As melhores (e mais inimagináveis) aparições musicais da Vila Sésamo

O programa infantil completou 50 anos e carrega consigo um line-up que faz inveja a qualquer um dos maiores festivais do mundo na atualidade

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Fotos: Arte: Solo.etc

2019 marca os 50 anos da primeira vez que Elmo e seus amigos mostraram a Vila Sésamo ao mundo. É incrível pensar como um programa de TV infantil atingiu tamanha longevidade. Para alcançar essa marca, no entanto, eles tiveram que manter-se sempre à frente de seu tempo. A série educativa começou em 1969 e, desde seu primeiro episódio, já estava erguida a bandeira da igualdade social que segue em pé até hoje. Mas, o pulo do gato está para além das esquetes rápidas, dos personagens em fantoches e do cenário urbano em que tudo acontece. É a música que faz toda a diferença.

Em todo episódio, um convidado musical especial visita a Vila para ensinar alguma lição por meio de paródias de suas canções mais famosas ou de faixas totalmente originais. Não é exagero dizer que a Vila Sésamo teve em seu pátio nomes mais renomados do que qualquer festival de música no mundo. Eles variam desde Nina Simone cantando sobre orgulho negro, Patti LaBelle ensinando a atravessar a rua até artistas de música clássica e Jazz como o violoncelista norte-americano, nascido na França, mas de origem chinesa, Yo-Yo Ma. Quem teve a oportunidade de crescer assistindo a Vila Sésamo carrega, portanto, um repertório musical rico, lúdico e de qualidade. Aqui, listamos algumas das aparições mais interessantes do programa.

B.B. King: “A Letra B” (2001)

“Todos saúdam o Rei!”, um Elmo vestido de bobo da corte grita para anunciar um dos artistas mais importantes que a Vila Sésamo recebeu em 50 anos. Que outro programa te dá a chance de ver o B.B. King cantando sobre a letra preferida? Literalmente nenhum. Sentado em seu trono e cercado por uma plateia privilegiadíssima de fantoches, o rei do blues lista todas as coisas que não existiriam sem a letra B – principalmente ele próprio e o blues. “Eu sou um monarca que ama palavras com B / por isso eles me chama de B.B. King / O blues começou com a letra B / e é por isso que essas são as únicas músicas que eu canto”. Essa é uma das várias aparições de B.B. King no programa; ele também já cantou sobre aprender a contar até 10 e sobre as outras letras do alfabeto. Sem B.B. King não teria blues, então obrigada, letra B!

Maya Angelou: “My Name” (1993)

Considerando que a Vila Sésamo foi pensada para crianças em idade pré-escolar (entre 3 e 5 anos) – não é uma suposição ambiciosa dizer que o programa apresentou Maya Angelou para toda uma geração. E que presente inestimável, para qualquer pessoa de qualquer idade, poder estar em contato com a figura da poeta, escritora, ativista dos direitos civis, professora, cantora, bailarina e jornalista norte-americana. Sua participação veio em momento oportuno: em fevereiro de 1993, ela lançou seu primeiro livro infantil, “A Vida Não Me Assusta”, um poema ilustrado pelo pintor nova-iorquino Jean-Michel Basquiat. Nesta primeira aparição, Maya, Elmo e as crianças Maxine e Carlos cantam sobre amar e ter orgulho do próprio nome.

Nina Simone: “Young Gifted and Black” (1972)

Este é o vídeo mais especial dos listados aqui; uma fotografia de uma revolução em andamento. Os anos 1960 marcaram a entrada do ativismo político no trabalho de Nina Simone – especificamente com a canção “Mississipi Goddam”, em 1964, que, pouco mais tarde, se tornaria o hino do Movimento dos Direitos Civis nos EUA. Com o fim das Leis Jim Crow e o direito dos negros ao voto garantido por lei, os anos finais dessa década viram crescer outro movimento: o Black Power. Foi essa celebração e auto afirmação da negritude que Nina Simone quis capturar em “Young, Gifted and Black” (Jovem, talentoso e negro, em português) – o coautor da canção, o poeta Weldon Irvine, contou em entrevistas da época que Nina queria que “criassem algo que faria todas as crianças negras do mundo se sentirem bem consigo mesmas, para sempre”. É por isso que essa apresentação de 1972 atinge uma outra dimensão na compreensão do que é a arte. Vestindo trajes e penteado tipicamente africanos e acompanhada por quatro crianças negras, Nina Simone faz desses 2’45 minutos um registro singular sobre o poder transformador da música tanto na esfera individual da vida de cada um quanto na sociedade.

