Shame e os diferentes tons de rosa

O baterista Charlie Forbes fala sobre o processo de produção e as histórias por trás de “Drunk Tank Pink”, segundo disco da banda britânica, lançado hoje

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Fotos: Sam Gregg

Em 2018, o Shame, banda do sul de Londres, lançou Songs of Praise, álbum de estreia carregado de energia e impulsividade típicas dos 20 e poucos anos. O registro ajudou a realocar o Pós-Punk no imaginário de uma juventude britânica que vivia a revolta e o descontentamento após o Brexit – e parecia ansiar por uma cena musical mais subversiva. Àquela altura, os jovens “dependiam” do Rock-não-roqueiro de bandas como The 1975, que dominava as paradas com guitarras nada raivosas.

Formado por Charlie Steen (vocal), Josh Finerty (baixo), Eddie Green (guitarra), Sean Coyle-Smith (guitarra) e Charlie Forbes (baterista), o Shame incrementou ainda mais uma cena que se formou organicamente e ecoa o grito de uma juventude engajada. O primeiro álbum, muito bem recebido pela crítica, foi a escolha do ano da Rough Trade e um tiro certo para angariar uma sólida base de fãs pelo mundo. Songs of Praise é um shot enérgico, agressivo e, ao mesmo tempo, jovial. Agora, mais precisamente hoje (15/01), é hora de acalmar os ânimos com o lançamento do aguardado segundo álbum do grupo.

Drunk Tank Pink é o título do novo trabalho – gravado no La Frette Studios, em Paris – e também o termo como é conhecido o tom de rosa Baker-Miller. Fazendo uma pesquisa rápida, você descobre que o cientista americano Alexander Schauss estava por trás da teoria de que cores podem atenuar comportamentos agressivos. No final dos anos 1970, ele fez experiências com diferentes tons de rosa e descobriu que o matiz P-618 parecia aliviar a pressão cardíaca. Um outro experimento indicou que a cor, mais tarde nomeada Baker-Miller Pink, “atenuou” o comportamento violento de presidiários, em um centro correcional naval, após eles passarem 15 minutos em uma cela de prisão pintada com o tom de rosa. Além disso, a cor pode estar relacionada à inibição de apetite, atribuição que ficou conhecida por conta de Kendall Jenner e seu quarto pintado nesses tons.

Em entrevista ao Monkeybuzz, o baterista Charlie Forbes falou sobre os motivos para a escolha do título: “O Steen se mudou para um quarto que era uma lavanderia, um lugar barato para se morar – meu pai o ajudou nessa mudança. Ele queria pintar o quarto de rosa e escolheu aleatoriamente esse rosa e o pintou inteiro. Isso foi antes do álbum. A gente voltou de dois anos e meio de turnê pesada e o Steen tinha saído da casa dos pais. A maioria dessas letras são de dois meses nos quais acordávamos a hora que queríamos e não tínhamos aquela vida com um cronograma diário. Acho que, para ele, foi difícil no começo. Ele saía muito e encontrou conforto nesse quarto rosa que era feito para ele, foi lá que ele escreveu essas letras, lidando com sentimentos como ansiedade, se sentir ‘normal’ de novo, voltar à rotina, ver amigos, ir ao mercado. Aí a gente compôs e gravou o álbum, e a mãe do Steen lhe deu esse livro de cores famosas, no qual ele encontrou essa Baker-Miller Pink, que tem esse efeito calmante, de deixar pessoas relaxadas. E tudo meio que fez sentido. Em alguns lugares dos Estados Unidos, essa cor também é chamada de Drunk Tank Pink, usada em lugares para pessoas ‘agressivas’, tipo celas, e drunk tanks são instalações que acomodam pessoas intoxicadas, principalmente por álcool. Mas é um nome meio difícil. Eu, na real, queria que o disco se chamasse Shame Reloaded”.

