Allure Dayo: The Fresh Prince Of Santos

GTA San Andreas, Chorão, Um Maluco no Pedaço, carros da “galera de odonto” e Kendrick Lamar fazem parte do imprevisível caldeirão de influências do primeiro disco do rapper santista

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Fotos: Piccirillo Duarte

Allure Dayo é um contador de histórias. Como todo bom contador de histórias, é também um nerd (no sentido otimizado e moderno da expressão), ou seja, se aprofunda de maneira dedicada em tudo que é apaixonado. O coração do garoto é grande e nele cabem com conforto os videogames, as HB20 Kids, o Hip Hop – and it don’t stop – e, claro, a família e o sobrinho Yung Arthur. “Tema de Ano Novo”, a faixa de abertura de 2000S: Um álbum de Allure Dayo (2021), começa alertando o ouvinte de que “qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”, seguida de um papo em tom de ligação de telefone entre Allure e o sobrinho: “[…] tio passou aqui só para te desejar muita luz, muita paz, muita energia positiva. Vim aproveitar para te contar uma história. Quer saber como foi meu dia?”

De maneira semelhante a Depois de Horas (1985), de Martin Scorsese, toda a trama fictícia do disco de Dayo se passa no período de um dia e se desdobra nas mais curiosas, divertidas ou agridoces situações – já que Allure transforma em aprendizado e crescimento até mesmo a mais cruel das dores, que se encontra no final da audição. Para nos preparar para o impacto (e nós vamos chegar lá), o rapper dá a mão para o ouvinte e apresenta um pouco da própria personalidade, enquanto narra as histórias de cada música.

Nascido e criado em Santos, o MC de 23 anos sempre se sentiu muito deslocado dos âmbitos naturais dos outros meninos da sua idade. Sem vontade de frequentar a escola por conta de bullying, ele encontrou na música e na família seus refúgios. Com o tempo, fez novos amigos e as coisas mudaram, mas destaca a importância desse período mais solitário. Entre animes e as missões de GTA San Andreas (2005), o quarto do artista foi como a Sala do Tempo, de Dragon Ball, dando espaço para ele se entender como pessoa e se aprimorar artisticamente com extensas noites viradas estudando muita música.

Com cerca de 10 anos de idade, ele assistiu o filme Fique Rico ou Morra Tentando (2005) e foi paixão à primeira vista. Dayo conta que nessa época já era maluco pela cultura Hip Hop e escrevia som em beats gringos, mas o filme baseado na história de 50 Cent foi um novo estalo na mente do rapaz. Em uma das cenas finais, o rapper grava um som dentro de casa, o que trouxe novas perspectivas ao jovem Dayo – à época, ainda preso à ideia de que uma música só poderia ser produzida em um grande estúdio profissional. Allure Dayo fez as batidas, mixou e masterizou todas as faixas do seu disco de estreia. “A primeira vez que gravei uma ‘demo’ de um som meu foi no banheiro do meu pai. Ele comprou uns equipamentos, morava numa kitnet e o único lugar que tinha silêncio era no banheiro. Uma pessoa poder finalizar um disco em casa e cada vez mais evoluir, é uma liberdade muito boa”.

Amante do “early Kanye” e do disco Graduation (2007), seu favorito do artista, a referência aos anos 2000 no título não é por acaso. O rapper quis trazer a sensação do período na musicalidade e, para isso, buscou em outros heróis do Rap da primeira década do século XXI suas principais referências sonoras. Algo que definitivamente chama atenção no trabalho de Dayo é o gosto apurado e o zelo estético, frutos diretos dessa extensa e dedicada pesquisa. Tudo parece estar no seu devido lugar: não há trocadilhos forçados, muito menos timbres que parecem pertencer a outras músicas ou referências sem propósito. “Um amigo meu que fala que a gente tem que tomar cuidado pra música não virar só o artifício”, ele pontua. Essa perceptível dedicação aos detalhes se revela durante toda conversa, seja ao comentar a necessidade de formatação para que uma história se torne interessante de ser contada ou quando afirma as diversas versões que faz de uma música – até que finalmente se sinta satisfeito.

Quando você está contando uma história, você tem que formatar de um jeito que faça sentido e que mantenha o ouvinte interessado e curioso”

Dayo, você tem 23 anos, então seus anos 2000 foram infância e começo da adolescência. Como foi?

Foi muito show! Sinto muita falta às vezes. Brinquei muito, gostava muito de coisas lúdicas, viajar, criar histórias. Assisti muito desenho, anime, joguei muito videogame. Tive Playstation 1 (PS1), Playstation 2, Playstation Portátil (PSP). Hoje tenho um Playstation 4, jogo sempre que dá. Cresci em Santos, uma cidade bem diferente.

E no auge do Charlie Brown Junior!

Crescer em Santos no auge do CBJR é como se o Chorão fosse o Homem-Aranha da cidade. Era um herói para todos nós. Se você vier em Santos, é meio que meme: você pode sair na rua e ver uma senhora de idade que sabe mandar um kickflip no skate! Não é sacanagem. Santos é nesse nível, o cara foi muito foda, você vê ele em toda a cidade, nos grafites, homenagens. Uma coisa que me deixa muito triste é não ter o conhecido pessoalmente, eu era muito novo então nunca fui em um show. Já lembrei de outra coisa que foi muito importante pra mim: a MTV dos anos 2000. Minha irmã mais velha era adolescente já e assistia MTV 24h por dia, então conheci muita coisa. Tive sensibilidade apurada [para outros gêneros musicais] por causa da MTV.

Além do early Kanye, o que você tava ouvindo e te influenciou na produção do seu disco de estreia?

Muito, muito, muito do Pharrell – ele definiu a sonoridade dessa época, principalmente as paradas que ele fazia pro R&B: Mariah, Usher, escutei muito o Justified (2002), do Timberlake, amo esse disco. Ele tem uma “golden voice” e muito bom gosto para beats. Timbaland, No I.D., a galera que produziu pro Blueprint (2003), do JAY Z. Tentei fazer um blend com coisas que rolam hoje em dia e também Rapzão clássico dos anos 90 pra não ficar de fora, né? J Dilla é um cara que sempre tá na minha playlist e não pode faltar, ele é um mestre. Hoje em dia me inspirei bastante em Kaytranada – “Y&C” foi bem inspirada.

Seu disco é amarrado através de uma história que você conta pro seu sobrinho nas introduções ou saídas das músicas. Como surgiu esse conceito?

Eu comecei a conhecer alguns artistas que faziam isso, não é uma coisa nova, digamos assim, mas que eu percebi que é pouco explorado – no final de toda música ter uma historinha que vai se completando e no final será como um filme. Quando conheci o MF DOOM, que já tinha essa pegada de interpretar personagens, me chamou atenção o Storytelling. Kendrick fez em good kid m.A.A.d city (2012), Tyler em Goblin (2011) e Wolf (2013). Eu já tinha essa vontade, mas demorou um tempo pra eu acertar um formato que ficasse legal. Em 2015 fiz um disco inteiro nessa pegada, era outra história, mas resolvi engavetar porque não tava do jeito que eu queria, mas foi um baita rascunho e experiência.

Quando você está contando uma história, você tem que formatar de um jeito que faça sentido e que mantenha o ouvinte interessado e curioso”, comenta Dayo. Segundo o artista, o núcleo das histórias de seu disco de estreia é verdadeiro, mas temperadas imaginativamente por ele. Às vezes a amálgama de várias situações parecidas ou a fabulação sobre a realidade – e é justamente aí que brilha o talento dele como escritor e até mesmo, como roteirista. “HB20Kids” –  a cena de ação do filme de Allure – surgiu do escárnio de uma situação cotidiana e que poderia ter passado incólume não fosse a imaginação do rapper. Após rolés com um amigo que acabara de comprar um HB20, ele reparou que “o carro era meio que um carro da galera de Odonto”, o que trouxe a ideia da música, uma espécie de paródia desse estereótipo. “Eles são ricos meio alternativos, então eles andam mesmo de HB20, ou seja, o carro é bom porque eu tô dirigindo. Porque eu uso um All-Star e não um tênis mais caro? Porque eu quero um All-Star e posso pagar quantos eu quiser (risos). Na época estava ouvindo “Super Rich Kids”, do Frank Ocean, depois lembrei de “Retrato de um Playboy”, do Gabriel O Pensador. Ouvindo Rap gringo vi que é uma constante os caras darem uma meio de talarico, não sei porque os caras fazem isso (risos). Falei: e se eu pegasse esse bagulho e fizesse uma parada objetificando homem? As bicha mais rica da cidade, roubam o boy da amiga, aí já veio toda a ideia”.

