Qual é o valor da performance?

Incongruência, falta de pesquisa e descaso com performers marcam edições brasileiras de festivais internacionais de música eletrônica

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Fotos: Lucas Sant'ana/Monkeybuzz. As outras imagens são do fotógrafo Felipe Gabriel

“Se meu namorado não tivesse feito um escândalo na porta, nem conseguiria ter entrado no evento. Meu nome não constava em nenhuma lista”, conta ao Monkeybuzz o performer Löic Koutana que estava escalado para se apresentar durante a última edição do festival holandês DGTL em São Paulo. Segundo o artista – conhecido na noite paulistana por suas performances ao lado da banda Teto Preto –, uma garagem cheia de lama, uma cadeira, um espelho e quatro garrafas de água formavam o suposto camarim reservado a ele e a também performer Aun Helden durante a festa. Como se o constrangimento anterior não fosse suficiente, os dois artistas ainda foram barrados de entrar no palco. A precariedade e falta de organização, como era de se esperar, foram expostas nas redes sociais:

 

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[ @dgtlfestival RESPEITAM OS ARTISTAS/ RESPECT ALL THE ARTISTS ✊🏿😞 💔🆘] ! Acabei de passar pela MAIOR HUMILIAÇÃO DA MINHA CARREIRA DE PERFORMER/BAILARINO PELO SEGUNDO ANO CONSECUTIVO 😔. Na noite de ontem (sábado 4/05) para hoje eu ia performar no @dgtlfestival. Fui chamado para performar no after do evento e meu contrato estipulava que devia performar no mínimo 2h/ 3 horas. Cheguei na hora indicada, as 4h da manhã pois o after começava às 4h30 e tenha que entrar as 5h. • Primeiro choque: NÃO CONSEGUI ENTRAR NO EVENTO sendo artista e credenciado. Questões como “ quem é você? “ , “ o produtor vá ter que vir buscar você então…”, sendo cercado por 3,4 seguranças… Depois de um BARRACO do meu namorado ( que não aguentava ver meu corpo sendo tão desrespeitado daquela forma) conseguimos entrar. Uma vez no evento NÃO TENHA MAIS PULSEIRAS “ARTISTAS” PARA EU ACESSAR MEU CAMARIM. Teve que entrar com a pulseira de outro cargo. • Segundo choque: O CAMARIM ERA INSALUBRE, cheio de lama, sem estrutura adequada para montaçao ( como cês podem conferir na vídeo) tenha somente um espelho, cadeiras, bebidas e um rack… DENTRO DE UMA GARAGEM. Eu sei (posso entender) que às vezes festas não tem estruturas, porém numa festa onde o INGRESSO E TÃO ALTO, o mínimo pros artistas séria ter um camarim descente. O QUE ME DEIXA TRISTE e que esse camarim era reservado para eu e @aunhelden ! ARTISTAS ESTRANGEIROS TEM UM CAMARIM ESPECIAL, com comida, bebidas e todo conforto que eles merecem (tanto quanto eu). • Infelizmente não acabou aqui: Na hora indicada, as 5h fui até o palco para performar. INFELIZMENTE NÃO CONSEGUI EXERCER MINHA PROFISSÃO. FUI BARADO NA ENTRADA DO PALCO. A senhora da produção quiz “confirmar meu nome” para ver se de fato eu PODIA performar. A RESPOSTA FOI NEGATIVA. E me pediram para esperar MAIS 2HORAS O TEMPO DELES ACHAREM UMA SOLUÇÃO. (Solução para eu exercer meu trabalho sendo chamado pela produção – tendo contrato – para performar ????). Quando meu namorado pediu explicações um moço da produção pediu discretamente pro SEGURANÇA NOS TIRAR DO PALCO ( isso é grave). POR RESPEITO PARA MEU CORPO E MINHA PROFISSÃO SAI DO EVENTO E VOLTEI PRA CASA INDIGNADO.

Uma publicação compartilhada por Loïc Koutana (@lhommestatue) em

Quem trabalhou com os efeitos visuais, também sofreu para conseguir colocar seu espetáculo de pé: “Esse não foi o maior trabalho de nossas vidas, mas, infelizmente, foi o mais difícil até aqui. Tudo isso porque a produção não estava preparada devidamente”, declarou Elsi Ane, do coletivo AVNT de arte audiovisual especializado em instalações luminosas.

Ana Giza, performer e criadora do coletivo Marsha! dedicado ao trabalho de artistas trans, recorda que, na edição do ano passado, problemas similares também aconteceram. “Em 2018, o DGTL só se prontificou a chamar artistas visuais após uma denúncia de racismo da Coletividade NÁMÍBIÀ. O que estava sendo pontuado, então, era que de 25 artistas do line-up, apenas três eram negros e dois brasileiros.” Na época, como atitude reparativa, o festival deu a oportunidade para que o grupo participasse do processo de curadoria dos performers. No entanto, ninguém da produção parecia ter sido avisado disso. “Ficamos impossibilitadas de exercer nosso trabalho. Ninguém sabia que estaríamos lá e, por isso, passamos por situações extremamente vexatórias.”

Tendo em vista a repercussão negativa impulsionada pela série de escândalos, o festival se posicionou publicamente: “Chegou ao nosso conhecimento que experiências contrárias aos padrões do DGTL foram relatadas por artistas performers brasileiros. Estamos chocados, lamentamos muito pelo ocorrido e nos certificaremos de que isso nunca ocorra novamente. Para o DGTL é muito importante que todos se sintam confortáveis, independentemente da raça, gênero ou sexualidade, pois acreditamos numa sociedade inclusiva”.

“Ficamos impossibilitadas de exercer nosso trabalho. Ninguém sabia que estaríamos lá e, por isso, passamos por situações extremamente vexatórias.” – Ana Giza, do coletivo Marsha!

“Nós conversamos com os artistas envolvidos, Loïc Koutana e Aun. Juntos, concordamos que a falta de comunicação e mal-entendidos de nosso lado foram claramente fatores cruciais e estamos envergonhados por isso ter acontecido. Nunca houve intenção de excluir ninguém. (…) Como festival DGTL, nós devemos e queremos entender melhor a cultura brasileira. Por isso, decidimos que viajaremos para o Brasil para um encontro com os artistas e suas comunidades, para ter um diálogo aberto e iniciar uma colaboração próxima para eventos futuros. Reconhecemos a importância destes artistas no festival DGTL, em São Paulo. Além disso, nós os convidamos para se apresentarem no DGTL Barcelona em agosto. Eles aceitaram nosso convite e estamos ansiosos por sua performance. Garantimos que eles receberão o tratamento e o respeito que merecem”. Leia a declaração na íntegra neste link.

O DGTL ganhou pontos por assumir os erros e falhas da edição, e ainda teve o gesto de reparação ao garantir aos dois que eles serão atrações do festival em Barcelona, onde performarão nas condições ideais na altura do trabalho deles. Vale ressaltar que serão feitas pesquisas sobre esse tipo de arte e ajustes para não repetir os mesmos problemas na edição de 2020. Todavia, as performers escaladas no ano passado não foram contempladas com o mesmo nível de ajuste. “Não tivemos reparação, nem alguma conversa ou pedido de desculpas. Reitero que eles deveriam levar à Barcelona os demais artistas prejudicados em 2018. Da forma como está a situação, eles estão cometendo um novo erro de exclusão e omissão”, acredita a performer Euvira, idealizadora da Coletividade NÁMÍBIÀ e graduada em dança pela UFBA (Universidade Federal da Bahia).

Em contrapartida, Ana Giza relembra o Festival YAGA: “Um exemplo de como os gringos devem chegar sem assumir uma postura extrativista”, caracteriza o evento que aconteceu também em 2018, na boate Love Story, em São Paulo. “Eles se propuseram a entender e construir o rolê junto de quem já faz o bafo acontecer. Houve pesquisa e o resultado disso foi que eles aderiram a lista trans e trabalharam com uma equipe totalmente diversa. Tinham pessoas trans e pessoas negras em todas as áreas.” A abordagem do YAGA parece ainda ser um “ponto fora da curva” quando se fala do desembarque de festivais internacionais de música eletrônica no Brasil – sendo os acontecimentos das últimas edições do DGTL exemplo disso.

