Voiski e suas coletâneas

Faixas esquecidas de discos passados até folhas de plantas viram passatempo do produtor em viagens pelo mundo

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Fotos: IIvi Maiga Bugrimenko

Aeroportos são locais de passagem, onde as esperas perigam ser tediosas. Mas na visão do produtor Voiski, aeroportos se transformam em fonte prolífica de criação. E foi entre escalas e aterrissagens que ele conseguiu, finalmente, trocar uma ideia com o Monkeybuzz. Pela segunda vez no Brasil, Voiski é uma das atrações do aniversário de seis anos da Mamba Negra, que rola amanhã em São Paulo.

O multifacetado produtor é só elogios para a volta à São Paulo, onde também ministrou um workshop de produção musical junto do Zopelar na Rádio Vírussss. Confira a entrevista exclusiva.

“Eu fui convidado para tocar na Mamba Negra em dezembro de 2017, foi uma experiência incrível. A festa estava em um nível que nunca imaginei. Foi violento e terno. Escuro e sensual. Todos pareciam realmente livres e felizes naquele momento. E os artistas que eu ouvia eram incríveis.Para este retorno, eu decidi ajustar um pouco o meu estilo e deixar-me levar por esta loucura, tocando um conjunto totalmente improvisado baseado num sintetizador rítmico chamado Jomox Alpha Base. Será um live muito físico e muito percussivo”

Monkeybuzz: Você compôs “Disconnections, Music for Clouds” entre viagens e escalas em aeroportos. Como você gasta o tempo esperando por vôos? É verdade que você cataloga folhas de plantas?

Voiski: Sim, é verdade! Durante as turnê eu perco muito tempo esperando algo no hotel, aeroporto, táxi ou até no avião. Durante alguns anos, iniciei uma série de ações para usar esse tempo para fins criativos. Uma dessas é coletar folhas de plantas que crescem em terminais de aeroportos sob iluminação artificial e 21 graus de temperatura permanente. Eu pego amostras, depois vou para casa, seco-as e coloco-as num fichário grande. Eu também pego as folhas das plantas de plástico, que representam pelo menos 60% das plantas que eu poderia encontrar nos aeroportos internacionais nos dias de hoje.

MB: Você teve uma pausa de lançamentos até chegar no “Disconnetions, Music for Clouds”. No entanto, você é um produtor prolífico, com trabalhos em vários selos. O que rolou na sua vida durante esse tempo que se refletiu na criação do álbum?

Voiski: A criação de um álbum requer muita atenção e uma certa constância numa série. Que nem sempre é o meu caso. Eu realmente gosto de experimentar e testar configurações diferentes, instrumentos diferentes… Acho que, às vezes, tenho dificuldade em me concentrar em um estilo de produção ou método de trabalho. Também porque eu estou sempre em movimento. Muitas vezes, eu preciso desconectar minhas máquinas para carregá-las ao vivo. Eu finalmente “montei” este álbum quando percebi que tinha todas as peças que compus em aviões para passar o tempo. Eu encontrei uma série de peças compostas nas mesmas condições de trabalho, com as mesmas ferramentas e no mesmo estado de espírito.

MB: Conforme já falamos, você tem produções em muitos selos. De que forma você seleciona os lançamentos? Os convites são oferecidos pelos selos ou você escolhe? Conte um pouco sobre como esse processo se desenrola?

Voiski: Em geral, eu só trabalho com amigos ou pessoas que conheço bem. O Ron Morelli, diretor do LIES, já me disse um dia “você não deixa seus filhos dormirem com estranhos não?! Eu achei muito engraçado e verdadeiro.
Quanto à escolha do material, eu tenho dificuldade em selecionar minhas músicas. Mas como só trabalho com amigos, eu envio 15 faixas e deixo que eles escolham o que preferem.

MB: O que você faz com as faixas que não são lançadas? Você pensa em fazer algo no futuro com este material?

Voiski: Eu os mantenho por um tempo em uma pasta no meu disco rígido. Muitas vezes, eu os interpreto nos DJ sets. Ou eu as reúno e publico, como fiz recentemente com a compilação/álbum “Sick Parrots”, que é mais ou menos uma coleção de peças problemáticas que não encontram um lar há anos.

MB: Você e o Crysta Patterson coletam dados na internet e direcionam em um servidor web. Como funciona esse processo criativo?

Voiski: O projeto Kartei é um grupo um conceitual, que começamos em 2007. Quando somos convidados a tocar em algum lugar, nós fazemos algumas pesquisas na internet sobre o local ou a respeito das pessoas que cuidam dele. Nós fazemos o nosso melhor para compor músicas especificamente para cada show. Às vezes, criamos músicas especiais para alguns membros do público que não conhecíamos, mas que tinham acesso ao perfil do Facebook porque não protegem seus dados. Eles foram procurados na lista de pessoas “presentes” no evento. E então, ao vivo, nós cantamos músicas contando suas vidas. Algumas pessoas achavam engraçado e outras muito perturbadoras. No dia seguinte ao concerto, nós subimos os dados coletados em nosso servidor www.kartei.fr

MB: Você já comparou o estado de transe musical com o estado de transe que Ayrton Senna descrevia em relação a dirigir carros de Fórmula 1. Você seguiu a carreira dele? você gosta de competições de carros?

Voiski: Eu sempre fui um fã de corridas! Enquanto eu admirava muito o Senna, eu fiquei especialmente chocado ao assistir a sua morte ao vivo na televisão. Eu tinha nove anos, além do lado traumático, a situação criou um tipo de “link”. Gosto de sua relação quase mística com a profissão que escolheu. Sua experiência extrema de repetição o levou a vislumbrar o mundo metafísico.

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ARTISTA: Voiski
MARCADORES: Eletrônico

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