“Essas letras surgiram durante dois meses nos quais acordávamos a hora que queríamos e não tínhamos aquela vida com um cronograma diário”

“Alphabet”, faixa que abre o repertório, é cheia de camadas, distorções e se inicia com uma frase categórica para um segundo disco: “Now what you see is what you get”. Agora uma banda de jovens adultos, o Shame parece se enxergar para além de uma turma de amigos adolescentes e esse novo momento também se refletiu na forma de compor, produzir e gravar. “Com o Songs of Praise, pensando nas composições, eu diria que a gente entrou em um quarto e tocamos juntos. No Drunk Tank Pink, criamos um espaço para gravar no sótão do Josh. Fazíamos umas jams, íamos gravando as ideias, depois trabalhávamos em cada seção e aí é mais fácil juntar essas camadas. A gravação foi parecida, mas agora a gente sabia mais o que estava fazendo. Sabíamos o que esperar e queríamos garantir que teríamos tempo para trabalhar em todas as partes, como percussões e synths – algo para o qual não tivemos tempo no primeiro álbum. Dessa vez, fizemos demos de percussões, por exemplo. A gente sabia o que queria”, conta Forbes.

O clipe da faixa de abertura parece ter saído de alguma peça de Samuel Beckett, autor irlandês do chamado Teatro do Absurdo, cujas histórias são carregadas de existencialismo e non sense. A veia tragicômica do trabalho dos londrinos está ali presente, ainda que não haja uma explicação exatamente muito filosófica ou conceitual para a construção audiovisual. “O vídeo foi feito pela Tegen Williams, uma amiga nossa. A ideia era para ser meio que esse sonho em sequência, em clipes curtos. E tem umas fotos em preto e branco que são de amigos e parentes nossos que estavam lá no dia da gravação. É meio confuso e não sei se eu entendi completamente a ideia, mas eu gosto de como ficou, é divertido”.

A evolução e o amadurecimento sonoro da banda vêm também das pessoas que estiveram ao redor do desenvolvimento de Drunk Tank Pink. Como, por exemplo, James Ford, um dos produtores britânicos mais importantes dos últimos 10 anos, que assinou trabalhos de nomes como Florence and The Machine, Foals e especialmente Arctic Monkeys – além de ser uma das metades do cultuado duo Simian Mobile Disco. Vale destacar também o exuberante trabalho de Ford em What’s Your Pleasure?, de Jessie Ware, um dos grandes discos de 2020. “A gente ficou pouco mais de três semanas no estúdio e tivemos uns cinco dias de folga nesse período. É maravilhoso trabalhar com James, ele é super aberto a testar. E é do pensamento ‘não vamos discutir se devemos ou não tentar, tentamos e, se não funcionar, beleza’ – e ele também não tem medo de dizer que não funcionou”. “Human, For A Minute”, mais antiga composição do álbum, foi uma das faixas que passou pelo tratamento (e os palpites) de Ford. “A gente tocou para ele e ele falou: ‘isso tá uma merda, vamos mudar’. Em duas horas, a música mudou completamente e ficou ótima. Mantivemos a letra do Steen, que eu acho muito boa, o riff do Sean também, mas ela ficou mais devagar, com outra linha de baixo, outra guitarra rítmica. No fim, ficou bem melhor”. A parceria entre banda e produtor começou depois de Ford assistir a um show do Shame no Kentish Town Forum, no fim das turnês de Songs Of Praise, no fim de 2018. “Infelizmente, um cara bem caro, devo dizer. Mas fiquei muito feliz em ter ele nesse álbum”, diz Forbes.

“Enquanto a gente compunha, surgiam músicas mais sombrias, mais Pós-Punk, mas, também, umas bem dançantes. A gente nunca teve a intenção de escrever um álbum ‘só com as mais Pós-Punk’ ou ‘só com as mais dançantes’. Ficamos preocupados com músicas muito diferentes pelo repertório. Mas aí o James [produtor] veio e fez a mágica de combinar tudo de uma forma coesa e que faz sentido”.

Drunk Tank Pink é feito de pequenos universos que vivem muito bem separadamente. De uma maneira estranha – no bom sentido –, a primeira parte do álbum é cheia de faixas dançantes e percussivas, enquanto a segunda é mais densa e contemplativa. “Obviamente, enquanto a gente compunha, surgiam músicas mais sombrias, mais Pós-Punk, mas, também, umas bem dançantes. A gente nunca teve a intenção de escrever um álbum ‘só com as mais Pós-Punk’ ou ‘só com as mais dançantes’. Ficamos preocupados com músicas muito diferentes pelo repertório. Mas aí o James veio e fez a mágica de combinar tudo de uma forma coesa e que faz sentido”. E as influências para construir esses diferentes universos e sonoridades? O baterista faz questão de citar uma, bem evidente. “Acho que a resposta mais óbvia é Talking Heads, o Sean estava ouvindo muito e dá para notar nas guitarras, as que são mais funkeadas, tipo ‘Water In The Well” e “Nigel Hitter”. Mas, na verdade, acho que é uma combinação de tudo o que a gente ouve”.

A ótima “Snow Day” soa como um divisor (ou equalizador) dessas duas frequências pelas quais o trabalho percorre. Com bela letra, a faixa passa, progressivamente, por várias fases até o épico fim aos 5’ 20’’ – e transporta o ouvinte para a ideia de “cenário gelado” que Steen propõe. “A gente tinha tentado escrever uma música que não fosse verso, refrão… Queríamos algo mais como uma progressão. Criamos algumas que não eram muito boas até a gente fazer ‘Snow Day’. Lembro que, assim que a compusemos, eu falei ‘essa é a melhor coisa que a gente já fez’. Ela foi feita em um ‘retiro de escrita’ na Escócia e o vídeo dessa música é com imagens dessa semana por lá”.

Além do nome intrigante, a capa desperta curiosidade. Duas fotos em preto e branco de um homem já em seus 50 e poucos anos, o nome da banda, o título e só. “Meu pai foi na gravação do vídeo de ‘Alphabet’ e a foto dele tirada nesse dia acabou virando a capa do álbum. Foi mais uma coisa de que a gente tinha menos de duas semanas para mandar a capa e não tínhamos nada, e isso foi bem na época que a gente fez o vídeo, e a Tegen mandou o vídeo e as fotos em preto e branco. As fotos são lindas, vimos a do meu pai e pensamos ‘poderia ser isso’. É muito legal porque foi ele que sugeriu o nome da banda e ele que descolou o primeiro lugar para gente ensaiar, sempre apoiou muito a gente, então é meio que uma homenagem também. Agora o ego dele tá nas alturas e eu fiquei feliz com isso”.

(Fotos: Rodrigo Gianesi)

Infelizmente, com todas as consequências da pandemia, os shows da banda já foram adiados e remarcados algumas vezes e os planos de fazer alguma live para celebrar o lançamento foram cancelados, já que o Reino Unido vive mais um lockdown, o mais rigoroso desde o começo do caos em 2020. “A gente quer fazer algo, mas toda vez que a gente planeja é cancelado. Não sei muito bem, mas, em algum momento, talvez role uma live, não sei. Nossa turnê pelo Reino Unido que era para acontecer em abril foi adiada para novembro. Cara, eu só espero que ela aconteça de verdade”.

No fim de 2019, em passagem pelo Brasil, o Shame se apresentou em Porto Alegre e em duas noites seguidas em São Paulo. Na capital paulista, antes de se apresentarem no Balaclava Fest, eles encheram completamente o Breve e entregaram um dos melhores shows da história da charmosa casa na Pompéia. “A gente sempre lembra desses shows, parece que foi há muito tempo. Foi incrível. Esses dias, lembramos que aquela música do Hoobastank (“The Reason”) é bem grande aí para vocês, né? Todo mundo cantou emocionado no karaokê! Sentimos falta desses dias no Brasil”.

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ARTISTA: Shame