A Califórnia de Anderson .Paak

Uma viagem à beira-mar ao lado do artista que tem seu imaginário intrinsecamente conectado à vida na Costa Oeste

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Fotos: Hollie Fernando, Tyhe Reading

Há tanta delicadeza e poder envolvido nas conexões emocionais que fazemos com as pessoas que conhecemos e os lugares por onde passamos que talvez, no fim das contas, nós sejamos, tão somente, resultado da soma dessas viagens. No Hip Hop, esses entrelaçamentos se manifestam de uma maneira bem particular – prestar homenagem a sua cidade de origem e ser o representante moral desse território é quase uma responsabilidades dos artistas do gênero. O resultado dessa busca por tornar-se uma figura importante para cultura local é que, no impulso de alcançar esse objetivo, as coordenadas geográficas deixam o espaço da materialidade para transformarem-se no imaginário poético desses rappers. É o caso de Dr. Dre em Compton, Notorious B.I.G. e Jay-Z em Brooklyn, Kanye West em Chicago –, a paisagem exterior invade a interior.

O paralelo de Anderson .Paak é a Costa Oeste da Califórnia. Sua topografia sentimental é demarcada pela rodovia Pacific Coast Highway (a.k.a. Highway 1) – trecho costeiro entre as cidades de Dana Point e São Francisco da US 101 –, internacionalmente conhecida por suas curvas perigosas e paisagens cinematográficas. São elas que emprestam à musicalidade de .Paak sua sinuosidade e seu calor ensolarado. O rapper, que nasceu em Oxnard, a 68 quilômetros de Los Angeles, fez da sua discografia um itinerário pessoal dessa viagem.

Literalmente: os nomes dos quatro álbuns lançados até agora foram intitulados pelas cidades litorâneas por onde se passa de carro ao dirigir pela Highway 1 no sentido Norte: de Venice (2014) até Malibu (2016), seguindo até as vizinhas Oxnard (2018) e Ventura (2019). A cada parada, um novo registro musical acontece. Não à toa, são as diferenças entre esses diferentes lugares que evidenciam o nível de compreensão do artista sobre o trabalho envolvido em viver criativamente. .Paak sabe que o caminho que se escolhe percorrer é tão importante quanto a chegada.

Prova disso é que ele está percorrendo esta trilha há duas décadas. Ainda que seu nome – que, na verdade, é Brandon Paak Anderson – só tenha explodido mundo afora em 2015, depois de suas (várias) participações no álbum Compton de Dr. Dre, lançado naquele ano. Tudo começou aos 11 anos, quando aprendeu a tocar bateria na igreja – onde encontrou refúgio durante sua adolescência conturbada (aos 7 anos, seu pai foi preso por agredir sua mãe e, aos 16, viu ela e seu padrasto terem o mesmo destino, mas por sonegação de impostos). Na época do colegial, .Paak descobriu o talento para rima e passou a produzir duas próprios demos com o seu primeiro pseudônimo: Breezy – um apelido de infância.

Em 2007, com 21 anos, foi tentar a sorte em Los Angeles – agora, já era Breezy Lovejoy – tocando bateria para outras pessoas e trabalhando em suas músicas autorais paralelamente. O que ele não esperava era não ser o único talento aspirante a confabular este plano: a competição na cidade o surpreendeu. Mesmo assim, arranjou uns bicos musicais aqui e ali, montou uma banda de Soul que não deu muito certo e transformou-se (sim, mais uma vez) em DJ Styles para conseguir se manter. Durante um desses trabalhos, surgiu uma oportunidade maluca. Seu amigo, José Rios – atual guitarrista de The Free Nationals, banda que acompanha .Paak desde o primeiro EP – descolou uma vaga para ele e para o rapper como jardineiros em uma plantação de maconha em Santa Bárbara, no noroeste de L.A.. O salário alto e o acesso livre à erva (obviamente) convenceram os dois e a esposa de .Paak a mudarem-se para lá e viver “muitíssimo bem, obrigado” por um tempo.

