Transfusão Noise Records: Lo-Fi Tupiniquim

Com proposta e sonoridade bem diferentes, o selo se propõe a fazer um som cheio de guitarras e distorção, bem diferente de que se vê na atual cena carioca

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Mesmo não tendo muito da sonoridade Punk, esse espírito com certeza está aqui. Vindo da cultura do “faça você mesmo”, Lê Almeida criou em 2004 um selo um tanto curioso e bem diferente de tudo o que se via (e ainda se vê) na cena carioca. Enquanto o Indie Rock (em ecos do Strokes de 2001 e da cena de NY) dava seus primeiros passos com Moptop e Leela no Rio, surgia no underground um movimento garageiro cheio de distorção e boas melodias.

Com um gosto pela chiadeira e uma sonoridade bem sujinha, Lê criou a Transfusão Noise Records. E o que no começo tinha como propósito só juntar seus amigos e gravar suas músicas, se tornou um selo com um bom número de EPs e compactos lançados. “A Transfusão nasceu em 2004, quando eu e meus amigos tocávamos em várias bandas e não tinha nada que nos representasse. Minha ideia principal era criar uma marca para relacionar todas essas bandas”, nos contou o músico. O que começou com artistas locais (grande parte amigos de Lê) cresceu e hoje o selo conta com bandas e músicos do Sul, Sudeste e Nordeste.

Mesmo caseiras, as gravações (que acontecem no estúdio/quarto de Lê – ou, como ele prefere chamar, o Interstellar Lo-Fi) mostram o som cru e inventivo de cada uma das bandas que passa por ali. As capas também ficam por sua conta, já que, além de músico/produtor, ele é artista plástico nas horas vagas. Todas elas são feitas com técnicas de colagem e conseguem passar essa estética Lo-Fi e muitas vezes psicodélica dos álbuns.

O empreendedor musical diz que mais importante que a qualidade nas gravações é a qualidade musical das bandas, portanto podemos notar algumas falhas e ruídos nas faixas que não seriam comuns em um estúdio ou em alguma produção maior, mas de forma alguma isso compromete o resultado Lo-Fi – a marca registrada do selo.

Grande parte das bandas que assinam pela Transfusão tem uma sonoridade que passeia entre o Garage Rock, o Kraut Rock, um pouco de psicodelia dos 60 e, é claro, o Noise, e grande parte das inspirações de Lê e sua turma vem de bandas do fim dos 80 e principalmente dos 90, como Sonic Youth ,My Bloody Valentine e o garageiro Robert Polard e seu Guided By Voices.

O Looking of Jenny parece mais uma banda saída dos anos 90, com uma sonoridade que parece ter saído de um encontro de Dinosaur Jr com Sonic Youth. Suas melodias bem trabalhadas tem com ingrediente principal a distorção, e geraram esse novo EP que é uma das apostas pessoais do dono do selo.

Flowed é um trio de Maceió que faz um som um pouco mais pesado (e não menos guitarreiro). Com um pouco mais de Grunge no som, a banda pode ser descrita se assemelha a uma mistura de Nirvana com Stephen Malkmus (do Pavement) – ou seja, só dá anos 90 nessa banda também.

Mais um trio, dessa vez lá do Sul do país: Badhoneys tem com destaque a voz marcante de Giana Cognato. Aquele som mais sujinho, é lógico, você encontra por aqui, porém mais melódico do que os outros encontrados no selo. Nessa banda a referência à Guided By Voices parece não ser tão forte.

Esse é um pouco do trabalho solo do criador do selo. Lê Almeida já tem seis discos (entre EPs e compilações) e muito do que se vê no restante dos artistas do selo pode-se encontrar aqui também, mas com um toque especial de psicodelia.

Wallace Costa é o artista que mais destoa do restante, fazendo um som experimental com grandes doses de Folk e até um pouco de MPB – mas, fiquem calmos, a vibe Lo-Fi também está presente em seu trabalho. Nós já resenhamos Possible Death, o ultimo EP dele.

O nascimento do selo pode ter sido no underground carioca, mas sua relevância tem atingido boa parte do território brasileiro. Nossa aposta é que a Transfusão Noise Records nos ajudará a conhecer ainda muitos bons músicos do Lo-Fi tupiniquim.

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts