Playlist da Vida – Rogério Skylab

Stereolab, Nick Cave, Jards Macalé, Taiguara, Zumbi do Mato, Arrigo Barnabé

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Fotos: Arte: Solo.etc

Rogério Skylab vem em ritmo frenético. Após inaugurar em maio do ano passado a chamada Trilogia do Cu, com o álbum O Rei do Cu (2018), ele soltou, no primeiro dia de 2019, a segunda parte, intitulada Nas Portas Do Cu (2019). Menos de oito meses depois, o músico, poeta, colunista, ator, ensaísta e apresentador do célebre programa Matador de Passarinho (2012-2014) já gravou o volume que encerra a trilogia. Intitulado Crítica da Faculdade do Cu – em referência ao clássico Crítica da Faculdade do Juízo (1791), de Immanuel Kant – o trabalho está em fase de pós-produção e será lançado também no dia 1º de janeiro. E deve vir com surpresas até mesmo para o próprio dono do disco. “Fazer discos tem sempre uma margem de indeterminação que é muito parecido com o cinema. Por mais que você racionalize, coloque tudo no papel, o produto final sempre apresenta surpresas.”

A experimentação e o ecletismo de Skylab são expressos em seus quase 30 anos de carreira, nos quais ele viaja por (diversas vertentes do) Rock, MPB, elementos de Música Eletrônica, Samba Rock e o que mais for possível adicionar ao caldeirão. “Eu não tenho preconceito em relação a gêneros musicais. Se me proporem fazer um disco contemplando o Sertanejo Universitário, eu faço. São exercícios de linguagem”, diz o músico que afirma não ter nenhuma marca como compositor. “Se para muitos isso seria um demérito, para mim funciona como uma vantagem considerável.”

Uma das colaborações no último ato da trilogia foi de MC Gorila, cantor definido por Skylab como “mais radical que a poesia concreta” e que deve ser convocado para outras parcerias no futuro. “Eu penso em fazer um disco só de Funk com MC Gorila, já conversamos muito a respeito. Nossos universos musicais são completamente diferentes um do outro – isso que é legal.” De acordo com Skylab, a criminalização ainda mais acentuada que o Funk vem sofrendo recentemente é mais um sintoma da repressão que percorre toda a história musical e social brasileira. “Não é muito diferente da marginalização do samba na primeira metade do século passado. Um conto clássico de Machado Assis, ‘Um Homem Célebre’, aborda o preconceito social sobre o Maxixe já no século XIX. A nossa sociedade é escravocrata.”

Voz de esquerda enérgica no meio musical do país, Skylab defende que pouco importa o momento político, a arte sempre deve saber encarnar dois elementos aparentemente contraditórios: sutileza e contundência. “Se for só contundência, vira Geraldo Vandré. Se for só sutileza, vira a ‘Nova MPB’, que é tão sutil, mas tão sutil, que se desmancha no ar”.

Na estreia do quadro Playlist da Vida, no Monkeybuzz, pedimos para Skylab listar as dez músicas mais importantes de sua vida. “Uma tortura”, segundo ele. Não sem esforço e a originalidade característica – “essa é uma canção terrível”, diz ele sobre uma das faixas escolhidas –, a lista saiu. Trazendo, claro, ecletismo, contundência e sutileza.

Playlist da vida

Serge Gainsbourg – “Ah, Melody”

“Essa música está incluída no disco Histoire de Melody Nelson, produzido por Jean Claude Vanier, que também é o coautor desta faixa. O disco foi lançado em 1971 e considerado o grande trabalho de Serge Gainsbourg. Todas as músicas são naquele clima Lounge Trip Hop que influenciou meio mundo, de Beck a Mike Patton. Eu gravei essa música no meu disco SKYGIRLS, de 2009.”

Stereolab – “French Disko”

“Essa banda, com seu sintetizador moog, também é muito influenciada por Serge Gainsbourg. Eu cantei essa música num show que eu fiz no Circo Voador – aliás, abri o show com essa música. Composta pela dupla Laetitia Sandier e Tim Gane, a música grita ‘La Resistance!’ contra a barbárie. Bem apropriada pros dias de hoje.”