Com perspicácia, muitas situações serviram de inspiração para a composição de Dayo. Em “Y&C”, o rapper cria um personagem através da mistura entre a galera das batalhas de rimas de Santos e “Raphael de la Ghetto”, um poeta falso inventado por Will em Um Maluco no Pedaço, na tentativa de impressionar garotas na aula de poesia. “@Sabrinon”, declaração para a atual namorada do artista, tem nome inspirado pela maneira como Chorão chamava Graziella (Grazon), musa inspiradora de “Proibida para mim”. E quando digo que as ideias de Allure Dayo surgem dos lugares mais inesperados, não é exagero. A inspiração de “Ellura”, uma das músicas mais legais do projeto e com uma vibe meio Common meio Kamau, surgiu de madrugada enquanto comia um pão com hambúrguer e queijo. “Fiquei refletindo como tava gostoso [o sanduíche] mesmo não tendo nada demais. Pensei que eu tinha que fazer uma música nessa pegada: muito simples, mas que fosse muito gostosa, que desse vontade de ouvir várias vezes. O pão é o beat, a carne é o Rap e o queijo é o refrãozinho”.

Ouvindo 2000S: Um Álbum de Allure Dayo pela primeira vez, eu não tinha noção do que me aguardava. Havia uma curiosidade em saber os motivos dos nove minutos na nona e última faixa musical (a décima são os créditos finais), minutagem que destoa da média de 3 a 5 minutos das outras canções do disco. Ao exibir aos poucos seus afetos e tristezas, amores e decepções, determinação e resignação, Allure Dayo cria um forte fator de empatia durante a audição, que prepara o ouvido dedicado para receber o impacto de “Yung Arthur”. A canção que fecha o disco revela que a conversa do rapper com o sobrinho é, na verdade, uma carta póstuma. Além de um verso dedicado à mãe que faleceu em decorrência de um câncer no ano passado, a canção é uma sublime homenagem ao filho da irmã mais velha, que morreu devido a complicações no parto. Há muito tempo eu não chorava ouvindo um Rap.

“Yung Arthur” é a música mais forte do projeto, o disco é amarrado ao redor deste momento. Me conta um pouco mais sobre ele e da sua relação com sua família?

Durante um bom tempo da minha vida eu só tive contato com minha família. Meu pai me mostrou meus primeiros discos e isso já fala muito da relação que eu tenho com ele. A gente cresceu junto ouvindo Rap, trocando essas figurinhas, filmes, livros… Minha mãe era o contraponto, era fã de carteirinha da Banda Djavu, ela tinha todos os DVDs que você pode imaginar. Adorava música romântica brasileira. Minha irmã trazia o Pop Rock e R&B, e eu sempre em um carinho enorme por todas essas pessoas. Minha mãe teve problemas com câncer e acabou falecendo. Na história do álbum, fica como se ela tivesse falecido antes de tudo acontecer, só que na verdade ela faleceu ano passado quando a música já estava praticamente pronta e eu fiz um verso novo só pra ela. Ela ficou internada e eu ficava revezando com minha irmã, reescrevendo Ellura no celular enquanto cuidava dela, mandando pro meu amigo que participou, junto com trabalho, faculdade…

Essa música eu fiz muito pra minha família, meus familiares vão escutar o álbum todo e já começa com “HB20 Kids” um soco na cara num almoço em família, domingão (gargalha). Chega em “Yung Arthur” eles falam: “essa pessoa eu sei quem é, é meu filho, meu irmão, meu neto, é o Vinícios”.

Na música você disse que na situação com seu sobrinho você não se sentiu tão presente quanto deveria. Como foi esse momento?