A respeito deles, conversamos com Larissa Correia, da Liminal – agência responsável pela curadoria do DGTL São Paulo.

Monkeybuzz: Nossa cena eletrônica funciona em moldes peculiares. Temos outras regras: há um foco no ativismo político, na resistência frente a um governo conservador muito diferente do cenário Europeu. Nesse sentido, quais são os maiores desafios na hora de adaptar a proposta de um festival internacional no Brasil?

Liminal: Eu não diria que é tão diferente assim, na verdade. Apenas que, aqui, as redes sociais amplificam tudo: o que é bom e ruim. Na Alemanha, por exemplo, a experiência de clubbing é bastante politizada. Países do Leste como a Polônia e a Hungria – que enfrentam governos tão conservadores quanto o nosso – têm a vida noturna e a música como foco de luta contra essas situações. Dito isso, acho que adaptar não é o desafio: essa tarefa é subentendida. O mais complexo – considerando o contexto diverso – é encontrar o ponto de equilíbrio, alcançar uma situação em que todos os envolvidos saiam realizados ou, no mínimo, satisfeitos. Como seria levar a Sapucaí para a Praça Vermelha ou o carnaval de Olinda para a Champs-Élysées? O objetivo é sempre transportar aquilo que faz o evento ser tão distintivo e adaptá-lo a essas novas condições sem perder isso. Não há performers em Amsterdã, mas aqui pode haver. Devido às estritas leis de saneamento no Brasil, não há “comida do futuro” da edição do DGTL de São Paulo, mas lá tem. Assim por diante.

Monkeybuzz: Neste ano, Loïc Koutana e Aun Helden tiveram dificuldade para executar as performances e serão reparados com uma apresentação digna, à altura da relevância do trabalho artístico deles, na edição do DGTL em Barcelona. Contudo, em 2018, os performers contratados também encararam o mesmo problema. O festival tem planos de fazer uma reparação deste tipo para eles também?

Liminal: Eu não posso comentar sobre isso porque foge da alçada da Liminal, que é incumbida da parte curatorial musical do evento. Obviamente, tudo isso nos consternou. Ficamos sabendo dos acontecimentos após terem ocorrido e não toleramos qualquer tipo de discriminação. Mas,o festival já se pronunciou sobre isso e ficamos felizes com o desfecho para todos os mal-entendidos, desde as reparações propostas ao entendimento entre todas as partes.

“Esse não foi o maior trabalho de nossas vidas, mas, infelizmente, foi o mais difícil até aqui. Tudo isso porque a produção não estava preparada devidamente” – Elsi Ane, do coletivo AVNT

Devido à falta de preparação e ambientação, a performance – peça fundamental da cultura noturna brasileira contemporânea – continua abjeta. “A atuação do performer é importante em diversos sentidos. A performance é uma discussão do corpo enquanto arte. Ela nos faz pensar sobre nossos corpos e, na pista, impulsiona as pessoas a dançarem mais, criando pontos altos de exaltação junto com a música”, reitera a DJ Cashu representando a Mamba Negra. “E isso não quer dizer que a música tenha deixado de ser importante mas sim que uma festa se faz não só com isso, mas que os visuais e a equipe e cuidado são um corpo só.” O DJ Renato Cohen continua: “O clima de uma festa tem a ver com a música, mas também tem a ver com o espaço, a iluminação, a qualidade do som e o trabalho dos performers. Teve uma Caps que eu desisti de tocar com vinil porque se fizesse isso, ninguém conseguiria dançar em cima da mesa que eu tocava. Achei que valia mais a energia de todo mundo junto do que ficar eu sozinho lá”.