Nick Cave – “Into My Arms”

“Sou apaixonado por Nick e não me perdoo por não o ter conhecido quando vivia aqui no Brasil, em São Paulo. Tenho uma foto dele com a camisa do Fluminense, tem bom gosto até em futebol. Traduzi e publiquei no meu blog, o godardcity, um texto de sua autoria em que ele fala sobre as canções de amor. Segundo ele, as canções de amor dirigem-se a quem não está mais presente, como se fosse uma ponte para chegar a quem está longe. Tem um fundo religioso em toda canção de amor, segundo Nick Cave. Mas Deus não é intervencionista – é uma das frases de ‘Into My Arms’.”

Johnny Cash – “Delia’s gone”

“Essa é uma canção terrível. Resolvi fazer dela uma versão para o português e chamei o Arrigo Barnabé para cantá-la comigo. Está no disco Desterro e Carnaval (2015), terceiro volume da minha Trilogia dos Carnavais. Depois, eu gravei um DVD, produzido pelo Canal Brasil, com as músicas dessa trilogia, e o Arrigo também participa. Quando eu acabei de fazer a versão, o nome do Arrigo me veio imediatamente. E a sua voz de Tom Waits casou perfeitamente.”

Lou Reed – “Perfect Day”

“Quem me chamou atenção para essa música foi o texto do Nick Cave sobre as canções de amor. É um lindo dia de sol, um dia perfeito. Mas tem uma sombra: ‘a sua namorada faz esquecer que ele não é uma pessoa boa’. É uma canção que eu gostaria de vir um dia a gravar.”

Júpiter Maçã – “Eu e Minha Ex”

“Eu cheguei a escrever um texto sobre o Júpiter, que também está nesse meu blog, e analisei todos os seus discos, inclusive aqueles que ele fez com os Cascavelletes. Um dia fomos fazer um show juntos no SESC Campinas e comentei brincando com ele: ‘vai ser difícil um jornalista escrever um texto como esse que eu escrevi para você’. Achei que ele não tivesse lido, mas ele leu e concordou comigo. Acho essa música perfeita. No seu disco Sétima Efervescência (1997), essa faixa teve o arranjo de outro craque: Marcelo Birck. Eu acabei gravando essa faixa no DVD Trilogia dos Carnavais.”

Jards Macalé – “Let’s Play That”

“Essa faixa, que consta do primeiro disco do Jards, provavelmente o melhor álbum de sua carreira, foi composta em parceria com Torquato Neto. Torquato é o tropicalista mais importante. Tenho me debruçado sobre a sua obra e pretendo lançar em breve um disco só com suas músicas. E a letra dessa faixa é um dos poemas mais importantes da sua obra. Não há quem estude seriamente Torquato, sem analisar detidamente esse poema.”

Taiguara – “Hoje”

“Quando eu fui ver o filme Aquarius, não podia imaginar que o tema musical do filme era a música ‘Hoje’, de Taiguara. Taiguara foi a minha primeira paixão musical. Eu tinha 12 anos e consegui entrar em contato, via telefone, com o seu pai, Ubirajara, excelente acordeonista. Eu queria o contato do seu filho para mandar uma carta. Só que o Taiguara morava em Londres. E o pai, muito desconfiado, acabou me informando o endereço. A carta era de um adolescente apaixonado e alienado, que nunca poderia imaginar que o seu ídolo morava em Londres porque estava exilado ou fugido. Eu mandei a carta e a carta foi pra puta que pariu. Tenho cantado essa música nos meus shows.”

Zumbi do Mato – “Zumbi do Mato”

“No início dos anos 1990, a cidade do Rio de Janeiro era dividida em Circo Voador e Garage. No primeiro, tocavam as bandas consagradas e vitoriosas dos anos 1980; no segundo, tocavam as bandas malucas do underground carioca. Foi no Garage que eu cantei com a banda Zumbi do Mato o seu clássico homônimo. Quem viu, viu. Quem não viu, não vai var mais. Salve ‘Gangrena Gasosa’, ‘Sex Noise’, e ‘Piupiu e Sua Banda’.”

Arrigo Barnabé – “Clara Crocodilo”

“Como comentar o que senti quando eu ouvi pela primeira vez numa fita cassete, nos anos 1980, esse clássico de Arrigo? Não só essa faixa, como o disco todo. Aquela voz esganiçada da Tetê, aquela voz de locutor de rádio do Arrigo, o ritmo estranhíssimo, o dodecafonismo de algumas canções… A tragédia de Arrigo é que esse foi o seu primeiro disco de carreira.”

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