Os anos 1990 estão batendo na porta do Hip Hop

Estilo começa a receber diversos artistas que tentam recriar o seu período áureo, criando obras referenciais mas ao mesmo tempo contemporâneas

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Se existe um tendência na música atual é o retorno às raízes dos anos 1990. Seja pela nova roupagem de Grunge que Cage the Elephant faz, pelo Shoegaze do novo Yuck ou pelo Britpop psicodélico despejado pelo Spacehopper, sentimos uma inspiração da última década do século passado ao longo de diversos estilos. O Rock, no caso, seria o estilo mais perceptível logo de cara pelo público a apresentar este padrão, no entanto o Hip Hop em 2013 nos traz diversos motivos para acreditar que iremos, cada vez mais, perceber esta referência por outras águas musicais.

Alguns artistas que lançaram obras neste ano nos fazem perceber que os elementos que popularizam o gênero no passado estão retornando aos poucos: versos mais lentos, loops hipnotizantes e baixos inspirados na música negra de raiz, além de batidas feitas com baterias eletrônicas clássicas, como 909 . Ano passado, por exemplo, vimos o ótimo Kendrick Lamar criar um dos melhores álbuns do período ao utilizar-se de tais características ao mesmo tempo em que criava uma obra autoral com uma história por trás e uma grande atmosfera urbana que não tenta se aproximar do comercial em nenhum momento.

Poetic Justice daquele disco, utiliza-se de um sample de Any Time, Any Place de Janet Jackson que curiosamente é dos anos 1990. Enquanto vemos o Hip Hop expandir os seus leques de criações, se aproximando da música eletrônica como Jerimiah Jae, o mais próximo que um Flying Lotus chegaria no gênero, outros caminham no sentido contrário, criando samples em loop e soando curiosamente “analógicos”.

Joey Bada$$ é um dos grandes casos abordados. Com duas mixtapes lançadas gratuitamente, o rapper aos poucos começou a ganhar o respeito da mídia especializada por suas criações hipnóticas, letárgicas e facilmente dopantes. Seu primeiro trabalho se chama 1999 e não precisamos de muitos motivos mais para acreditar qual seria a sua real inspiração musical. No entanto, ao lançar Summer Knights concluímos que o músico está de alguma forma preso à década. Produções feitas por símbolos do período, como MF Doom, só consolidam o jovem MC.

No mesmo período, os coletivos de Hip Hop começaram a ser disseminados e popularizados pela influência que os geniais músicos do De La Soul começavam a exercer no gênero desde do final dos 1980. Exemplos? Que tal Wu Tang-Clan ou Naughty by Nature, símbolos na música e que, ao mesmo tempo em que viam o estilo cair no gosto popular, ainda tinham maior autonomia para criar faixas autorais. Atualmente, quem melhor representa os coletivos é o OFWGKTA, liderado por Tyler, The Creator.

Seu disco, Wolf pode ser seu trabalho mais acessível e flertar em diversos momentos com a música Eletrônica, entretanto, o seu lado cru, direto visto nos melhores momentos de Tupac, podem ser levemente percebidos aqui. Obviamente, não entramos no mérito de quem é melhor, até porque a resposta é clar,a mas são faixas como Rusty que nos fazem acreditar que estamos vivenciando a recriação dos tempos áureos do Hip Hop.

Outro membro do coletivo, Earl Sweatshirt talvez seja o melhor exemplo. Suas batidas pesadas misturam-se a letras confessionais, chapadas e que criam uma elo entre ouvinte e músico. Se o tema das drogas nunca deixou de estar nas pautas do estilo, sendo expandido em conjunto com mulheres e vida de riqueza nos anos 2000, vemos aqui versos que abordam organicamente a vida nas ruas ou descrença no futuro. Tal ideal parte da constatação de que estávamos no final de um século e que somente incertezas viriam depois, algo sentido no desacreditado rapper. Depressão, letargia e as mesmas batidas que te fazem viajar sóbrios são muito bem vistas no seu trabalho de estreia.

Obviamente, não nos restringimos a tais artistas e tantos outros estão abordando a mesma temática, bebendo da mesma fonte. Mac Miller, Action Bronson, Problem e The 100’s são exemplos que devem ser também apreciados. Se um gênero multiplica-se, cria vertentes e subgêneros com uma facilidade gigantesca, podemos constatar que os anos 1990 vieram para ficar. Se na década passada, qualquer artista que seguisse esta atmosfera não estaria necessariamente criando algo original e poderia estar simplesmente continuando os sons de um período imediatamente anterior, a lacuna de duas dezenas de anos fazem com o Hip Hop atual seja de certa forma “vintage”. Independente do termo hypado, ficamos extremamente felizes por vermos o estilo se aproximar de um período de extrema originalidade e, ainda assim, mostrar-se contemporâneo.

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MARCADORES: Estilos, Hip Hop

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.