Em um de seus artigos sobre arte e performance, Eleonora Fabião – professora especializada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) além de doutora pela New York University (NYU) – faz coro com os DJs da cena eletrônica ao destacar a entrega do performer para a composição de sua obra viva: “Não se atinge o corpo performativo grosseiramente. Ele não para de oscilar entre a cena e não-cena, entre a arte e a não-arte e é justamente nessa vibração paradoxal que ele se cria e se fortalece”. Resta saber se o futuro dos festivais eletrônicos reserva algum espaço (e respeito) para esses corpos igualmente eletrizantes.

Abaixo, leia o relato de Aun Helen sobre o ocorrido:

Eu performaria por duas horas no after do evento, que começaria a partir das 4h, apesar de eu não ter tido contato nenhum em relação ao timetable. Tudo foi muito avisado de última hora. A negociação inteira foi feita de uma forma muito rasa: desde o começo rolou descaso em relação aos artistas de performance.

Não tivemos acesso aos mesmos privilégios proporcionado aos DJs. Foi acordado que eu performaria por duas horas nesse after, com a estrutura de um palco e seria feito um espaço só para performance. Não tive acesso a forma como seria e o quê seria isso, de fato. Porém, foi garantido um espaço exclusivo para nós com todas as condições estáveis dignas de exercer meu trabalho no festival. Mas, não foi o que aconteceu.

Fui avisada por e-mail a respeito de uma suposta entrada de credenciamento artístico. Eu cheguei lá entre 6h30 e 7h, pois o combinado era eu performar entre às 7h45 e 8h, seria a segunda entrada do ato de performance do evento, após o Loïc. Quando cheguei lá, não entendi nada. Cheguei em um lugar que tinha mais cara de entrada de estacionamento do que qualquer outra coisa. Haviam dois seguranças ali, mas eles não entendiam absolutamente nada do que estava acontecendo. Não havia lista, apenas comunicação por rádio. Fiquei o tempo todo justificando minha entrada para trabalhar.

Eu estava lá com meu corpo todo montado e exposto, as pessoas passando de carro naquele sol da manhã e rindo. Enfim, fico totalmente vulnerável como artista quando eu coloco meu corpo daquela forma. Assisti às pessoas rirem de mim, tirarem foto, nós sabemos qual é o perfil da maioria do público deste festival… Eu fiquei todo esse tempo nesse estado de fragilidade.

Foi passado um nome de uma pessoa responsável pela minha apresentação no festival. Mas, ele não atendia ao rádio, não se comunicava de maneira alguma. Precisei de ajuda do meu booker, que conseguiu contato com ele só depois de ligar umas 20 vezes sem parar. Essa pessoa permitiu minha liberação na entrada. A orientação que recebi foi: “segue em frente que tem um portão artístico ali e vão estar lá para recebê-lo.”

O festival é gigante, imenso, e eu segui o que fora dito, a meia palavra que eles jogaram no ar. Fui parar em um ponto de distribuição de bebida. Lá, ninguém sabia informar o que estava acontecendo. Nada sobre camarim ou sobre o tal espaço artístico, ninguém estava me reconhecendo como artista naquele espaço. Ninguém. O que me ofereciam era tirar foto de mim. Eu me senti absurdamente vulnerável no festival o tempo todo.

Novamente, meu booker, o Danilo Espeleta, veio ao meu auxílio. Fomos atrás do tal “espaço artístico”. Falo entre aspas por que o camarim era num estacionamento, um galpão cheio de lama, nem sei como descrever, dá para conferir nos registros de vídeo do Loïc. Tinha lama, um espelho fincado no chão, três ou quatro garrafas de água e tônica para nós bebermos. Nao vi nenhum tipo de alimentação e nada do que constava descrito no contrato. O acordo era termos um camarim com condições dignas para nos arrumarmos e nos prepararmos antes do ato de performance.

Após entrar neste tal camarim, eu questionei sobre onde era o palco prometido para performance. Mas Loïc e seu namorado Rapha entraram em contato para avisar que não tinha palco só de performance, nem estrutura e estavam indo embora pois era uma falta de respeito. Insisti e perguntei onde era palco do after. Fizeram eu atravessar o festival inteiro até a porta do tal after. Repito, com meu corpo exposto em toda vulnerabilidade. Mas a estrutura realmente não existia.

