Julia Mestre em dose dupla

Após passar o último ano imersa em processos de gravação, a compositora carioca apresenta “Sim Sim Sim”, álbum de estreia do Bala Desejo, coletivo do qual é integrante ao lado dos amigos de infância, e se prepara para lançar “Arrepiada”, seu segundo trabalho solo

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Fotos: Bianca Baker

Com apenas 16 anos, a cantora e compositora carioca Julia Mestre ganhou o concurso de poesias do colégio. Naquele momento, teve o estalo que a segue até hoje: “Se votaram em mim, acho que tenho jeito para escrever”. Na mesma época, começou a tomar gosto pelo violão e passou a criar melodias para seus versos. O resultado dessa primeira investida foi o EP Desencanto, lançado em 2017, e, hoje aos 25, ela vive um vibrante momento em sua carreira. Em janeiro deste ano, apresentou o compacto “Meu Paraíso” como uma prévia de Arrepiada, o seu segundo trabalho solo, prometido para abril.

Durante os últimos dois anos, Julia esteve imersa em processos de composição e gravação ao lado dos músicos Zé Ibarra, Lucas Nunes e Dora Morelenbaum, seus amigos de infância. O quarteto idealizou o Bala Desejo, um coletivo sem pretensão de ser banda, mas que acaba de colocar o primeiro disco no mundo, dividido em duas partes e apresentado entre janeiro e fevereiro. Sim Sim Sim tem 13 faixas produzidas pelo grupo e por Ana Frango Elétrico, gravadas ao vivo ao longo de seis meses com uma extensa lista de colaboradores – alguns instrumentos, inclusive, foram gravados no estúdio de Caetano Veloso durante a em época Lucas Nunes tocava a produção do disco Meu Coco (2021). Paralelamente, os músicos também trabalhavam as composições do segundo disco da Dônica, banda que conta ainda com Tom Veloso na formação, e possui apenas um disco, Continuidade dos Parques (2015).

“Entedemos como uma força do agora, encontro de potências que falam por si, mas quando se juntam é uma grande festa”, diz Julia em entrevista ao Monkeybuzz. Antes da pandemia, a turma já havia colaborado no primeiro disco da cantora, GEMINIS (2019), mas cada um construía a própria carreira solo. Em junho de 2020, surgiu a ideia de chamar o trio para morar na sua casa, afinal era a única maneira de eles se encontrarem durante o isolamento. Segundo a cantora, criaram uma “república musical” por terem o costume de tocarem juntos. Foi também nessa época que as lives de Teresa Cristina aconteciam no Instagram, e por proximidade de Dora, a cantora convocava o quarteto para aparecer com frequência na programação.

Enquanto muitos convidados apareciam confinados e sozinhos, a turma chamava atenção por sua formação: “Quatro malucos cantando juntos, ganhamos o apelido de comunidade hippie e começaram a falar da gente no plural”.  A equipe do festival paulistano Coala convidou o quarteto para tocar no próprio chat da live, e posteriormente propôs a ideia que resultou no álbum lançado pelo selo Coala Records. “Pensamos que em um momento como esse, o coletivo tem uma mensagem quatro vezes mais forte”, explica.

“Confesso que estou esperançosa, talvez seja um momento importante da música. Achava que viver de música era se sentir em uma trajetória individual, em que você precisa levantar um nome, mas percebo um movimento de união entre os artistas. Na Tropicália, vimos muitas regravações entre a ‘panelinha’ Gal, Gil, Caetano e Bethânia. A gente quer trazer essa energia de volta" (foto: Lucas Vaz)

Todas as canções foram construídas em conjunto, menos “Nana del Caballo Grande”, um poema de Federico García Lorca. Há algumas faixas cantadas em espanhol, referência à herança familiar espanhola e chilena de Julia e Zé, respectivamente. A única música que já existia desde 2013 era “Clama Floresta”, uma composição da dupla, e que também aparecerá com uma segunda versão em Arrepiada. Contrariando a lógica dos algoritmos, que cobra novidade incessantemente, e se espelhando em seus grandes ídolos da MPB, eles estão mais interessados nas possibilidades que certas canções podem proporcionar.

“Na Tropicália, vimos muitas regravações entre a ‘panelinha’ Gal, Gil, Caetano e Bethânia. A gente quer trazer essa energia de volta”, comenta. Fora do coletivo, Julia também é parceira de composições de Fran e João Gil, dos Gilsons. No EP Várias Queixas (2019) há “Love Love” e “Cores e Nomes”, e a sua versão saiu como single no ano seguinte. Agora no primeiro disco do trio, Pra Gente Acordar, lançado em 2 de fevereiro, Julia é coautora de “Pra Gente Acordar”, a faixa título, e do single “Duas Cidades”.

“Confesso que estou esperançosa, talvez seja um momento importante da música. Achava que viver de música era se sentir em uma trajetória individual, em que você precisa levantar um nome, mas percebo um movimento de união entre os artistas”, comenta Julia, que inclusive convidou alguns de seus colaboradores e amigos para participar da gravação do videoclipe de “Meu Paraíso”. A pausa na agenda e a ausência dos shows permitiu que alguns núcleos que orbitam a mesma cidade se aproximassem. E esse movimento já teria um nome? “Não sei se vai ter, também tenho dúvidas sobre Nova MPB, mas tem alguma coisa no ar, uma onda aí, não sei o que é, mas é emocionante”.

Entre as suas referências contemporâneas mais fortes estão a própria Ana Frango Elétrico, e seu Little Electric Chicken Heart (2019), e o disco Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo (2021). “A Ana é uma grande inspiração, ela tem cabeça de produtora, provoca timbres. A Sophia é uma das maiores letristas dessa geração, o trabalho dela é impecável, tem uma originalidade sem fim”. O conceito do primeiro videoclipe do disco ser em uma festa conversa diretamente com a ideia de promover encontros. “Talvez seja isso que eu esteja buscando provocar com o novo álbum: contagiar as pessoas com essa energia, para que eles possam provar dessa liberdade e se sentirem livres escutando essa canção”, pontua.

O caminho até Arrepiada  

A criação das músicas do seu próximo trabalho também é fruto de colaborações – há, por exemplo, participação dos amigos João Gil (“Arrepiada”), Ana Caetano (“Chuva de Caju”) e Dora Morelenbaum (“Menino Bonito”). Mas consolida também o início de novas parcerias como a presença do produtor musical Lux Ferreira, que assina as faixas ao lado de Julia. “A casa dele é cheia de teclados. É um disco com o sintetizador muito presente”, explica. Em “Meu Paraíso” e “El Fuego Del Amor” há também a participação do músico e produtor Tomás Tróia. Como dupla, Lux & Tróia são responsáveis pelo som de Te Amo Lá Fora (2021), segundo trabalho de Duda Beat.

O compacto serve como introdução à nova fase da cantora, inspirada por algumas ídolas como Letrux, Marina Lima e Rita Lee. Ao acompanhar o trabalho de artistas como Mahmundi e Duda Beat, a cantora desejava tentar algo novo para o que viria a ser o seu segundo trabalho. Ela mandou uma mensagem para Lux com uma demo – que acabou não entrando – e eles começaram a criar juntos no final de 2020. Há algumas músicas que trazem lembranças de GEMINIS, mas a compositora se enxerga em outro momento: “Acho que ‘De Toda Mãe’ tem uma pegada meio ‘Mudar o Mundo’, mas existe uma transição para trazer mais dança, liberdade e atitude.”

Como as cores podem representar os álbuns: GEMINIS é amarelo e laranja, uma transição de menina para mulher, agora Arrepiada vai para o violeta, algo mais noturno, uma mulher mais madura. Em 2020 ela participou do programa Versões do canal Bis cantando Rita Lee – “Agora Só Falta Você” e “Papai Me Empresta o Carro” – e ao estudar o repertório da artista sentiu a sua energia influenciar as novas composições. “Sentia uma pegada mais moderna, mais maldosa e com um pouco mais veneno. Brinco que a cada disco, a minha voz vai ficando mais rouca, então estava entendendo os pesos”, diz Julia.

Se no Ensino Médio ela viveu uma fase imersa nos livros de poemas de Ana Cristina Cesar e Fernando Pessoa, atualmente encontra-se em um momento dedicado às biografias. Entre as suas leituras, estão Verdade Tropical, de Caetano Veloso, Ninguém Pode Com Nara Leão, de Tom Cardoso, além da autobiografia de Rita Lee. “Entrei em um surto depois de ler o livro. Me apaixonei pela ousadia que a Rita tem nas palavras. Ela é provocativa, tem essa coisa do amor livre, do prazer feminino”, lembra.

“Acho que a transição de 2020 para 2022 será forte para a música. O ritmo estará mais presente porque as pessoas querem coisas que fervilham. O som mais pesado é como se fosse uma revolta dentro de si. Não tem como eu não me sentir atingida”

O próprio nome, “Arrepiada”, também reflete o feminino, aquele que grita, provoca, que se excita. A atitude roqueira da cantora também influenciou o mood geral: “Me via um pouco mais inocente no GEMINIS, onde falava que ia mudar o mundo com a minha voz e a minha fé, e hoje mostro o meu paraíso”. Enquanto pesquisava e desenvolvia o conceito do trabalho, Julia se viu fascinada pelo burburinho e o calor do movimento punk, quase que como uma resposta ao tempo em casa e sem contato com outras pessoas. Assim como o resto das pessoas, Julia não estava preparada ou indiferente para as notícias que continuam se sucedendo dia após dia.

“Acho que a transição de 2020 para 2022 será forte para a música. O ritmo estará mais presente porque as pessoas querem coisas que fervilham. O som mais pesado é como se fosse uma revolta dentro de si. Não tem como eu não me sentir atingida”, pondera a artista. Para além das referências, ela precisou mergulhar em si para entender como cada uma desses elementos faz sentido em suas canções. Em “Forró da Solidão”, ela reflete sobre o tempo em casa, já “Menino Bonito”, o seu xodó, é um Ijexá dedicado a um amor.

O último show presencial que tinha feito aconteceu em São Paulo, em 12 de março, no Teatro Bruta Flor, espaço que acabou fechando por conta dos desafios da pandemia. Assim como para muitas pessoas, o período assustador foi uma virada pessoal para a compositora. “Todo mundo passou a conhecer uma nova pessoa dentro de casa”, lembra. Um sentimento blues pairava no ar e trouxe ainda mais dúvidas para quem sonhava em viver de música. “Entrei numa crise na virada de um álbum para o outro. Será que o que tenho que fazer da vida é show? Tinha muitas perguntas”, assume Julia.

Enquanto as apresentações ao vivo não eram seguras, ela se escondeu no ninho para estudar, tocar e experimentar. Há dois anos estuda o baixo, e também tenta entender como trazer a guitarra para a nova fase. Além disso, está investigando o papel das mulheres instrumentistas e pensando em como montar uma banda mais feminina para os shows do futuro. Depois de passar por um período com o farol baixo, e acompanhando o avanço das vacinas, ela voltou a tocar ao vivo com o Bala Desejo no final de 2021, despertando um novo ânimo: “No final, está tudo certo, temos que botar as coisas no mundo, deixar isso respirar e ver o que acontece”.

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ARTISTA: Julia Mestre

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