Do mesmo jeito – rápido – que o dinheiro chegava, ele também ia embora. .Paak não guardou nada e quando a operação ilegal murchou, ele se viu de volta à estaca zero: sem grana e sem ter onde morar (e ainda descobriu que, em breve, seria pai). Talvez, o correto fosse, então, procurar um emprego convencional para pagar as contas e criar o filho com tranquilidade. No entanto, curiosamente, foi exatamente a ideia de ter uma criança que estimulou o artista a apostar todas as suas fichas no mercado musical. O que mudou dessa vez foi que, ao invés de contar com a sorte, .Paak passou trabalhar duro e dedicar a sua vida à criatividade.

Assim, o casal volta para Los Angeles e, por lá, tiveram que morar de favor por alguns meses, revezando entre os sofás das casas de diferentes amigos benevolentes. As coisas só começam a melhorar a partir de 2012, quando .Paak, finalmente, conseguiu atingir o objetivo a que se tinha proposto quando chegou na cidade pela primeira vez: virou baterista de uma banda e, paralelamente, soltou dois projetos pessoais e ainda saiu em tour. Quando voltou, já sabia que precisava dar um passo maior. Eis que, no ano seguinte, Breezy Lovejoy ficou no passado para que, enfim, surgisse Anderson .Paak.

28 de agosto de 2014

Venice

Depois de tudo isso, já sabemos que o mar e a vida litorânea estão no cerne da músculo criativo de .Paak. Mas, se você ainda precisa de qualquer prova, dê play na faixa que abre Venice. “Waves” é uma introdução de 30 segundos que se resume em barulho de ondas, conversas e risadas. De repente, estamos juntos com o artista, sob um sol de 33ºC, passeando pelo icônico calçadão da praia de Venice – uma espécie de versão on acid do calçadão Ipanema.

O bairro mais excêntrico, boêmio e culturalmente fervilhante (e diversificado) de Los Angeles é conhecido por ser o lar dos hippies, do skateboarding, e por ser acolhedor com qualquer pessoa que pretenda se aventurar por suas ruas. Essa concentração única de diferentes tipos de personalidades transparece, evidentemente, em Venice – o mais Pop de todos os registros do artista. Quando comparado ao resto, dá para perceber que ele ainda estava descobrindo a melhor maneira de convergir esse caldeirão de referências de uma maneira coesa. O resultado, de fato, é bem Venice Beach: arejado, divertido, dançante, com espaço de sobra para acomodar beats eletrônicos e sintetizadores –, mas, ainda deixa a sensação de que estamos na ponta do iceberg do potencial de .Paak.

Isso porque, de modo geral, Venice chega aos ouvidos com o deslumbramento do rapper frente ao bairro: com tanta coisa para ver e fazer, difícil se aprofundar em alguma delas. Assim, a superficialidade dos assuntos abordados por ele, neste disco, destoa dos demais. Em contraponto, é o álbum com mais acenos carinhosos para o lugar que lhe empresta o nome. Em algumas circunstâncias, inclusive, literais: caso de “The City” e “Dogtown”. Na segunda, ele diz que “Venice é uma das vitrines da boa e velha liberdade de expressão norte-americana. Aqui, você faz o que quer e o mundo apenas observa”. E mais, em suas 16 faixas, 7 fazem menção à maconha, erva com a qual o bairro tem floreada história: o uso medicinal é permitido desde 1996 e o recreativo desde 2016 – os “consultórios” para pagar por suas prescrição médica são tão comuns quanto qualquer outra lojinha de souvenirs no calçadão.

Não é por acaso que essa viagem começa em Los Angeles: aqui está a cidade onde os “sonhos americanos” se tornam realidade. Mas, são as orlas de Venice, e não o delírio de Hollywood, que demarcam o território criativo de .Paak nesse primeiro momento.

Um pit-stop: Dr. Dre – Compton (2015)

Se a vida é “a arte dos encontros”, este aqui é a obra-prima do cantor. Seis meses depois do lançamento de Venice – que não estourou, mas fez certo barulho entre os críticos –, ele e seu amigo, o produtor Knxledge, se uniram sob mais um pseudônimo: NxWorries. Juntos, lançaram um EP com algumas inéditas no SoundCloud. Uma delas, “Suede”, teve mais de 1 milhão de visualizações, tanto no SC quanto no Youtube. E dentre todos estes plays, um deles rendeu a oportunidade que mudaria por definitivo o destino de .Paak: uma reunião com Dr. Dre.

