramente novas. As transformações e combinações que novos artistas fazem com suas influências são o principal meio de se obter música realmente nova.

Um ótimo exemplo disso é o som que Alt-J propôs em seu disco de estreia, An Awesome Wave. A variedade de sonoridades, instrumentos, estilos e sentimentos que a obra engloba parece ter sido feita para tirar o ouvinte de sua zona de conforto – até mesmo estes acostumados a ouvir de tudo. E o grupo faz isso de maneira exemplar, gerando treze músicas completamente diferentes umas das outras, mas com uma coesão quase inexplicável. Não à toa, ele figurou nossas listas de melhores estreias e álbuns de 2012.

Não é preciso dizer também que o álbum foi um sucesso e angariou uma grande quantidade de novos fãs para o grupo, que ainda ganharia um Mercury Prize com ele. Mas este quarteto britânico é só a ponta do iceberg de uma tendência que há alguns anos vem crescendo cada vez mais. Bandas como Cambriana, Goat e Buke and Gase, em menor grau, se apoiam na mesma diversidade usada pelos britânicos e criam uma música fácil (o mérito maior vai para os goianos neste quesito), mas ainda assim muito difícil de estandardizar ou colocar tudo espectro de sonoridades das bandas em uma (ou em poucas) tag(s).

A cada ano, também cresce o número de bandas que usam um determinado estilo como base, mas agregam tantos outros que o gênero original ressurge como outro completamente diferente. O Folk Alternativo do Half Moon Run, o misto eletrônico de Daphni, a quebra da barreira entre o Jazz, Hip Hop e Música Eletrônica feita por Flying Lotus e o novo rosto da EDM australiana Flume, são alguns exemplos de como isso pode acontecer com qualquer gênero e de como eles impulsionam as novidades em cada de seus estilos originais.

Como qualquer ideia nova, ela pode não se aceita logo de cara, mas são elas que impulsionam a música feita hoje em dia. E em um mercado tão volátil como o que vemos, essa saída da zona de conforto se faz mais que necessária e certamente sem isso ainda estaríamos presos aos mesmos ritmos criados há séculos. No fim das contas, todos ganham isso, seja o ouvinte que pode expandir seu gosto ou as bandas que exploraram seus horizontes musicais e criaram algo realmente fresco.

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts