Música Do Sol Nascente

Qualidade e experimentalismo pedem uma atenção especial para a produção musical do Japão

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Há cerca de um ano, tive a oportunidade de bater um papo com Ed Motta sobre o lançamento de seu mais recente álbum, AOR. O cantor, compositor e multiinstrumentista é um dos maiores conhecedores de de Música Popular do país, dono de uma coleção de discos que ultrapassa 20 mil álbuns de vinil e outro grande número de CD’s. Para minha surpresa, ao ser perguntado sobre influências para o tal trabalho, o músico apontou a música Pop japonesa como uma riquíssima fonte de sonoridades derivadas do Rock americano de FM, típico do fim da década de 1970, início dos anos 1980. O nome desse estilo de canção nipo-americana? Japan City Pop.

Se você não conhece artistas como Makoto Matsushita, o grupo AB’s ou a cantora Taeko Ohnuki, tudo bem, a obra desse pessoal é privilégio dos (raros) conhecedores do J-City Pop fora do Japão. Conhecer alguma canção de gente como Shonen Knife, Cornelius ou Pizzicato Five é mais usual, sobretudo para quem começou a se interessar por música nos anos 90, quando essas bandas surgiram nos programas mais alternativos da MTV Brasil, sobretudo o Lado B, no qual era veiculado o antológico clipe de Twiggy Twiggy Vs. James Bond, dos malucos do Pizzicato Five. Apesar da canção ser do ano de 1990, ela fez grande sucesso fora do Japão quando a banda foi contratada pelo selo americano Matador e lançou uma coletânea chamada Made In USA. A partir dali, P5 invadiu as paradas independentes ao redor do planeta e chamou a atenção para algo que se chamava Shibuyia-kei, ou, em bom português, a Cena de Shibuyia, um bairro de Tóquio, marcado pela grande quantidade de lojas de todos os tipos, sobretudo de roupas de marcas ocidentais e discos. Neste lugar da cidade, uma turma de jovens se reunia e trocava informações sobre cultura pop em geral, além de absorver grandes quantidade de informação musical. Desse pessoal, além dessa banda, o DJ Cornelius conseguiu projeção mundial. Seu nome de batismo é Keigo Oyamada e ele gravou seu primeiro EP, Holydays In The Sun, em 1993 e chegaria ao sucesso com seu terceiro disco, Fantasma, lançado também pela Matador Records no exterior (e no Brasil pela Trama pouco depois). A praia de Cornelius é a mistura sonora num estilo semelhante ao de Beck em seus primeiros trabalhos. Mais eletrônico e mais amante da interseção de The Beach Boys e Pop perfeito sessentista.

Antes da cena de Shibuyia e dos artistas do City Pop, a música Pop japonesa já absorvia influências ocidentais. Uma banda de DNA Punk, formada por três meninas chamadas Michie Nakatani, Naoko Yamano e Atsuko Yamano, Shonen Knife iniciou suas atividades no fim de 1981, mas só foi fazer sucesso fora do país da mesma forma que o pessoal antenadinho de Shibuyia: no início da década de 1990. As meninas excursionaram pelos Estados Unidos e conquistaram a admiração de bandas como Sonic Youth, Nirvana e Redd Kross. Em 1994, elas estavam abrindo o tributo a The Carpenters com uma cover bonitinha de Top Of The World. Ainda em atividade, as meninas enfrentaram a perda da baterista Mana Nishiura, que substituíra a integrante original, Michie Nakatami, morta num acidente de trânsito em Nova Jersey. Apenas a vocalista/guitarrista Naoko Yamano permanece na ativa, mas a banda continua gravando e lançando discos. No mesmo território de Shonen Knife está Guitar Wolf, um trio de Garage Rock, invocado e mauzão. Formado em 1987, o grupo lançou discos legais como Planet Of The Wolves (1997) e Jet Generation (1999), ambos pelo selo Matador, sendo que o segundo chegou a ser lançado no Brasil no início dos anos 00. A morte do baixista Billy em 2005, aos 38 anos de idade, sendo substituído por U.P. (sim, os nomes dos integrantes não são exatamente extensos), abalou mas não tirou a banda de circulação e eles continuam a gravar até hoje.

Towa Tei e Cibo Matto são dois outros representantes do Pop japonês com maior visibilidade fora do país. O primeiro surgiu para o mundo a bordo do álbum de estreia dos rappers americanos Jungle Brothers, Done By Forces Of Nature, de 1989. Um ano depois, ele era parte integrante do trio multicultural Deee Lite, radicado em Nova York, que ganhou o planeta com sua sensacional Groove Is In The Heart, clássico dançante do início dos anos 90. Towa Tei deixou esse grupo em 1995 para levar adiante sua intrigante mistura de Bossa Nova, beats dançantes retrô, Jazz e Pop clássico, marcante em sua estreia solo Future Listening!. Já Cibo Matto (nome italiano, que significa algo como loucura de comer) é uma dupla, formada pela vocalista Miho Hatori a tecladista Yuka Honda. As duas se conheceram em Nova York, no início dos anos 90 e se misturaram com a cena alternativa e descolada da Grande Maçã. Seu primeiro disco, Viva! La Woman, surgiu em 1996, enaltecendo a comida e a diversão (reza a lenda que as duas são excelentes cozinheiras). No ano seguinte conheceram Sean Lennon, que se ofereceu para excursionar com a dupla, assumindo a posição de baixista e participando do disco seguinte, Stereo Type A (1999). Logo depois a dupla se separaria, com ambas fazendo parte de projetos interessantes ao longo dos anos 00, como Gorillaz e a nova encarnação da Plastic Ono Band. Um terceiro disco de Cibo Matto, Hotel Valentine, o primeiro após quinze anos, foi lançado há poucos dias.

Nenhum artigo sobre música moderna japonesa estaria completo sem mencionar Ryuichi Sakamoto. Seu primeiro conjunto chamou-se Neo Geo e oscilava no território do Progressivo e do Jazz Rock. Em 1978, ele formou a Yellow Magic Orchestra, uma espécie de Kraftwerk japonês e cheio de bom humor. O primeiro disco, homônimo, mostrava habilidade em fundir música tradicional japonesa com beats e ambiência Techno setentista, como em Firecracker ou Cosmic Surfin’. O segundo disco, Solid State, de 1979, já trazia uma cover sensacional para Day Tripper, dos Beatles. Em paralelo à carreira na YMO, Sakamoto iniciaria um percurso solo que teria importância capital a partir da belíssima trilha sonora para Merry Christmas, Mr. Lawrence, filme que chamou-se Furyo, Em Nome Da Honra , por aqui e trazia David Bowie no elenco. A partir daí, Sakamoto estabeleceu-se como um grande compositor moderno, transitando por terrenos de música erudita, Pop e Eletrônica, também assinando a bela trilha sonora de O Último Imperador, filme de Bernardo Bertolucci, vencedor do Oscar em 1989.

O lançamento de Casa, disco que ele gravou junto de Jacques e Paula Morelenbaum, sob o nome Morelenbaum 2 Sakamoto, traz outra grande influência de sua carreira, a música de Tom Jobim. Mais recentemente, seus trabalhos oscilam entre o piano minimalista e as ambiências eletrônicas, dignas dos bons momentos de Brian Eno. A música Pop japonesa atingiu níveis de altíssima popularidade mais recentemente, com grupos de J-Pop, uma variante dançante e inspirada em artistas americanos como New Kids On The Block ou N’Sync, também com uma leva de bandas e vocalistas inspirados no universo anime/mangá. É uma terra, estranha, de gente mais ou menos esquisita mas dona de uma variedade enorme, que clama por exploração e descobertas.

Este artigo tem a intenção de servir como um pequeno guia. Adiante!

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.