Foi uma “wake up call” quando minha irmã falou que estava grávida. Eu tava numa vida me queixando muito, tinha acabado de sair do colégio e meus amigos estavam com emprego, já tinham carro e eu tô aqui fazendo rap, procurando emprego em todo lugar e sofrendo racismo nas entrevistas de emprego… Fazendo bico de tudo que eu podia. Eu pensei: “eu já fui muito melhor, hoje eu tô deixando a desejar”, tá na hora de eu melhorar – foi quando minha irmã falou que estava grávida. “Eu vou ser tio?!”. Queria que meu sobrinho tivesse a mesma relação comigo que o Miles Morales tem com o tio dele. Queria ter sido isso pro Yung Arthur. O tio que leva pra fazer graffiti, andar de skate, mostrar um Rap, trocar ideia.

Foi nesse momento que eu tive esse insight e logo depois do chá de bebe ela teve complicações e aí tá ligado… Fiquei meio perdido, porque tava tentando de tudo pra ser um tio bacana pro meu sobrinho. Pensando sobre isso, cheguei na epifania de que essa é a hora certa, de mesmo que você Arthur não esteja aqui, te dar orgulho. Essa é a que tem menos ficção, quis tentar decupar tudo.

Essa música é a sua “Sing About Me”. E apesar de ser uma música em um tom muito pessoal, senti que é uma homenagem ao Hip Hop. Tem uma estrutura de versos parecida com o que JAY Z usa em “You Must Love Me” e em outros sons, a clássica frase “Yes yes y’all, and it don’t stop”.

Teve você e só mais uma pessoa que notou isso: eu escrevi essa letra em cima do beat do Kendrick! Eu preciso me acalmar um pouco (ri relaxadamente), ele é meu rapper favorito de todos os tempos, conseguiu juntar tudo que eu amava em outros rappers em um só. É minha música favorita dele. Não era nem pra sair, era pra ser uma letra só pra revisitar esses sentimentos. Eu tentei manter um pouco dessa vibe para quem conhece, mas trazer uma coisa minha, nova, por exemplo, tem esse solo de guitarra do meu amigo Lucca. Na minha visão quis trazer isso de como seria eu e meu sobrinho tipo “yes yes y’all and it don’t stop”! E esse formato que o JAY Z consagrou eu sou apaixonado.

Já que você disse que precisa se acalmar um pouco, vamos falar de outro assunto que é constante no seu disco: videogames. O que você está jogando agora?

Ratchet and Clank, um remaster de um jogo de PS2 para PS4 com uma dificuldade bem amarga, eu gosto de jogos assim. Tipo Dark Souls, adoro. Gosto muito de GTA San Andreas, foi o jogo mais importante da minha vida. Eu aprendi a falar inglês e conheci o Rap de verdade, Rapzão mesmo. Quando ouvi a Radio Los Santos, conheci Tupac, Dr. Dre, Ice Cube, principalmente a galera de Los Angeles, né?. Zerei milhões de vezes. A atenção que a Rockstar Games tem aos detalhes é algo que eu tento trazer no meu trabalho. Também tô jogando Miles Morales pra PS4, sou muito fã de Homem-Aranha.

Em @Sabrinon você menciona até o Kojima! O que você achou de Death Strading?

A cara do Kojima! Sem nenhuma amarra, do jeito que ele queria fazer. Uma história complexa do jeito que ele gosta. Deixa de ser só entretenimento e se torna uma obra de arte, digamos assim. Metal Gear eu joguei muito. Eu percebi também que jogos de luta são os que sou mais ou menos OK pra jogar competitivamente. Tenho jogado bastante Tekken – nos Estados Unidos e no Japão é bastante jogado, sempre que dá dou uma acompanhada. Joguei muito o Tekken 3 de PS1, o 5 de PS2 e o 6 de PS3. Na verdade, eu tinha XBOX360.

Aquele XBOX360 desbloqueadaço…

Nem fala, nem vou comentar nada… (risos). Cara, é que nem PS2. Você já viu jogo original de PS2? São três coisas que ninguém nunca viu: nota de 3 reais, decisão boa do Bolsonaro e jogo original de Playstation 2.

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ARTISTA: Allure Dayo