Na sequência, eu fui impedida de performar no palco [o mesmo dos DJs], onde estou acostumada a me apresentar no Brasil, porque este não é o modelo de estrutura do DGTL. Eu fiquei por quase 20 minutos parada com as mãos para trás, sem saber o que fazer. Ao meu redor, havia várias pessoas conversando, discutindo… Eu estava psicologicamente afetado, mas ainda tentava compreender a situação: é um festival imenso, gigante, com uma puta grana, uma puta estrutura, de iluminação, palco… Mas, não tinha um espaço digno para eu exercer meu trabalho! Eu e Loïc fomos convidadas e contratadas para estar lá. Mas, a única infraestrutura que tivemos foi um camarim cheio de lama.

Depois de tudo isso, eu fui apresentado a pessoa descrita como a responsável pelos performers no festival. O que eu recebi? Um aperto de mão. Sabe qual foi a solução que me deram? “Volta para casa porque não vai ter estrutura para você performar”. O que eu poderia fazer diante disso? Na situação em que eu me encontrava, tinha preparado tudo, saí de casa às 5h da manhã para estar no outro lado da cidade. Saí e tive que passar por todas aquelas pessoas de novo, no estado de vulnerabilidade, e sem solução alguma.

Eu não tenho noção de qual DJ estava tocando no momento. Porém, estava claro que existia uma classificação de nivelamento referente à importância do nosso trabalho comparado ao deles. Na dúvida, basta comparar a estrutura que nos foi reservada, o palco, o camarim… Ninguém tinha consciência e dignidade de nos receber ali naquele evento. Se formos discutir questões estruturais, vejamos, o caso do Loïc era também racial, eu era a única pessoa trans não binária. É muito foda esta situação; somos exceções. Olha a condição que nos foi dada para esses tipos de corpos. É foda essa questão estrutural (…). Eu tenho mais ou menos a noção do acontecido com a performers em 2018. É absurdo, louco, como isso se repetiu? É óbvio, mas é louco. Como um festival deixa isso acontecer pela segunda vez? De uma forma piorada, é absurdo.

Em vista de todos os acontecimentos, o Monkeybuzz conversou com os principais personagens da cena eletrônica no Brasil a respeito da importância da performance em suas festas.

“São artistas que estão ali também para mostrar o seu trabalho e é algo que nem deveria ser uma questão. Não só os performers ou DJs, mas uma festa que acompanha o tempo em que vivemos, reconhece e respeita o trabalho de todos com a mesma relevância, do staff ao artístico. (…) A performance marca uma mudança de comportamento na noite, pontua um novo momento para todos, inclusive para quem toca. Percebo que isso começou (ou retornou) junto às festas fora dos clubes. Esse novo espaço ocupado traz uma dinâmica nova para produção e ao público, que demanda um conjunto mais amplo de expressões artísticas. A performance tem dado outra atmosfera às festas e raves. É claro que isso influencia a música”- DJ Gezender, idealizador da Sangra Muta

“Não faz muito tempo que apenas os DJs (principalmente se fossem gringos) eram devidamente valorizados na cena de música eletrônica de São Paulo, com o surgimento da Coletividade NAMÍBIA há dois anos, que para além de levantar o debate racial, passou a questionar e levar conscientização aos produtores sobre o lugar dos artistas visuais e performers nesses espaços, foi quando as coisas começaram a mudar de fato e hoje já é mais comum ver performers sendo integrados e valorizados enquanto parte crucial de festas como Mamba Negra, ODD e Sangra Muta para uma experiência não apenas sonora, mas também visual e sensorial que as performances proporcionam” – Ana Giza

