Urbanidade: Espaço para a Música – Porto

Cidade mais importante do norte de Portugal tem cena agitada e cheia de eventos

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A cidade é uma das grandes invenções da humanidade. Pode parecer estranho falar isso, justo porque elas parecem existir desde sempre, mas o que entendemos hoje por “cidade” nasceu a partir do século 19, mais precisamente, após as revoluções Industrial e Francesa e a consequente confirmação do capitalismo como regime econômico. Tudo cresceu, pessoas vieram, pessoas se foram, empresas e fábricas iniciaram atividades, o que demandou transportes e serviços para viabilizar tudo. As populações aumentaram exponencialmente, onde antes havia desocupados agora havia uma invenção também típica destes tempos: a classe trabalhadora. Tudo isso e outros fatores peculiares fizeram da urbanidade o habitat natural dos contingentes humanos e esse contato novo, essa aproximação de gente diferente e a inserção dela em uma realidade cotidiana unificada afetou a produção da cultura das sociedades. Esta pequena série de artigos visa mapear o que algumas cidades têm de interessante a oferecer em termos de produção musical. Falaremos de passado e presente, quando der, de futuro, mas garantimos que você vai gostar.

Antes do texto propriamente dito, aqui vai um tostão de experiência pessoal sobre a cidade do Porto. Esta é, simplesmente, uma das cidades mais lindas do mundo. A sensação que temos ao andar pelas ruas é que estamos em algum lugar do século 18, com casas e construções em perfeito estado de conservação, iguais às que vemos em pinturas deste período. Também sentimos conforto, não só pelo idioma mas pela semelhança destas ruas e casas com o que temos nos centros de cidades como Recife ou Olinda. É tudo muito parecido, mas Porto dá a impressão de ser uma espécie de museu a céu aberto. Se você tiver chance de visitar lugares fora do país, considere seriamente conhecer Portugal. Não há como não se apaixonar pelo país. Digressão encerrada, vamos ao que interessa.

Porto fica no noroeste do país, às margens do Rio D’Ouro, um lugar belíssimo, integrando uma região cheia de vinícolas, nas quais se cultiva a uva que dá forma ao famoso vinho que leva o nome da cidade, Porto leva a fama de produtora, quando, na verdade, estoca a produção de cidades próximas, como Gaia. É pouco provável, à primeira vista, que haja algo minimamente moderno numa paisagem tão bucólica, mas é engano nosso. Se os romanos a chamavam de Portus Cale (que daria o nome ao próprio país séculos depois), em 868, após longo tempo sob domínio dos mouros, a cidade voltou para as mãos de seus habitantes, tornando-se um polo comercial decisivo para o país tornar-se a potência marítima que descobriria territórios tão distantes no mundo. Sabemos bem que Portugal não é dos lugares com maior tradição na música Pop, mas desconhecemos totalmente que lá, apesar de tudo, floresceu uma cena importante e decisiva para o que Porto tem hoje, séries de bandas, artistas, casas noturnas, festas e uma vida noturna agitada. Tradição e ultramodernidade andam juntas por lá.

A exemplo do Brasil, Portugal também teve um período de endurecimento democrático chamado Estado Novo. Enquanto o nosso durou de 1930 a 1945, o deles se arrastou por 43 anos, indo de 1932 a 1974, com a Revolução dos Cravos, que desmantelou o regime de Antônio Salazar. Foi neste espaço de tempo, mais precisamente a partir dos anos 1950, sob a lógica que estabelece a existência de uma música popular, calcada em ritmos negros americanos e guitarras, que vai chegar aos mais distantes rincões do planeta, Portugal incluído. Se este ritmo significava liberdade e expressão dos desejos por parte dos jovens, dá pra imaginar o tanto de censura e restrições à liberdade que os pioneiros roqueiros portugueses enfrentaram ao longo dos anos. A forma do governo encarar aquelas novas músicas era pensado que a juventude podia ser alegre, mas não podia ser “irreverente”. Aliás, é do Porto o primeiro registro de uma banda se formando no país, mais precisamente, a Walter Behrend E Seu Conjunto, composta de estudantes. Em 1955 eles já tocavam canções instrumentais com inspiração nas novíssimas sonoridades americanas. Ao longo dos anos 1960, artistas e bandas de curtíssima duração vêm e vão, entre eles Zeca do Rock, Gatos Negros e Joaquim Costa, geralmente fazendo versões em portguês de canções inglesas e americanas, mas, em 1967, surge na cidade a Pop Five Music Incorporated, banda disposta a mapear as influências beatle e de outras bandas da chamava Invasão Inglesa. Até então, a cena jovem portuguesa seguia moldes semelhantes às de Espánha, França e Itália, todas unidas em torno das versões em idiomas locais, sob o nome de Yé Yé, em homenagem ao refrão de She Loves You, canção beatle de 1963. A Pop Five chegou a participar do mitológico Festival de Vilar dos Mouros, em 1971, ao lado de bandas locais e convidados como Elton John e Manfred Mann.