Na época, o gigante do Hip Hop e empresário de sucesso estava gravando Compton, seu primeiro disco em 16 anos.

A tracklist é um espelho da ótima relação que os dois construíram nessas sessões: .Paak está em 6 das 16 músicas do LP. Ali, ele teve a oportunidade de fazer feats com Eminem, Kendrick Lamar, Ice Cube… Mas, o destaque fica para “Animals”, em que Dre rima ao lado do rapper – sobre o beat incrível do DJ Premier – por ter gostado tanto dos versos compostos por ele. Ou seja, em uma tacada só, .Paak conquistou o selo de aprovação dos dois maiores produtores da história do Hip Hop. E, isso significa também ganhar a atenção do resto da cena. É com essa perspectiva que ele continua subindo a Costa Oeste. Sua estrada continuou a mesma, mas o upgrade era que, a partir de agora, o cantor tinha a certeza de que, ao chegar lá, os portões estariam abertos para ele.

15 de janeiro de 2016

Malibu

Sempre tem um álbum na discografia de qualquer artista que faz o ouvinte pensar: “Oh, aí está você!”. Não precisa, necessariamente, ser o melhor ou o mais elaborado, mas, sem dúvida, é o que registra pela primeira vez até onde seu potencial pode chegar quando bem explorado. Malibu é esse disco para .Paak (e para mim) – a afinação precisa entre seu talento, ambições artísticas e todas as influências que foi adquirindo ao longo de sua viagem à beira-mar.

Malibu é a cidade para onde o quem conseguiu realizar o sonho americano vai depois de Los Angeles: é a próxima fase do jogo. Ao contrário de Venice, o som das ondas destas praias não é para qualquer um – e, com este álbum, .Paak confirma seu lugar sob o Sol que bate nestas areias. O disco funciona como um testamento do que ele, enquanto artista, é capaz quando anos de trabalho árduo encontram uma oportunidade única (leia-se, Dr Dre).

É óbvio que ter o lendário produtor no banco do passageiro é vantajoso, mas isso não se sustentaria se .Paak não tivesse o talento para se bancar. Neste registro, sua influência fica subentendida: não há nenhuma produção de Dre, por exemplo. No entanto, estão aqui muitos dos artistas que o cantor conheceu durante as gravações de Compton, como DJ Khalil, Dem Jointz e Hi-tek. Isso sem falar das duas faixas assinadas por 9th Wonder (“The Season/Carry Me” e “Without You”). O combo mais brilhante, contudo, fica para as colaborações com Madlib – que, além de ser o artista mais consagrado a participar do álbum, é nativo de Oxnard e conterrâneo de .Paak – em “The Waters”.

Se Venice peca por sua superficialidade, em Malibu o mergulho vai fundo. O vício da mãe em jogos e a prisão do pai estão em “The Bird”); o período que precisou morar de favor com o filho recém-nascido é relembrado em “The Season/Carry Me”; os esforços até o sucesso e a impaciência até ele são exemplificados em “The Waters”) – está tudo aqui.

Outro aspecto do catálogo do californiano que teve um refinamento especial neste disco são as chamadas “love songs”. .Paak é bom de rima e de contar histórias, mas ele é ainda melhor quando está a fim de falar de amor e safadeza. Os pontos altos de Malibu estão em seus causos amorosos, sinuosamente narrados em cima de sua mistura muito particular de G-funk, Soul e R&B. Canções como “Heart Don’t Stand a Chance” e “Room in Here” resumem bem esta vertente de seu trabalho.

As referências mais explícitas à Malibu, entretanto, ficam por conta das skits, todas elas relacionadas ao surf – que surgiu no Havaí, mas tem seu epicentro cultural nesta praia californiana. Dentre elas, há mais de um trecho do filme Big Wednesday (1978), longa-metragem que conta a história de três amigos surfistas que são convocados para o Vietnã e só conseguem se reencontrar e voltar para as ondas anos depois.

De modo geral, é aqui que .Paak colhe os frutos por não ter desistido da música. Ele assumiu esse compromisso quando deixou o “Breezy Lovejoy” de lado e Malibu serve para renovar os votos. Não à toa, o disco troca lhe rendeu uma indicação ao Grammy na categoria “Melhor Álbum Urbano Contemporâneo”. E, duas semanas após o lançamento de Malibu, ele assinou contrato com a Aftermath, gravadora de Dr. Dre.

