Sinéad O’Connor, Ainda Relevante

Prestes a lançar seu décimo álbum, cantora irlandesa tem seu impacto nos dias de hoje

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Você não deve lembrar ou mesmo saber, leitor/leitora, mas, em 1987, a imagem daquela bela cantora de cabeça raspada, invadindo as televisões de tudo do mundo, era bastante peculiar. Ela veio do nada, furiosa, uma espécie de anti-Madonna, anti-Cyndi Lauper, com uma performance esquizofrência, cheia de personalidade, assaltando o clube privado do sucesso musical da época. E sabemos o quanto era complicado para penetras e indigentes adentrarem os domínios do êxito musical assim, sem mais nem menos. Sinéad O’Connor tinha 20 anos e estava grávida de sete meses quando apareceu para o mundo através de seu primeiro álbum, The Lion And The Cobra, lançado em 1987.

Era interessante porque parecia algo novo. Poucos sabiam quem era aquela menina ou o que era Mandinka, o título de seu maior sucesso até então. Uma quebra com o padrão, mais que isso, uma quebra que conseguira furar o bloqueio estético do tal mainstream. Talvez fosse exagero, uma vez que Sinéad era uma artista de têmpera Indie, como os recém-separados Smiths, por exemplo. Poucos imaginavam que aquela cantora careca era uma egressa dos internatos irlandeses mais rígidos, desses que vemos em filmes como Philomena, por exemplo. Ela fora mandada para uma dessas filiais do inferno na Terra por conta dos inúmeros problemas familiares que vivenciou. Filha de pais separados, primeiro morou com a mãe. Pouco tempo depois, foi viver com o pai, alegando sofrer abusos de todos os tipos. Uma vez com o pai, mas já completamente instável, Sinéad quase causa o fim de seu segundo casamento, uma vez que sua madrasta impôs sua partida como condição para continuar vivendo maritalmente. Dito e feito. Enquanto sofria punições severas no internato, a adolescente refinava sua verve de compositora e cantora. Lia, compunha e apanhava. Funcionou.

Uma vez fora dali, em pleno 1985, Sinéad rumou para Dublin, fechando com uma turma de artistas orbitantes da maior banda da cidade, na época, planejando conquistar o mundo em pouco tempo: U2. Ela impressionou com uma imitação de Barbra Streisend cantando Evergreen. Tudo muito inesperado, diferente, rebelde. Respaldada na simpatia que The Edge demonstrou por ela, O’Connor assinou contrato com o selo da banda, Mother. Começou a se preparar para entrar em estúdio mas não conseguia se controlar nas declarações e logo apareceria exaltando as virtudes e elogiando a atuação do IRA, o Exército Republicano Irlandês, organização terrorista que atuava na época visando a independência da Irlanda do Norte em relação ao Reino Unido. Sinéad era jovem, mas já sabia o que pensar da vida. Era natural que fosse oposição, rebelde, consciente, feminista.

O primeiro disco fez sucesso na Inglaterra e nos Estados Unidos (em menor escala), chegando a ser assunto no Brasil do Sarney. Era algo grande, principalmente para uma figura tão peculiar. A moça excursionou pelo Reino Unido, apareceu nas capas dos semanários ingleses mas nem o mais otimista dos admiradores ou dos executivos de gravadora poderia imaginar que aquela jovem estaria no topo das paradas em dois anos. Dito e feito. Puxando o segundo álbum, I Do Not Want What I Haven’t Got vinha uma canção chamada Nothing Compares 2U, composta por ninguém menos que Prince, mas gravada por um de seus projetos paralelos, The Family. Era obscuro até para o próprio Anão Púrpura de Minneapolis, mas Sinéad refizera a canção, transformando-a numa balada clássica, distinta das babas em voga nas paradas pela interpretação sofrida e o minimalismo da gravação: apenas um teclado de fundo e bateria eletrônica, além de vocais de apoio.

Em pouco tempo a imagem da cantora estaria em muito mais lares do mundo, graças ao clipe de divulgação do hit, na verdade, um close constante de sua face interpretando a canção. Sinéad foi aos píncaros das paradas inglesas e americanas em pouco tempo e permanecendo no topo o suficiente para ser considerada uma popstar. Logo surgiram convites para participar de tributos e álbuns especiais. Ela gostou particularmente da ideia da fundação Red + Hot, que lançava o primeiro álbum de uma série, o Red + Hot & Blue, para auxiliar nas pesquisas sobre a AIDS, com vários artistas interpretando canções do compositor americano Cole Porter e fez uma versão interessante de You Do Something To Me. Sinéad também participaria de Two Rooms, tributo à obra de Elton John e da versão de The Wall erguida por Roger Waters em Berlim.

Naquele início de anos 1990, antes do grunge dar as caras nas paradas mundiais, a irlandesa era uma presença constante na MTV. Sua imprevisibilidade, porém, continuava presente. Em uma apresentação nos Estados Unidos ela se recusou a cantar porque a organização do local previa uma audição do hino nacional americano. Resultado: ela cantou mas sob uma razoável incidência de vaias. Em 1992, numa exibição do programa humorístico Saturday Night Live, O’Connor deixaria a produção em maus lençóis. Ela foi entrevistada para falar sobre abusos infantis e combinara cantar com uma foto de uma dessas crianças mas, ao contrário, se apresentou interpretando War, sucesso pacifista de Bob Marley , com uma foto do Papa João Paulo II, que ela rasgou ao longo da canção. Recebeu críticas de todos os lados, inclusive de Madonna, concorrente na época, famosa por cutucar a igreja anos antes, no clipe de Like A Prayer. A verdade é que Sinéad chegara num ponto do sucesso muito complexo de ser sustentado. Exigia disciplina, enquadramento, alguma subserviência ou jogo de cintura. Ela não parecia ter nada disso. Resultado: voltou para Dublin e foi viver sua vida dando prioridade à criação de seu filho Jake, então com seis anos.

Seus discos lançados a partir dos anos 1990 são nítidos casos de encolhimento. Em 1992, sai a coleção de standards Am I Not Your Girl e decepciona quem esperava por algo no mesmo molde do sucesso impressionante do álbum anterior. Dois anos depois é a vez de Universal Mother, simpático, mas sem graça. Seis anos passam até que Sinéad ressurja a bordo do morno Faith And Courage, que contava com várias participações especiais de gente legal como Brian Eno e David Stewart, mas que não vendeu mais que um milhão de cópias ao redor do mundo. Depois viria Sean-Nós Nua, disco com canções tradicionais irlandesas e She Who Dwells in the Secret Place of the Most High Shall Abide Under the Shadow of the Almighty, título quilométrico para seu primeiro álbum duplo de material original, com participação de gente legal como Massive Attack e Asian Dub Foundation, entre outros, lançado em 2003.

Nos últimos dez anos, Sinéad continuou produtiva, incorporou elementos de Reggae e religiosidade em sua música e agora retorna com o sintomático I’m Not Bossy, I Am The Boss, seu décimo trabalho, a ser lançado em breve. A irlandesa segue relevante, raivosa, atuante e a audição de sua obra não é tarefa simples. São canções complexas, cheias de sutilezas e feitas com total honestidade, zero de concessões a fórmulas de sucesso fácil. Enquanto não vem a resenha do novíssimo álbum, que tal uma pesquisada nas canções de Sinéad? Você não vai se arrepender.

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MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.