Herbie Hancock: “Herbie Cria Sons” (1986)

Essa é a apresentação musical mais diferentona da lista – o que combina perfeitamente com o artista. O pianista Herbie Hancock é uma das figuras mais importantes e versáteis do Jazz. Ele é o grande pioneiro na fusão do gênero com a música eletrônica, com o Funk e, mais tarde, com o Hip Hop. Nesse vídeo de 1986, Hancock apresenta às crianças o Fairlight CMI, primeiro sampler (e sintetizador) computadorizado já feito. O pianista grava o nome de uma delas (e sim, é a Tatyana Ali, a prima mais nova do Will Smith em Um Maluco No Pedaço) para tocá-lo em tons e velocidades diferentes, para então mostrar como o computador é capaz de ler e exibir qualquer onda sonora que captar e de que forma os músicos podem se aproveitar disso. É visível a curiosidade e o encanto no rosto das crianças – e isso inclui Hancock, que nunca parou de explorar os sons em sua carreira. Esse momento de intersecção entre a música e a tecnologia pode parecer pequeno olhando agora, mas em 1979, quando o primeiro modelo da Fairlight saiu, foi um marco que ajudou a abrir caminho para a introdução dos computadores em outros aspectos da vida cotidiana além dos cálculos e dos negócios. O Black Mirror agradece.

Stevie Wonder (1973): “1 2 3 Sesame Street”

Stevie ensina Grover a cantar

“Superstition”

Stevie não precisa de introduções; basta dizer que as apresentações foram gravadas durante o período clássico de sua carreira, entre o lançamento dos aclamadíssimos álbuns Talking Book e Innervisions – ele acabava de sair em turnê com os Rolling Stones e o single Superstition era nº 1 nas paradas norte-americanas. Assistir ao Stevie, em qualquer época, é uma celebração da excelência, mas no auge de sua fase mais prolífica e dentro do cenário da Vila Sésamo vira uma festa completa. São 3 momentos listados porque seria injusto não citar todos eles. No primeiro, Stevie apresenta “1 2 3 Sesame Street”, música que ele escreveu especialmente para a abertura deste episódio – tudo parece uma grande jam session e os segundos em que a câmera foca nas crianças “curtindo demais” são a cereja do bolo. No vídeo seguinte, Stevie ensina o boneco Grover a cantar notas altas e longas, baixas e suaves – e é possível ter um vislumbre do Stevie ator fazendo comédia. O último vídeo é simplesmente uma versão de 6 minutos de “Superstition” – e é isso. Stevie também não precisa de maiores explicações; só aproveite.

Andrea Bocceli: “Canção de Ninar para Elmo” (2004)

Aviso: vídeo totalmente contra indicado caso você esteja de péssimo humor e queira permanecer nele. Após um dia de muitas brincadeiras e aprendizados, é chegada a hora de dormir e quem aparece para cantar a canção de ninar de Elmo é ninguém menos que Andrea Bocceli, o tenor mais pop do mundo. Como toda criança nessas horas, Elmo insiste que não está cansado e que quer ouvir mais uma historinha – mas não consegue resistir ao embalo da voz de Bocceli e adormece abraçado com seu ursinho de pelúcia. A música é uma paródia de “Time To Say Goodbye”, o maior sucesso da carreira do cantor. Nessa versão, a letra se debruça sobre as coisas divertidas que Elmo fez e vai fazer assim que acordar no dia seguinte. “É hora de dizer boa noite / deite, aqui está seu ursinho / Você teve um dia maravilhoso hoje / brincando, contando até 20, cantando e indo ao parque com seus amigos / Então me dê um abraço e diga boa noite

Patti LaBelle: “Alfabeto” (1999)

“Take The Hand Of The One You Love” (1988)

O que acontece quando você chama a madrinha do Soul para cantar a música do alfabeto? Ela se transforma em um hino gospel, é claro. E Patti LaBelle é a pastora levando sua congregação de bonecos aos céus – e praticamente todos os fantoches do programa aparecem no vídeo com ela, ninguém quis ficar de fora. A versão é tão floreada, fantástica, e um testemunho da qualidade vocal de Patti quanto se pode imaginar. Em “Take The Hand Of The One You Love”, Patti e seu grupo The Sweeties ensinam a importância de sempre segurar a mão de alguém para atravessar a rua em segurança – e de olhar para os dois lados! Músicas como essa são o que a Vila Sésamo faz de melhor em termos de hit: animadas, educativas e supergrudentas.

Alicia Keys: “Dancin’” (2005)

Este é o dueto mais fofo que você vai ver hoje: Elmo e Alicia Keys no piano cantando uma paródia de um seus maiores sucessos, “Fallin’”. Aqui ele virou “Dancin’”, uma balada sobre o quanto Alicia gosta de dançar com Elmo – e como essa pode ser uma atividade física divertida. O vídeo é de 2005, ano em que Alicia levou quatro prêmios Grammy para casa. Mas, quem se dá bem mesmo é Elmo, que ganha um beijinho da cantora no final do vídeo. “Eu continuo a dançar com você / Às vezes eu te giro / Às vezes eu giro também / Faz eu me sentir bem / mover como a gente se move / Dançar, querido, também é um ótimo exercício

Erykah Badu: “We’re all friends” (1998)

Erykah Badu tinha apenas seu disco de estreia, Baduizm, no currículo quando fez sua primeira e única aparição na Vila Sésamo. Mas, cerca de 20 dias depois que o episódio foi ao ar, no início de fevereiro de 1998, ele foi premiado com o Grammy de “Melhor Disco R&B”. Em “We’re all friends”, Badu chama os fantoches para serem seus amigos, mas eles hesitam porque não conhecem ninguém que usa turbantes na cabeça como Erykah – que rebate que também nunca foi amiga de três monstrinhos peludos e um urso bebê. Ela então os ensina que essas coisas não importam na hora de oferecer sua amizade a alguém; uma lição valiosa que a Vila Sésamo consegue transmitir em apenas 3 minutos de vídeo. Por fim, todos se tornam amigos e as bonequinhas Zoe e Rosita também aparecem de turbante.

The Fugees: “Just Happy To Be Me” (1998)

Um ano após o lançamento de The Score, álbum que rendeu ao grupo dois prêmios Grammy, os integrantes decidiram dedicar-se exclusivamente aos seus trabalhos solos. Então podemos dizer que o primeiro reencontro do Fugees aconteceu em “Just Happy To Be Me”, uma regravação feita para o especial Elmopalooza. O vídeo é um dos poucos registros dos bonecos fora da Vila; Garibaldo e Funga-funga passeiam e se divertem pela Nova Iorque do Fugees, enquanto cantam sobre sempre ser você mesmo – uma reunião icônica que só aconteceria novamente em 2004. “Seja você mesmo / é fácil como A B C / não dá para ser mais ninguém / e eu sou feliz de ser eu!

James Blunt: “Meu Triângulo” (2006)

Talvez, um jeito de consertar a cafonice extraordinária de “You’re Beautiful”, hit inegável de 2005, é transformá-lo em uma música sobre triângulos. Ao lado do boneco Telly, James canta sobre estar triste por ter perdido um triângulo e que sente falta de sua forma geométrica, de seus três lados, da base maior que o topo… No fim, James reencontra seu triângulo e Telly encerra a apresentação com talvez a fala mais icônica do programa: “Me mostre uma história de amor euclidiana e eu te mostro um final feliz! Se ao menos eu pudesse me lembrar o que euclidiana significa…”. E aí está a magia: despertar a curiosidade de uma criança sobre geometria euclidiana.

Janelle Monáe: “O poder do ‘Ainda’” (2014)

Essa gravação é uma raridade no universo da Vila Sésamo: foram poucas as vezes que o convidado musical pode contar com dançarinos humanos; a apresentação parece mais um musical do que uma simples visita de Janelle à Vila. Mas o arranjo grandioso combina com o mensagem da música: o poder do “ainda” é que se você se esforçar, ele vai se tornar um “consegui!” – o segredo é não desanimar e continuar tentando. “Você tentou fazer uma soma mas resultado deu errado? / Tentou cantar mas não sabia a música completa? / Tentou cozinhar mas a comida ficou com gosto estranho? / Tentou “enterrar uma cesta” mas não pulou alto o suficiente? / Você ainda não conseguiu mas continue tentando que vai dar certo / Esse é o poder do ainda!

Billy Joel e Marlee Matlin: “Just The Way You Are” (1989)

O que é melhor que uma serenata romântica feito por Billy Joel? Uma serenata de amor sobre nunca precisar deixar de ser rabugento, com tradução em libras feita por Marlee Matlin – a única deficiente auditiva a ganhar a estatueta do Oscar de Melhor Atriz Principal. A paródia da canção que rendeu 2 prêmios Grammy a Billy é feita para Oscar, o rabugento, e passa a mensagem que de não é preciso mudar para ter o amor de ninguém – quando é o sentimento é verdadeiro, ele resiste aos tempos ruins e os dias em que estamos mais ranzinzas. A apresentação é fofa e engraçada graças às interrupções de Oscar, que odeia tudo que está acontecendo – mas não consegue fugir do beijinho de Marlee no final. “Não tente mudar para me agradar / porque ser amigável não é seu estilo / Não quero ouvir você falando “obrigada” / Eu odiaria ver você sorrindo / Porque eu te amo exatamente do jeito que você