“X performer é um/umx corifeu, um gatilho. O corifeu trans-pira y atravessa o coro. Numa sociedade em que nossos corpos são agenciados pelo Estado, o papel da performance e do reconhecimento do nosso trabalho como performance vêm do questionamento que nossos corpos trazem consigo. Como artista, é bem claro pra mim que xs performers, travestis e drags, foram responsáveis por abrir um espaço em que senti que poderia levar para as pistas y pra rua, finalmente, meu corpo exposto em luta. Esse sentimento se expandiu em muitas outras pessoas que construíram juntas o cenário de festas independentes como um lugar de trabalho, respeito e afeto entre as manas, as monas, as travas, as gays, as sapatão y não-binaries. Então, temos que denunciar e observar atentamente a apropriação dos nossos corpos por uma mera sexualização das nossas carnes. Os festivais precisam dos artistas locais (mal pagos) para legitimar seu business gringo. Uma lógica colonialista y predatória. E muitas vezes nós artistas precisamos do aqué e não podemos recusar. Isso não pode ser recriminado. Apenas ocorre que para nós performers, que explicitamente trabalhamos com o corpo enquanto artistas, essa contradição arde diretamente na carne e, não raramente, nos termos da humilhação. Maltratem xs artistas e vocês estarão sendo maus empresários e seres humanos medíocres que fomentam a “arte” do palco italiano, do DJ gringo homem branco bombado, do quadro na parede como um retrato da arte apolínea em frangalhos e toda a corja dos pequenos phoderes em agonia.” – Laura Diaz, autora do projeto CARNEOSSO e integrante da banda Teto Preto.

“Acredito que a performance acaba sendo um elemento importante da festa que completa a apresentação do DJ e enaltece o quê artístico” – DJ Paulo Tessuto

“O performer é essencial para garantir interação na pista. Tem DJ que é tímido, nerd, fica com a cabeça baixa, não interage. Na minha época, não presenciava tantos performers como hoje, lá pelos anos 90 começo dos anos 2000. São tão artistas quanto os DJs, precisam constar na planilha, ter camarim, contrato, rider, ser tratado igual ao DJ” – DJ Dany Bany

“Hoje, muitas festas incorporaram as performances corporais, visuais entre tantas outras formas de expressão nos seus lines. Desta forma, houve um crescimento e vínculos muito bonitos para a cena. A Capslock e a Mamba Negra representam muito bem essa relação!” – L_cio

“A cena underground de música eletrônica aqui em BH surgiu a partir de comunidades que são minorias para o grande público, como pessoas periféricas, LGBTQI+, negros etc. (…) Trazer esses artistas para as nossas festas foi uma ação necessária para criar novos espaços para essas pessoas e, principalmente, tornar as nossas ideologias de inclusão e diversidade mais concretas, já que nem sempre é possível alcançar isso apenas com a curadoria musical. É um complemento sensorial e político, que carrega uma mensagem de ocupação de determinados corpos que se faz necessária. (…) Os performers são a extensão e materialização das ondas sonoras de uma festa. É uma mensagem visual importante que complementa a colisão de sensações que surgem entre a música do DJ e a forma que o público a recebe. É aquele meio de campo que une a pista. É como se a pessoa interpretasse a música e pensasse na melhor forma de traduzi-la para o público. E nada como um bom tradutor para se fazer entender bem qualquer mensagem, seja ela sonora, corporal, expressiva…” – Festa 101Ø

“Pensamos a festa como uma plataforma que abriga não só a música, mas várias outras manifestações artísticas que proporcionam outras camadas de experiências dentro dela. A performance ainda consegue colocar em destaque grupos e expressões de minorias que normalmente são invisíveis, além de criar um terreno de liberdade criativa para muitos artistas que não encontram essa possibilidade em outros lugares e isso é especialmente importante no contexto do Brasil atual, com cada vez menos espaços para arte e criação” – MASTERplano

“Acredito que o entendimento de que as festas são encontros múltiplos – e que, portanto, podem abarcar expressões diversas – se acentuou nos últimos dez anos. Desde aquele momento de criação de novas festas independentes e ocupação de outros territórios, abriu-se uma brecha para questionar também o que é uma festa e que formato ela pode ter. Com isso, outras expressões ganharam reconhecimento. Estamos mais reconhecidos e consolidados como linguagens estruturantes dos rituais-festa, porém em muitos espaços, ainda defasados em relação à linguagem da música” – Bruno Nogueira, iluminador das festas Sangra Muta, Dando, Popporn e Batekoo. Um dos criadores do projeto LAÇO, ao lado de Márcio Vermelho

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