O acervo do Som da Gente

Criado na década de 1980, o selo foi fundamental para a divulgação da música instrumental brasileira e, 40 anos depois, a gravadora decide devolver as matrizes originais aos músicos e digitalizar seu acervo; selecionamos 7 grandes discos do Som da Gente

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Fotos: Divulgação

“Enfim, uma gravadora dedicada aos músicos”, diz um recorte de jornal do início dos anos 1980, que louva o nascimento do Selo Som da Gente, o primeiro no Brasil dedicado à promoção da música instrumental. Criado pelo casal Walter Santos e Tereza Souza, dentro de um estúdio em Perdizes, na cidade de São Paulo, a empreitada Som da Gente foi uma tentativa de alavancar o capital cultural brasileiro ao virar os holofotes para os instrumentistas do circuito nacional. A iniciativa aconteceu com o propósito de reunir amigos do casal e garantir total liberdade de criação aos artistas para a gravação de seus respectivos trabalhos, o que seria um grande diferencial em relação à engessada e autoritária indústria das gravadoras majors: daí o alívio sublinhado pela nota de imprensa.

Walter Santos nasceu em Senhor do Bonfim, estado da Bahia e foi criado na cidade de Juazeiro, onde foi parceiro de João Gilberto em um conjunto vocal chamado Enamorados do Ritmo. Eventualmente, mudou-se para o Rio de Janeiro a fim de tentar a vida como compositor e violonista. Lá, envolvido em projetos que insuflaram o nascimento da Bossa Nova, conheceu sua parceira Tereza Souza.

Em 1962, o casal mudou-se para São Paulo, época em que Walter chegou a lançar dois discos, Bossa Nova (1963) e Caminho (1965), com músicas compostas em parceria com Tereza. Ainda na década de 1960, começaram a trabalhar com produção de música publicitária, que se tornaria o foco principal da dupla.

Contudo, o caminho da publicidade facilitou a iniciativa de projetos mais ambiciosos. Com o “know-how” e o capital vindo desse universo, o casal fundou, em 1974, o Nossoestúdio, dentro do qual, anos depois, nasceria a ideia de um selo de música instrumental. Com o primeiro álbum lançado em 1981 – o LP Medusa, do Grupo Medusa –, o selo esteve ativo durante 10 anos, período em que lançou 42 discos. Passaram por lá nomes como Hermeto Pascoal, Heraldo do Monte, Arthur Maia, Alemão e grupos como D’Alma, Medusa e Cama de Gato, entre outros.

Veio a década de 1990 e, com ela, a recessão do governo Collor, além da transição tecnológica da indústria musical do LP para o CD. Durante esse período, aos poucos, o selo começou a ser desativado, encerrando as atividades definitivamente em 1996. Por conta de conflitos administrativos, que foram se intensificando ao longo dos anos entre empresários e artistas, até então muito material estava guardado nos arquivos do estúdio sem veiculação.

No entanto, em uma decisão provavelmente inédita na história das gravadoras, o Nossoestúdio – que desde 2010 passou a se chamar Bocaina 72 Som & Imagem –, decidiu digitalizar, remasterizar e doar as matrizes originais aos músicos, tornando acessível esse patrimônio da música brasileira. O processo está sendo documentado pelo projeto Acervo Som da Gente, que cuida também do material gráfico produzido pelo selo.

Nessa onda, Hermeto Pascoal é o primeiro a disponibilizar as obras, que já podem ser acessadas pelo Bandcamp do músico. Os outros títulos estão em processo de digitalização e, enquanto não chegam remasterizados, deixamos aqui uma pequena seleção dos álbuns promovidos pelo selo:

 

Grupo Medusa – Grupo Medusa (1981)

O disco Medusa foi o primeiro lançado pelo Som da Gente e está muito alinhado ideologicamente à proposta do selo. No encarte, um manifesto aponta para as origens do jazz, mas enaltece a música brasileira:

“Nosso trabalho tem uma proposta musical sem preconceitos ou barreiras, cujo objetivo maior é conseguir uma fusão musical sem perder o vínculo com nossas raízes”.

Heraldo do Monte – Cordas Vivas (1983)

Além de gravar no Som da Gente como instrumentista em diversos outros álbuns – com o próprio grupo Medusa e Hermeto Pascoal –, Heraldo do Monte tem dois trabalhos solo lançados pelo selo: Cordas Vivas (1983) e Cordas Mágicas (1986). Heraldo participou da fundação do Nossoestúdio, tocando ao lado de Luiz Gonzaga e Dominguinhos a música “O Homem da Terra, uma composição de Walter e Tereza.

Hector Costita – Hector Costita (1981)

Hector Costita é um músico e compositor nascido na Argentina, mas de alma brasileira. O flautista e saxofonista, no encarte de seu primeiro disco lançado pelo Som da Gente, exalta a liberdade de criação promovida no estúdio: “não são frequentes as oportunidades, no nosso campo profissional, que permitem expressar livremente nossas idéias e conceitos artísticos, especialmente quando se trata de música instrumental. Este disco faz parte dessas exceções”.

Tetê Espíndola – Pássaros na Garganta (1982)

O disco de Tetê Espíndola é um ponto fora da curva no catálogo do Som da Gente. Além de representar uma intersecção com a turma da Lira Paulista, Pássaros na Garganta é um dos únicos a ter vocais nas músicas, que é explorada como um instrumento. O álbum faz parte da vertente de discos “regionais” do selo e é marcado pela sonoridade da craviola e pela colagem de sons da natureza, captados no Mato Grosso do Sul.

Almir Sater – Instrumental (1985)

Outro disco “regional” do Som da Gente. Marcado pelo som das cordas de aço, Instrumental, de Almir Sater, aponta para uma sofisticação do imaginário caipira do país. O álbum obteve grande repercussão e a faixa “Luzeiro” foi, por muitos anos, a abertura do programa Globo Rural.

Hermeto Pascoal – Lagoa da Canoa Município de Arapiraca (1983)

Após gravar seu quarto disco com a Warner, Cérebro Magnético (1980), Hermeto chegou a dizer que nunca mais gravaria um disco, alegando desentendimentos com a editora. Diante do convite dos amigos Walter e Tereza, e das vantagens oferecidas pelo Som da Gente, mudou de ideia, mas eventualmente se desentenderia também com eles. No selo, gravou cinco discos: Hermeto Pascoal e Grupo (1982), Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca (1984), Brasil, Universo (1986), Só Não Toca Quem Não Quer (1987) e Por Diferentes Caminhos (1988).

Grupo D’Alma – D’Alma (1981)

D’Alma representa muito bem o ideário do “jazz brasileiro” almejado pelo Som da Gente. Aclamado pela crítica, o disco conta apenas com a execução de violões e foi produzido e arranjado pelos próprios músicos, André Geraissati, Ulisses Rocha e Rui Saleme, com exceção da faixa “Karate”, arranjada por Egberto Gismonti.

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Autor:

é músico e escreve sobre arte