SINAPSE: homenagens e caricaturas

Angel Olsen, “American Gothic”, Adrianne Lenker, paisagens interioranas e a negação

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Fotos: Mariana Poppovic

Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (sempre às quartas-feiras).

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Angel Olsen, American Gothic e a negação

 

Angel Olsen recentemente lançou o sexto álbum de sua carreira, Big Time. É um disco marcado pelo o luto pela morte do pai e da mãe da cantora, que delimita um espaço vazio nas canções, marcando presença sem necessariamente ocupar um lugar. Musicalmente, Olsen quebrou a fronteira imaginária entre o folk e o country e, influenciada pela tradição de um estilo chamado americana, ela canta as asperezas da vida, contextualizadas pelas paisagens interioranas dos Estados Unidos.

Big Time ganhou também um filme que acompanha o álbum, de quase meia hora de duração e dirigido por Kimberly Stuckwisch. Nele, a cantora aparece dirigindo por rodovias tortuosas, em uma incursão por motéis e bares de beiras de estrada. O clima soa um pouco nostálgico dos anos 1970, mas, ao mesmo tempo, evoca uma admiração por um lugar que parece parado no tempo, no qual os valores são diferentes daqueles da cidade grande.

Uma pintura de 1930, chamada American Gothic e de autoria de Grant Wood, ajudou a definir a imagem do personagem interiorano dos Estados Unidos. Na imagem, Wood resolveu retratar um fazendeiro e a sua filha, à frente de uma casa de campo típica do interior, sob uma luz vespertina. As expressões das personagens são um tanto contrariadas, e é possível notar certo tipo de humor vindo do pintor, que cede lugar a uma melancolia inerente ao lugar que está retratando.

Para a pintura, Wood reuniu sua irmã e o seu dentista, pedindo para que posassem como uma família. As roupas e o tridente, que acenam para uma tradição colonial do país, também são fabricadas especialmente para a ocasião. O conflito entre os olhos do pintor cosmopolita e a sua pintura, que retrata um interior imaginário, revela uma complexidade que se dá pela negação: não é possível saber se a sua intenção é a de fazer uma caricatura ou prestar uma homenagem às tradições de seu país.

“Not” é uma música da Big Thief, cuja letra de Adrianne Lenker, de grande força poética, me parece uma busca pela definição de uma força incompreensível. Descrevendo detalhes da vida, delineando momentos existenciais, a única maneira que Lenker encontra para descrever o que quer, é justamente traçando um contorno ao redor das coisas que não quer dizer. Vale assistir à apresentação ao vivo da canção, gravada no Bunker Studio.

Lenker, recentemente, também resolveu tomar um caminho mais melancólico, que aponta para as pequenas cidades do interior e lançou dois discos solo, temperados pela americana, sendo um deles instrumental. Em uma apresentação para a KEXP, gravando “de casa” durante o isolamento social, ela curiosamente aparece sentada ao ar livre, no que parece ser um deserto. Ela usa uma blusa de frio, uma névoa discreta se forma no horizonte e o sol, poente, pinta a atmosfera com uma luz dourada.

 

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Autor:

é músico e escreve sobre arte