Bobby McFerrin (1991): “Tweet In the Mornin’”

“Música do alfabeto”

É uma pena que esta tenha sido a única vez que o extraordinário Bobby McFerrin participou do Vila Sésamo porque os dois são um par perfeito – além da extensão e do controle vocal que o permitem fazer percussões apenas com a voz, McFerrin é maestro e participa de diversos programas sociais de educação musical como professor voluntário. Neste episódio especial, que se passa em um clube de jazz e é liderado pelo coruja saxofonista Hoots, o cantor faz uma versão de sua música “Sweet In the Mornin’”; Hoots pede para que todos finjam estar dormindo em uma floresta e a voz de McFerrin é o chamado para o despertar dos pássaros. É poético e lúdico, a melhor junção possível. Já na música do alfabeto, Hoots faz questão de que McFerrin ostente toda sua percussão vocal – e é claro que, no fim, todos acabam cantando juntos enquanto McFerrin comanda a harmonia.

Dizzy Gillespie: “Dizzy toca” (1985)

“Dizie Gillespie” e “Vila Sésamo” na mesma frase pode parecer algo inimaginável, mas aqui está a prova de que isso realmente aconteceu. Essa é a apresentação mais simples das listadas: não há letra, não há paródia, não há mensagem educativa, nem interações engraçadas entre o artista e os bonecos. Talvez por isso a mística existente seja tão grande: é apenas Dizzy, um dos maiores trompetistas da história, tocando por 2 minutos. E cada close no rosto das crianças e dos adultos da plateia reafirma a grandeza do artista se apresentando. Apesar desta ser sua única apresentação na Vila Sésamo, Dizzy participou de outros programas famosos na TV, como o Bill Cosby Show e um episódio especial do The Muppet Show.

Smokey Robinson: “U Really Got A Hold In Me” (1988)

O Rei da Motown não consegue se livrar das garotas nem no palco do Vila Sésamo – mas, aqui nessa paródia de seu hit de maior sucesso com a banda The Miracles, a garota em questão é a letra U, um trocadilho com a palavra “you” (você). Ele passa a apresentação fugindo das garras da letrinha enquanto canta sobre o grande poder que ela tem sobre ele. Por fim, o cantor se rende e os dois saem de braços dados. Esta única participação de Robinson veio logo após o lançamento de seu disco “One Heartbeat ” em 1987, que foi seu trabalho solo de maior sucesso. Vale lembrar: este também foi o ano em que ele foi introduzido ao Rock’n’Roll Hall of Fame.

Ray Charles: “Believe In Yourself” (1996)

O que mais é preciso falar de um artista que era chamado de “O Gênio”? Mais uma vez, a Vila Sésamo presentou seus espectadores com a presença de um dos grandes artistas do nosso século; e Ray Charles participou várias vezes do programa, assim como de outros, como The Muppet Show. Mas, a apresentação escolhida aqui é de sua versão do clássico “Believe in Yourself” – ele e Elmo cantam uma vez juntos e então Ray Charles chama todos da Vila para cantar com eles. A interação entre a dupla no começo do vídeo também é bem especial: Elmo o encontra lendo uma partitura em Braille e descobre que o Ray pode “ler com os dedos”, ao que o boneco responde: “Elmo não é cego mas mesmo assim não consegue ler desse jeito”. A verdade é que o que Ray Charles criou com suas mãos, ninguém mais fez igual.

Yo-Yo Ma: Jam Session com o coruja Hoots (1988)

Além de ser considerado por muitos o maior violoncelista da história, Yo-Yo Ma é também o mais pop – e isso não é à toa. Durante toda sua carreira – que começou quando ele tinha apenas 4 anos -, o músico se esforçou para transformar os sons de seu violoncelo em um instrumento de conexão. Não apenas seu com a plateia, mas de cada indivíduo consigo mesmo e, principalmente, com o outro. Ele é o músico clássico que mais recebeu prêmios e homenagens do mundo, mas o que torna inigualável é o fato de nunca ter feito uma apresentação “meia-boca”. Cada vez que Yo-Yo está no palco, a excelência está lá também. E isso não foi diferente no palco da Vila Sésamo. A coruja saxofonista Hoots o chama para uma batalha de sax e violoncelo. Mas, quem ganha a disputa é, logicamente, quem está assistindo.

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