Cat Power – Cine Joia, São Paulo

Chan Marshall apresenta intensas odes e demonstra intenso afeto a seu público que ficou dividido em opiniões sobre sua passagem pelo bairro Liberdade

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Nota: 4.0

A fila já era grande desde a abertura da casa e há um bom tempo não via uma situação em que um show solo numa casa de médio para grande porte como Cine Joia passa um momento desses. Marcado para as 22h, o público de Cat Power acabou esperando bem mais do que esperava e pouco antes de começar ensaiou um coro de vaias pela demasiada enrolação.

Às 23h15 a banda de Chan Marshall solava a já imaginada canção de abertura Sea of Love. O cover de Phil Phillips na versão a cantora, que ficou famoso como parte da trilha do filme “indie” Juno, pela suavidade e romantisco da canção, foi quebrado logo no começo do show pela própria: Chan adentrou ao palco mancando, em pose tímida, tossindo muito e mostrando que ainda está em fase de recuperação. Não havia como esconder essa fase da sua vida e ela mesma não parecia fazer questão disto, deixando vazar seu lado mais humano. Quem esperava por músicas seguindo as mesmas linhas sonoras ouvidas em seus álbuns provavelmente se decepcionou com reinterpretações livres de The Greatest, Manhattan e a emotiva Metal Heart, que esticavam seus versos a maneira que mais agradava Chan, parte da plateia ovacionava e a outra fazia cara feia.

Mesmo em hits mais animados como Cherokee e 3,6,9, Marshall deixava transparecer todo seu sentimento através de suas expressões e da maneira que cantava. Uma pausa para Chan trocar sua jaqueta de couro por uma jeans é permeada por uma rápida jam session da banda que parecia entoar todo o caos que a vocalista vem passando desde o final de seu relacionamento, aquecendo o caminho para a densa cover de Angelitos Negros, de Pedro Infante. A faixa foi a carta de total entrega a seu público: Chan estava ali plenamente exposta e rouca pela gripe a plenos pulmões cantando uma densa composição em um papel de anti-diva. Era como se ela revivesse algo muito similiar a energia emplacada em I Put A Spell On You, de Nina Simone.

A partir daí, o público se dividiu em dois: quem acreditou de vez na frágil e despida posição da musicista e quem estava esperando por um show padrão e redondinho, preferiu consultar as novidades em suas redes sociais ou jogar conversa fora. O poder da gata veio em forma de fofura que correspondia agilmente a tchauzinhos, mãos levantadas, beijos e inclusive aproveitava intervá-los de músicas para assinar vinis, CDs, recolher presentes, e cartas, arremessando flores e se preocupando em atender que havia saído da casa no começo da semana apenas para vê-la.

Ruin fechou a apresentação da artista original da Geórgia de uma maneira plenamente oposta ao seu início. A gata mostra as garras através de um visual andrógino e pesado como reação direta ao período difícil que vem passando, mas mostrou em Ruin que seu real poder é driblar as dificuldades através do que a melhor representa: A música.

Imagem: Glauber Oliveira

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ARTISTA: Cat Power
MARCADORES: Show

Autor:

Jornalista por formação, fotógrafo sazonal e aventureiro no design gráfico.