Perrelli exorciza sentimentos em novo EP

“Cíclico” apresenta trabalho visceral da artista brasiliense Mari Perrelli em novidade da Bicuda Records

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Fotos: Recreio Clubber

O primeiro semestre de 2019 já se mostra generoso na categoria qualidade dos lançamentos de mulheres produtoras. Em processo de tomada dos espaços de criação, uma onda delas (especialistas no formato live e autorais) ganha força em uma área em que a dominância masculina é ainda mais latente do que na discotecagem. Uma mulher capaz de reforçar esse movimento de ascensão é a artista brasiliense Mari Perrelli, que lança hoje “Cíclico EP” pela Bicuda Records, selo do coletivo campineiro homônimo.

Passionalidade e beats à flor da pele são a alma do novo trabalho que representa um momento posterior ao atravessar de dificuldades. Nas palavras de Perrelli ao Monkeybuzz, ela confessa: ”Nunca fui muito boa para falar, mas ao mesmo tempo, sempre tive muito para dizer. A música é isso para mim desde criança: uma forma que eu tinha de escapar de mim mesma e ser uma pessoa mais livre e comunicativa. Cresci ouvindo que eu era muda, talvez eu tenha trauma disso. Eu fazia e escrevia letra pra tocar na guitarra, tudo meio errado mesmo, nunca peguei aula de nada. Então tirava instrumento de ouvido só pelo desespero de querer tocar alguma coisa e me expressar de alguma forma”.

Em relação às faixas, elas soam como uma espécie de narrativa auto-analítica traduzida pelo Techno de melodias profundas. Um diário musical. “‘Cíclico’, para mim, nada mais é do que a forma que tudo acontece na vida, para sempre: em ciclos. Você é um quadro em branco até que vai adquirindo escritas e histórias, histórias que acabam, escritas que se rompem e você tem que pagá-las. Mas, antes disso, senti-las e se despedir delas, até adquirir novas. Todo esse processo é doloroso, mas também muito criativo. E chamar atenção a isso faz total parte da minha identidade como pessoa”, complementa. O setup utilizado é a sequenciadora Maschine, que executa a função de “banco de sons da bateria”. De resto, “é tudo no computador, plugins, vsts e gravações que eu faço com a minha voz”.

A mix e a master são obras do RHR, que ela define como “uma grande referência nacional aí para muita gente, obviamente, para mim também. Roni tem me ensinado muito. Eu escolhi fazer essa finalização com ele justamente porque eu queria absorver um pouco do conhecimento e observar as manias dele. É assim que eu aprendi tudo sobre essa parte técnica de finalização e mixagem até hoje, observando quem eu admiro trabalhar”. Já a arte é do Arturo, diretor de arte da Bicuda.

Boa parte do aprendizado da produtora vem da residência no tradicional clube eletrônico de sua terra natal, o 5uinto. “Quando eu tinha 18 anos, em 2008, em uma cidade pequena que é Brasília, conhecia e frequentava mais que o necessário os circuitos de festa. Lá, meus amigos DJs me incentivaram a tocar. João Komka, o produtor do 5uinto, me deu umas aulas de discotecagem nessa época. E, foi para casa dele que eu levei minha primeira pesquisa toda gravada em tubos e tubos de CDs. Peguei em cdjs pela primeira vez na minha vida e logo em seguida, integrei o projeto, já meio que virando residente e só parei 9 anos depois. Com certeza todo esse acesso que eu tive a equipamentos, tocando todo mês, às vezes, mais de uma semana por mês, fizeram eu entender muito sobre técnica e sobre o que é ser residente de uma festa semanal, que aconteceu durante tantos anos e cravou noites da história da cidade. Aprendi de construção de DJ set, timing, mixagem, saber levar de um lugar pro outro, entender sobre o horário que você toca, antes e depois de quem. Tudo isso eu aprendi na marra direto do palco, errando e fazendo feio várias vezes, mas eu sempre voltava para a próxima gig mais madura”.

Apesar de morar em Brasília, a artista optou por um selo campineiro: “Depois que mudei de Brasília para São Paulo comecei a estreitar laços com boas pessoas, e o Victor Almeida, da Bicuda, foi um dos primeiros. Acredito que Campinas tem uma dinâmica parecida com Brasília por serem cidades menores, então, a identificação é mais rápida e a aproximação é menos complicada. Eu e o Victor sempre estivemos confortáveis um com o outro. Então, afinidade pessoal, musical e profissional foi só consequência. Fui chamada para tocar na Bicuda várias vezes, para lançar o EP e participar de forma mais ativa no coletivo”.

2019 promete ainda mais. Desta vez, outra produção assinada pelo selo gaúcho Goma.rec e os conterrâneos do Nice & Deadly. “Vai sair um EP do Tha Guts de Porto Alegre, no qual remixei uma faixa, deve sair em breve, em julho. Fora isso, fui convidada para lançar numa gravadora de Brasília, a Nice & Deadly, que é de um coletivo que leva pra frente a cultura soundsystem da cidade. Eu amo muito, são bons amigos e excelentes produtores. Fiquei feliz com o convite até porque é uma label de dub e música mais densa, estou ansiosa para começar a criar dentro dessa proposta. E no meio tempo contínuo com o plano de sempre: fazer música, mesmo que não haja selos pedindo ou convidando, estou sempre me forçando a vomitar minhas coisas”.

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ARTISTA: Perrelli
MARCADORES: Eletrônico, Entrevista

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