As vozes e o djavaneio de Leila Maria

Depois de participar do programa The Voice +, a cantora carioca lança agora “Ubuntu”, disco que injeta ritmos africanos no repertório de Djavan – “Foi um processo de aprendizado e, digo mais, de catarse”

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Fotos: Catarina Ribeiro

Aos 66 anos de idade, Leila Maria traz na bagagem uma carreira de 40 anos de música, mas desses anos, alguns foram divididos com outras profissões que ajudaram a manter a renda da artista: ela foi professora de inglês, trabalhou no Museu de Arte Moderna do Rio e, claro, cantou muitas noites em bares e bandas de baile. A artista carioca conta que seriam 30 anos corridos essencialmente vivendo de música e ela própria brinca dizendo “em 30 anos de carreira ninguém ficou sabendo de mim tanto quanto esse 30 minutos de televisão me fizeram conhecida”.

Esse “minutos de televisão” a que ela se refere são do programa The Voice +, da Rede Globo, do qual Leila participou em 2021 e chegou a ser finalista. Leila se inscreveu no programa por indicação de uma amiga, porém ela pouco conhecia a logística do The Voice, já que declarou que quase não assiste TV desde os anos 1980 – ela esclarece “não é afetação dizer isso, é apenas que eu realmente não sabia muito sobre o programa, só conhecia de ouvir falar”. De todo modo, ela se inscreveu em busca de mais visibilidade para seu trabalho.

O saldo foi positivo e após o programa surgiu um convite para gravar um disco com a gravadora Biscoito Fino  – que havia distribuído alguns trabalhos independentes de Leila anteriormente. Ana Basbaum, produtora da Biscoito Fino, deu a ideia de Leila gravar um disco com canções de Djavan e ali começava um desafio para Leila que acabaria se tornando o álbum Ubuntu. Logo de cara a artista se viu com muitas questões: como se aventurar no repertório de Djavan sem cair no óbvio? Além disso, como escolher apenas poucas faixas para um disco? “Djavan faz parte daquilo que é a trilha sonora da minha vida”, conta Leila Maria.

O repertório de Ubuntu só foi se fechar mais pra frente com a entrada do produtor Guilherme Kastrup, nome indicado por Ana Basbaum. Kastrup é um instrumentista importante no universo da MPB e já produziu discos de nomes como Badi Assad, Zeca Baleiro, As Bahias e a Cozinha Mineira e Celso Sim – além de seu célebre trabalho com Elza Soares nos discos A Mulher do Fim do Mundo e Deus é Mulher. O plot é que Kastrup e Leila já haviam trabalho juntos há anos, porém se afastaram naturalmente com o tempo.

Nos anos 1990, o jovem Kastrup, ainda nos tempos de faculdade, formou uma banda de baile chamada Dança & Balança, em que Leila foi a vocalista. “A banda ensaiava ainda na casa dos meus pais”, conta Kastrup, “então a Leila não só fez parte da banda, ela frequentou minha casa, conheceu meus pais, era uma grande amiga e fazia muitos anos que eu tinha perdido o contato com ela, a vida vai levando para outros lados, aí quando veio esse convite foi uma surpresa muito gostosa de poder reestabelecer esses laços musicais e afetivos”.

“Djavan faz parte daquilo que é a trilha sonora da minha vida”

Leila explica que “Kastrup encampou esse projeto com tanto amor, carinho e paixão que acabou trazendo essa ideia que pra ele é muito presente do ritmo, isso fez com que ele trouxesse a África, essa ancestralidade tanto minha quanto de Djavan, para dentro do disco, ele mergulhou o disco na África e nos afrodescentes”. Ela ainda reforça que, com exceção de Ana e Kastrup, todos os artistas e músicos que participaram do disco são negros.

