SINAPSE: confusões orquestradas

Julius Eastman, Wild Up, Christine Sun Kim e partituras horizontais ou verticais

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Fotos: Mariana Poppovic

Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (sempre às quartas-feiras).

 

PARTITURA

Julius Eastman, Christine Sun Kim e as notações musicais

 

Julius Eastman foi um compositor de música experimental que viveu nos Estados Unidos e faleceu precocemente no ano de 1990. Como um artista afro-americano gay, Eastman viveu e produziu sua música sem concessões. Devoto de suas paixões e de sua maneira de fazer música, o artista se afastou do mainstream e de seus pares. O seu legado musical acabou por ser esquecido. No entanto, recentemente, um interesse por sua obra foi reacendido por alguns grupos contemporâneos, e atingiu o público.

Wild Up é uma banda de Los Angeles que se denomina “um grupo de músicos dedicado a criar acontecimentos viscerais e instigantes”. No ano passado, a Wild Up gravou algumas das composições de Eastman num projeto dividido em dois volumes. O primeiro, Femenine, é dedicado à peça homônima de aproximadamente uma hora de duração. O segundo, Joy Boy, aglomera várias peças distintas, e foca nas composições menos conhecidas de Eastman.

Para resgatar o trabalho de Eastman, o grupo teve que se desdobrar na pesquisa. Com exceção da faixa “Stay On It”, todas as músicas do projeto só haviam sido gravadas uma única vez. Algumas músicas, sem partitura escrita, tiveram que ser tiradas de ouvido.

A peça Buddha é o caso mais interessante: escrita num período mais tardio da vida de Eastman, quando o artista já não usava um piano para compor, mas passava suas ideias direto para o papel, Buddha foi escrita numa partitura desenhada à mão, que tem o formato de um ovo.

Sem indicação de compassos, andamento, movimento ou qualquer outra coisa além de notas, a leitura é altamente aberta à interpretação. É possível ler a partitura na horizontal ou na vertical: “a leitura horizontal, Buda (Path), é quieta e contemplativa, com saxofone, trombone e cordas se apoiando em uma estrutura esquelética. A versão vertical, Buddha (Field), no entanto, constrói-se em uma parede de som dissonante”.

A partitura nada convencional de Eastman, me lembrou o trabalho da artista americana Christine Sun Kim, que trabalha na intersecção entre a música e as artes visuais contemporâneas, utilizando a notação musical e a linguagem de sinais americana (ASL) para desenhar. Surda, ela explora a polissemia de elementos que pretendem dar conta da comunicação humana.

Na obra The Sound of Temperature Rising, de 2019, ela tenta registrar a sensação de emergência climática. O que a artista articula como “ruído”, pode ser interpretado como uma percepção de urgência e barulho que caracterizaram os anos de Donald Trump no poder.

Uma partitura tem o propósito de orientar a execução de um músico. No caso de Julius Eastman ou Christine Sun Kim, a liberdade de notação tem a função, ao contrário, de confundir. Melhor dizendo, fugindo às normas estabelecidas, apenas instiga ainda mais a criatividade daqueles que se propõe a interpretá-los.

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Autor:

é músico e escreve sobre arte