O bom filho à casa torna

Oxnard e Ventura

Curioso pensar que os últimos destinos desta viagem do artista sejam, na verdade, um retorno para onde tudo começou. Em Oxnard e Ventura, .Paak celebra o início de sua jornada: ele nasceu em Oxnard, ficou 9 anos por lá para depois mudar-se para a cidade vizinha, Ventura. Ali, ele aprendeu a tocar bateria, se descobriu rapper e alimentou, é claro, o desejo de viver de sua música. Depois o sonho ter vingado, é para lá que ele recai seus olhar.

Se em Malibu é preciso ler nas entrelinhas para encontrar a influência de Dr. Dre, Oxnard e Ventura são o completo oposto: ele assina como produtor executivo de ambos os discos. O plano inicial era lançar apenas um, mas os dois tinham tanto material que, durante as gravações, .Paak decidiu se aventurar em um segundo registro – algo que ele pudesse mexer sem se preocupar com o perfeccionismo de Dre.

De toda a discografia, Oxnard e Ventura são os dois exemplos mais contundentes de como os cidades que o criaram têm influência em sua sonoridade atual. Em uma publicação em seu Instagram, ele disse: “Crescer em Oxnard me deu a malandragem e a igreja de lá foi onde encontrei minha voz. Uma cidade “para frente” que me fez descobrir ainda mais sobre minha profundidade”. Desde o começo, a intenção era de que fossem dois LPs muito diferentes. Cada um em homenagem a uma das bases se sua musicalidade: o Hip Hop e o Soul.

Deu certo. Oxnard, por exemplo, pisa fundo no G-funk e coloca .Paak para rimar com muito mais frequência do que em Venice ou Malibu. A produção de Dr. Dre é impecável e implacável e, por isso, as participações são de virar a cabeça de qualquer amante de Rap: Snoop Dogg, Kendrick Lamar, Pusha T, J. Cole, o próprio Dre. Mas, a jóia do disco é “Cheers”, com o veterano Q-Tip: uma faixa extremamente emocional onde eles versam sobre a perda de dois grandes amigos e rappers (Mac Miller, em 2018, e Phife Dawg, em 2016). Oxnard também apresenta as primeiras letras explicitamente políticas do rapper – em “6 Summers”, ele fala do presidente Donald Trump e do controle de armas –, uma faceta do gênero que ele ainda não havia explorado.

Ventura, por sua vez, não poupa esforços para ser igualmente extravagante em sua suavidade e gingado – ter o rei da Motown, Smokey Robinson, na sua tracklist já diz muito sobre o mood do álbum. Em entrevista ao Spotify, ele afirmou que o objetivo era fazer algo “adocicado, bonito e descontraído”. Foi .Paak quem produziu a maioria das faixas e deixou sua veia R&B correr solta. O disco é recheado com as “love songs” que ele faz tão bem, sem perder a crueza característica do som da Costa Oeste. E se ainda sobrava alguma dúvida sobre o artista ser o xodó de Dr. Dre, a última faixa do disco faz um mimo: uma participação do finado Nate Dogg, parceiro e amigo de Dre. Ambos os álbuns são projetos pós-fama, pós-Grammy, pós-Aftermath. A temática mudou agora que ele tem a grana e o reconhecimento, mas a luta continua a mesma: se manter na estrada e verdadeiro a si mesmo.

Geograficamente, a próxima parada da subida pelo litoral da Costa Oeste é Santa Bárbara. É lá que ficava a plantação de maconha que .Paak trabalhou antes de Venice – será que vem um álbum de Reggae por aí? Além disso, Santa Bárbara é a Malibu do anos 2000: os mais famosos de lá precisaram buscar outro refúgio quando os menos famosos passaram a frequentá-la também. A escolhida, no caso, foi a “Riviera Americana”, principalmente a região de Montecito. O que Anderson .Paak provou até aqui é que os futuros trampos – assim como os já existentes – serão feitos por alguém que se realiza em seu compromisso de viver criativamente: seja onde estiver, a maresia dessas praias (assim esperamos) o acompanhará.

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