O congolês Zola Star (guitarrista, violonista, cantor e compositor) e o brasileiro descendente de congoleses François Muleka (violonista, cantor, compositor e baixista) são dois nomes fundamentais em Ubuntu. Além deles, outros artistas africanos contribuíram para a riqueza sonora do álbum: de Moçambique vêm os músicos Milton Guli, Otis Selimane e a cantora Selma Uamusse; do Mali vem o maestro Ahmed Fofana e músico Assaba Drame. Já o grupo Vocal Kuimba é um coral de jovens estudantes angolanos formado em São Paulo. A descendência da diáspora no Brasil segue ainda com Beth Beli e Jackie Cunha nos tambores (do grupo Ilu Obá de Min); a cantora e pianista Maíra Freitas; o violoncelista Jonas Moncaio; a baixista Ana Karina e o naipe de sopros formado pelo casal Richard Fermino e Sintia Piccin.

“Essa abordagem conectada com os ritmos africanos é que me fez ter essa catarse e toda vez que escuto o disco eu me descubro mais um pouco. Precisei tirar algumas camadas de dentro de mim para chegar ao âmago do que a África trazia musicalmente para mim. Eu estava olhando de fora, hoje, com esse disco, estou dentro”

Kastrup foi o responsável por trazer esses artistas, pois ele também se sentiu desafiado com a questão de como tirar o repertório de Djavan do óbvio, uma vez que o artista é muito regravado. Kastrup conectou essas produções rítmicas africanas com sonoridades diaspóricas no Brasil e em Portugal. E esse processo criativo foi um desafio para o próprio canto de Leila Maria.  “Foi um processo de aprendizado e, digo mais, de catarse”, explica a artista.

Leila conta da seguinte maneira: “nós, os negros, temos tantas questões ainda para resolver e cada dia a gente enfrenta um novo desafio, especialmente a mulher negra. Então quando me deparei com todo esse universo africano que exigiria de mim toda uma proximidade, foi uma coisa que agora precisaria tocar a minha pessoa diretamente pra eu poder lidar com tantos elementos africanos no meu trabalho. O meu trabalho sou eu, a minha voz sou eu, então eu precisaria levar a minha voz para dentro da África, pois antes eu só andei pelas bordas, pois não há música popular que não tenha sido influenciada pela raiz da percussão africana”.

“A coisa pra mim bateu de tal maneira: no primeiro dia, o Zola Star chegou, a primeira música que trabalhamos foi ‘Tanta saudade’, e eu simplesmente não conseguia achar o tom, eu ficava assim ‘cadê a harmonia? Cadê o acorde para eu me guiar?’ Não tem, é uma coisa muito mais fluida, mais solta, fica no ar. Eu precisei entrar mesmo naquilo, essa abordagem conectada com os ritmos africanos é que me fez ter essa catarse, e agora, toda vez que eu escuto o disco eu me descubro mais um pouco. Eu precisei tirar algumas camadas de dentro de mim para chegar ao âmago do que a África trazia musicalmente para mim. Eu estava olhando de fora, hoje, com esse disco, eu estou dentro”, finaliza Leila.

Ubuntu fecha com a belíssima canção “Seca”, que conta com a participação de Maria Bethânia, uma alegria e tanto para Leila, fã confessa da cantora baiana. “Ela é uma artista grandiosa com quem eu pude aprender muito do que é o palco, e com tudo que ela me trouxe. Eu me aprofundei na obra de Fernando Pessoa e Clarice Lispector por causa dela, por exemplo”, explica Leila. “O que ela fez pra mim é sem palavras, pois ela aprovou meu trabalho, esse é o melhor presente que eu poderia esperar da minha carreira e isso aconteceu por causa do The Voice, soube que ela assistiu alguns episódios do programa e por isso ela aceitou colaborar e fazer essa leitura linda, com essa maestria divina dela.”

O resultado desse processo entre Leila Maria, Kastrup e seus parceiros é um disco coeso, sedutor e extremamente belo, que traz novo fôlego mesmo para as canções mais conhecidas de Djavan. Nesse momento, a vontade de Leila é poder levar Ubuntu para os palcos e por isso ela está ensaiando para logo poder retornar. “Fazer shows é efetivamente o que eu mais gosto e o que mais me doeu nessa pandemia foi ficar longe do público, porque eu tenho uma tese que eu brinco com meus amigos de que show tem que ter plateia, sem plateia é ensaio, porque eu canto para as pessoas. Eu tô doida pra subir num palco de novo, com gente na minha frente, para eu dar o que eu tenho de melhor: a minha voz!”

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ARTISTA: Leila Maria

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