Os anos 1970 foram duríssimos para Portugal. O endurecimento ainda maior da censura, a fracassada guerra colonial, travada na África pela manutenção do domínio sobre Angola, Moçambique e Guiné Bissau, que levou a economia ao caos absoluto foram fatores que causaram morte e desespero entre os portugueses. As bandas de Rock foram afetadas, sem chance de expressão por conta da censura e sem condições de gravar por causa da recessão, a década que mais trouxe informações para a cultura Pop quase passou em branco pelo país, que teve algumas bandas progressivas resistindo ao período de convulsão. A situação voltou a melhorar a partir do fim da década, quando o movimento Punk londrino atingiu a combalida cena lusitana. Logo várias bandas se formaram, tendo o estilo e suas guitarras altíssimas como sua principal referência. A cena do Porto logo viu nascer em 1980 uma das grandes bandas do país, a GNR, que poderia se chamar Grupo Novo Rock ou Guarda Nacional Republicana, a PM do país. Claro que isso trouxe uma série de problemas para o grupo, que levou adianta a polêmica da coincidência das siglas até fins dos anos 2000, quando tocou ao vivo com a banda sinfônica da instituição militar, desfazendo o mal entendido. Fizeram sucesso logo na estreia, com o single Portugal Na CEE e o álbum de 1986, Psicopátria, que chegou a ser lançando no Brasil. O grupo Jafumenga também teve importância nesse momento de transição, mesclando canções em inglês ao Rock lusitano. Outras formações importantes e de têmpera Punk surgiria pouco depois, a Câes Vadios, que tinha Moral Dos Idiotas como primeiro nome, logo descartado, a Trabalhadores do Comércio e a Táxi.

A década de 1990 vê a consolidação de algumas bandas oitentistas, sobretudo a GNR, que se tornou a mais importante formação portuguesa. Surge Ornatos Violeta, liderada pelo plural Manel Cruz, que também teve sucesso com outros projetos subsequentes, a saber Pluto e Supernada. Na área do Jazz e misturas diversas, Pedro Abrunhosa, formado no Conservatório de Música do Porto, tem projeção internacional e grava, em 1994, o sensacional álbum Viagens, considerado pela crítica musical local como o melhor álbum dos anos 1990 gravado no país. Também é notável a invasão da música brasileira na cidade (e no país), que começa a ocorrer justo na virada dos anos 1990, quando a cantora Fafá de Belém começa a fazer viagens frequentes. Logo em seguida, o sucesso da baiana Daniela Mercury abrem espaço para a chegada de artistas de Axé Music e outros ritmos carnvalescos pré-fabricados, dando início a um período de massificação desses ritmos visando as classes mais humildes da população. Artistas portugueses popularescos também surgem com força e engrossam esse contingente.

Com o novo milênio, a música do Porto seguiu em atualização constante, sobretudo na maneira como é divulgada, com artistas entrando na área da Intenet e do mp3. A popularização da Grande Rede trouxe um ambiente muito favorável para um país pequeno como Portugal integrar suas cenas musicais, sendo Lisboa e Porto detentoras das mais importantes concentrações de Logo vieram novos artistas, com destaque para a banda Os Azeitonas. Com o empobrecimento da região ao longo dos anos 1990, os preços dos imóveis baixaram e várias bandas conseguem alugar pequenos espaços e criar estúdios de gravação. Bom exemplo dessa iniciativa é o Centro Comercial Stop, uma verdadeira comunidade de músicos, outra é o Edifício Axa, cujos sete andares outrora abandonados foram transformados em espaços de criação coletiva, com exposições diversas. Além disso, festivais sustentam a cena local e a divulgam, como o Marés Vivas (em Gaia, próximo ao Porto) e o Milhões de Festa.

Eventos menores também têm lugar, como o Salgado Faz Anos, que começou como uma festa de aniversário de um músico, que convidou seus colegas para animar o evento na casa noturna Maus Hábitos. Desde então, a data é comemorada todos os anos com mais e mais bandas e artistas locais se apresentando. Há também um correspondente às viradas culturais de cidades como São Paulo e Rio, a Nós Em D’Bandada, que reune várias atrações das ruas da Baixa, um dos bairros mais importantes da cidade, revitalizado por conta do turismo recente, trazendo desde bandas de Rock a rodas de Samba. A cidade também tem selos, entre eles o Favela Music e o Meifumado, este último de propriedade dos Irmãos Pimenta, que lançam suas próprias músicas e abrem espaço para outros artistas. O projeto dB + PZ (com PZ Pimenta) lançou recentemente a inusitada canção Cara de Chewbacca, um Rap bem produzido, contando as agruras de viver com uma “gaja fixe”, mas que não é lá tão favorecida esteticamente pela natureza.

Porto vai bem, obrigado, em termos de produção cultural. Tudo novo, interessante, instigante e levado à frente por jovens da região, numa tentativa permanente de espantar o atraso e o medo de avançar, algo que teima em surgir por lá (e por aqui) de vez em quando.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.