Morphine: Quem Precisa de Guitarras, Afinal?

Trio americano ousou na formação e atmosfera de suas composições

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Sabe aquele disco lançado há algum tempo que você carrega sempre com você em iPod, playlist e coração, mas ninguém mais parece falar sobre ele? A equipe Monkeybuzz coleciona álbuns assim e decidiu tirar cada um deles de seu baú pessoal e trazê-los à luz do dia. Toda semana, damos uma dica de obra que pode não ser nova, mas nunca ficará velha.

Cure For Pain

Morphine apareceu em 1989 disposto a criar uma alquimia diferente do onipresente Grunge da época. O trio americano formado por Mark Sandman (voz e baixo), Dana Colley (saxofone) e Jerome Deupree (bateria) combina elementos de Rock e Jazz para fazer um som penetrante, denso e carregado nos graves, que perde esse tom “sério” com as letras acessíveis feitas por Sandman.

Sem guitarras para enfeitar as melodias, cabe ao sax barítono de Colley assumir os riffs, que colam na cabeça tanto quanto os criados por aí pelo instrumento de cordas elétrico. O ar diferentão da banda, que parece trilha de um noir moderno, com capuz no lugar de chapéu, é melancólico e direto, assim como a voz de seu vocalista, falecido de ataque cardíaco durante um show em 1999.

Cure For Pain foi o segundo álbum do trio, lançado em 1993, um ano após a estreia com Good, trazendo um daqueles discos que podem ser consumidos da primeira à última faixa em uma tacada só. Não é por falta de motivos que este é considerado o melhor trabalho do grupo: se Good causou estranheza a quem ouvia pela formação incomum e Yes começou a dar sinais de que a mesma formação poderia trazer limitações criativas com o tempo, Cure For Pain foi o auge do que um baixo com duas cordas a menos, um saxofone e uma bateria articulada eram capazes de produzir, combinados, é claro, à letras profundas e palpáveis.

Entre faixas carregadas em personalidade como A Head With Wings e I’m Free Now, é engraçado perceber a presença de um mandolim em In Spite Of Me, sugerindo o que seria um som mais “normal” caso a banda optasse por esse caminho. A faixa foi trilha no filme independente A Mão do Desejo (1994), o primeiro longa do hoje badalado David O. Russel (O Vencedor, O Lado Bom da Vida). Episódios de Beavis e Butt-Head, Os Sopranos e Daria também tiraram proveito da atmosfera única oferecida pela banda.

Foi ainda neste álbum que o baterista Billy Conway assumiu as baquetas em duas faixas (a homônima Cure For Pain e Let’s Take a Trip Together), substituindo Deupree temporariamente, afastado por motivos de saúde.

É interessante notar a escolha do grupo de abrir a obra com a misteriosa e instrumental Dawna, seguida por Buena, que dita um tom menos sombrio que se segue por quase todo o disco. No final, porém, o grupo volta ao mesmo estado de espírito do início com Miles Davis’ Funeral, dedicada ao trompetista falecido dois anos antes do lançamento do álbum.

No total, foram cinco discos lançados: Good (1992), Cure For Pain (1993), Yes(1995), Like Swimming (1997) e The Night (2000). Impossível saber se essa discografia seria maior se a banda continuasse a existir. Bem recebida pela crítica da época mas com problemas de venda, é fato conhecido de que mais para frente os integrantes sofreram pressão da gravadora para produzir músicas mais comerciais.

A música de Morphine é um experiência solitária e que pede uma intimidade para ser apreciada, seja antes de dormir ou durante o trabalho, com destaque pela criatividade de sua formação. Possui uma energia única, com a qualidade de ao mesmo tempo acalmar e recarregar as baterias, trazendo o alívio para a dor, mas não a cura dela.

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ARTISTA: Morphine
MARCADORES: Fora de Época

Autor:

Videomaker, ator e Jedi