Ouça: Mild High Club

Banda tem o melhor disco de Rock Psicodélico que você não ouviu em 2015

2,547 total views, no views today

Em um ano repleto de figurões do Rock Psicodélico lançando discos memoráveis, como David Gilmour, Tame Impala, Boogarins, Unknown Mortal Orchestra e Supercordas além de outros seguindo o vácuo com bons discos (GUM, O Nó, BIKE e King Gizzard & The Lizard Wizard), é normal que algumas coisas acabem se perdendo no caminho. Dentro dessa imensidão lisérica de 2015, existe uma banda que estreiou sem tanto alarde e alcance, mas tem facilmente um dos melhores discos do gênero no ano.

Talvez, Timeline não seja objetivamente um disco de Rock Psicodélico semelhante a muitas das bandas citadas acima, mas é inegável que a proposta de Mild High Club é fazer o ouvinte viajar. De uma forma mais calma e largada, obviamente, o grupo liderado por Alexander Brettin tem onze músicas desaceleradas com doses carregadas de influências de The Beatles, Soft Rock e tantas outras coisas. São faixas que fazem pensar que sua gravação nasceu no vinil e que sua transformação digital lhe conferiu um ar nostálgico dos anos 1960.

Essa estética os coloca, na verdade, mais próximos a nomes como UMO, White Fence, Ariel Pink e principalmente Connan Mockasin – artistas que quase sempre transportam o ouvinte para décadas distantes e alegram puristas de um gênero bastante transformado nos últimos anos. Ouvir a sequênia Club Intro/Windowpane pode ser o suficiente para o entendimento do som do quinteto – leve, como indica seu nome, e “chapado”. No entanto, o poder da banda vem de sua capacidade em criar riffs simples e viciantes, tipo de trabalho minucioso e nada usual, que permite que faixas como Note to Self ou Undeniable tenham seus instrumentos cantados como letras.

Essa última, aliás, é uma viagem de ácido nos traz perto da trilha sonora de Laranja Mecânica em sua metade – a progressão de teclas quase erudita tem o mesmo timbre sintético e rústico de Wendy Carlos, principal compositora do filme. Além da sonoridade semelhante, seu acréscimo no meio da música poderia facilmente cair na ironia que permeia a obra clássica de Stanley Kubrick. A coleção de canções irrestivéis segue pela descompromissada faixa título, com uma abertura que nos lembra Heroes de David Bowie e logo se transforma em algo novo. Todas as referências pinceladas ao longo do disco parecem apenas adereços ao esfumaçado e idiossincrático som da banda – como as vozes “pink floydianas” no fim de Club Intro, por exemplo.

A sonoridade alegre, conduzida principalmente pelas teclas, segue nos clipes do grupo encontrados na Internet e tem ainda contornos de um preciso humor (casos comos os vídeos de Undeniable e Windowpane). É curioso perceber que nenhuma das estéticas vistas tanto no disco, em apresentações ao vivo ou nos videoclipes parece forçada, mas sim influências naturais. Alexander, por exemplo, tocou e gravou com nomes como Ariel Pink e Silk Rhodes, o que se materializa a sua maneira no disco – aliás, The Chat tem participação de Pink na única música com uma voz “limpa” no disco.

Assim como muitas pessoas se prendem ao passado para afirmar a sua superiodade, outros incorporam um espiríto perdido e o transformam em algo contemporâneo. Não tem como negar que a existência da banda de Brettin se deve tanto a um passado sonoro, mas também a memética do presente que transforma imagens e conceitos em metonímias: acaba se visualizando a parte como o todo – nesse caso, um bloco de informações e influências que se transforma em um irrestível e nostálgico disco de Rock Psicodélico – leve, sem explosões e somente contemplações. Mild High Club é extremamente lisérgico à sua maneira e não pode ficar de fora de sua lista de músicas do verão – principalmente para aqueles momentos em que não se quer pensar em mais nada além de viajar consigo mesmo.

2,548 total views, 1 views today

MARCADORES: Ouça

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.