The War On Drugs: A Road Trip Transformada Em Música

Banda liderada por Adam Granduciel exibe um retrato contemplativo da vida interiorana

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The War on Drugs é a road trip transformada em música. Uma bateria em combustão acelerada, notas longas de guitarra que deslizam pelo asfalto e uma voz declamatória marcada por um sotaque interiorano fazem parte da contemplação onírica do folclore estadunidense. Agradeça a Adam Granduciel que, em suas viagens pelos recônditos da mente, desenvolveu uma fórmula sonora muito própria.

Se escolho usar o termo road trip, assim em inglês, é porque a banda oferece um retrato da cultura norte americana. O estilo musical do grupo, o Americana, é a herança de uma música deixada por Bob Dylan, Bruce Springsteen e Neil Young: o relato da poesia que brota no cotidiano da vida “comum” do país. É a apropriação desta vertente combinada com paisagens mais contemporâneas: é também o Indie de reverbs na guitarra e da melancolia Shoegaze.

Apesar de ser um retrato do tédio que assola as paisagens geladas do norte do país, é uma perspectiva muito bonita. A música de The War on Drugs é feita por (e para) cabeludos de camisa de flanela que vivem nas pequenas cidades do interior. Que dividem sua vida entre postos de gasolina, cenários descampados que se arrastam até o horizonte e que bebem sua Bud Light em frente à TV na hora do jantar. É música de gente que vê – precisa ver – grandeza nas coisas menores da vida.

É interessante pensar no nome da banda, que exibe uma perspectiva política da vida – principalmente àquela da classe média-baixa – nos EUA. A “guerra às drogas” é uma estratégia política que resultou em preconceito e criminalização, e, consequentemente, em uma população abandonada pelo estado. O nome também pode ser interpretado como “a guerra sob o efeito de drogas”: não é escusado pensar no alto consumo de entorpecentes pelos soldados americanos na guerra do Vietnã.

No entanto, Granduciel não é um militante político, é um contemplador. É isso que a capa de Lost In The Dream mostra. Como disse Nik Silva em sua resenha “o onirismo que emana do álbum nada tem a ver com alguma viagem transcendental ou lisérgica, mas com busca interior, com certo senso de entendimento de si mesmo”. Essa sensação a que o título se refere, de se estar perdido em um sonho, tem a ver com o sonho americano? Pode ser, ou pode ser também este que ocupa a nossa mente em momentos de devaneio: pouco – ou nada – disso tem a ver com psicodelia. Tem a ver coma sobriedade de gente que se vira na vida apesar dos pesares.

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MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.