Bedroom Pop para além dos quartos

Compilamos 7 registros que mostram os novos caminhos que o gênero já conseguiu trilhar em tão pouco tempo

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Fotos: Dasom Han

Apesar de ter uma origem bastante imprecisa (por volta de 2017/18), o Bedroom Pop é um daqueles gêneros cuja popularidade foi impulsionada – no momento certo – por uma série de fatores certeiros. A crescente e massiva utilização das redes sociais na década de 2010 já divulgava facilmente esta sonoridade Lo-Fi, entre Soundcloud e o extinto e saudoso Vine. Soma-se a crescente acessibilidade de DAWs (Digital Audio Workstation), o que deixou a produção de música muito mais intuitiva e desmistificada, tornando cada notebook, em um quarto, um potencial produtor. A popularização do YouTube, por sua vez, funciona como uma espécie de agente duplo, atuando tanto como uma plataforma de divulgação intensa de novos e desconhecidos produtores, como um útil meio de pesquisa musical para extrair samples de Jazz, City Pop japonês e comerciais da década de 80/90. No começo da nova década, o Bedroom Pop ganha um espaço privilegiado entre a mais nova rede social, o TikTok, ainda mais em um período onde, por lei, somos obrigados a assumir uma posição que o gênero em questão sempre privilegiou: o isolamento.

De qualquer forma, o fato é que as sonoridades e timbres Lo-Fi têm ganhado cada vez mais espaço. Uma das rádios de YouTube mais populares do gênero soma, hoje, mais de 6 milhões de inscritos em seu canal. Os samples ripados de vídeos antigos e os timbres de sintetizadores em baixa fidelidade parecem gerar um conforto no ouvinte, quase um ASMR musical. Justamente por isso, o número de artistas que se apega a esta zona de conforto cresceu tanto nos últimos três anos – o que mais se vê por aí são as playlist de Lo-Fi Hip Hop para estudar, programar, relaxar, chapar etc… todas reunindo batidas bastante marcadas e recorrentes. Essa crescente popularidade poderia até comprovar uma suposta falta de criatividade nesse meio, colocando o gênero como uma efervescência juvenil de pouca importância e que logo cessará. Mas isso não poderia estar mais longe da realidade.

Nesta compilação, o Monkeybuzz traz alguns registros (entre EPs e álbuns) que, de alguma forma, tentam trazer o Bedroom Pop/Lo-fi para lugares menos óbvios, indo além das playlists de YouTube e dos áudios hiper reproduzidos nos TikToks. Estas ideias têm sido revisitadas e transformadas à luz de novos intuitos criativos, mas também demonstram como essas propostas já estavam presentes muito antes do termo Bedroom Pop ter sido cunhado.

 

MNDSGN – Yawn Zen (2014)

Um ano antes da rádio Lo-Fi Hip Hop mais conhecida do YouTube ser criada, o produtor MNDSGN já era praticamente um veterano da baixa fidelidade. Mais conhecido por suas aventuras e flertes com o Hip Hop, Ringgo Ancheta construiu seus beats unindo, em uma mesma composição, o esquisito e o suave. Sua instigante curiosidade por pesquisar novos gêneros e fontes de sample rendeu-lhe uma pequena série de transmissões no Boiler Room chamada Breakfast With Ringgo, no qual se reunia com amigos para explorar samples e tomar um café da manhã bem “suave”. Yawn Zen é um registro que reúne todas essas características, mostrando um momento precioso de sua carreira no qual ele consolidava sua sonoridade. É um disco que procura não se limitar aos loops incessantes de samples, mas encaixá-los de forma precisa conforme a necessidade de cada composição. A esquisitice aliada aos recortes agressivos é justamente o que torna este trabalho tão único.

niLL – Negraxa (2016)

O cenário do Hip Hop brasileiro também enxergou na sonoridade de baixa fidelidade um terreno extremamente fértil para que beats originais pudessem ser criados. Particularmente o rapper jundiaiense se apegou à íntima relação que este gênero tem com as mídias digitais – principalmente os videogames. Antes mesmo de seu célebre disco Regina (2017), o rapper via nos timbres clássicos dos games de Atari, uma possibilidade de criar significados instigantes em sua mixtape Negraxa (2016). O trabalho parece ter sido composto em um grande galpão, repleto de jogos de arcade e bem reverberado – quase beirando o Vaporwave. Assim, as rimas e o flow de niLL ganham um aspecto difuso, quase como se fossem retirados diretamente da memória. O disco tem um tom sombrio, mas, ironicamente, também constrói uma aura bastante convidativa e confortável, um contraste marcante do Lo-fi. Nesse jogo de realidade, memória e sonho é que a mixtape impulsiona as sonoridades Lo-Fi.

Yaeji – Yaeji (2017)

Uma das grandes revelações da música eletrônica do final da década de 2010, a sul-coreana Yaeji traz um dos exemplos mais bem construídos e bem-acabados desta fusão de outros gêneros com o Lo-Fi. Formalmente, muitos estão inclinados a categorizar as criações da produtora como House, mas o apego que ela tem pela imprecisão e o tom etéreo dos timbres que escolhe parece fazer necessário criar um novo rótulo especificamente para ela. Há algo de um futuro distópico em suas composições, como se fosse a trilha para uma discoteca em Blade Runner. Seu primeiro e autointitulado EP é um ótimo exemplo de como aquele estereótipo audiófilo do House de alta fidelidade pode ser quebrado sem qualquer espécie de prejuízo. Outro aspecto único de Yaeji é a facilidade para produzir músicas que são ao mesmo tempo dançantes, mas com um pé firme dentro na Ambient Music. Muitas vezes, esses dois gêneros estão presentes simultaneamente, provocando no ouvinte aquela sensação de “dança reflexiva”.

Geotic – Traversa (2018)

Mais conhecido por seu nome Baths, o produtor Will Wiesenfeld encontrou em seu projeto paralelo a possibilidade de criar um universo diferente dos malabares e contratempos que lhe renderam fama. Geotic é, segundo Will, um projeto de escuta passiva, no qual o que mais importa não é necessariamente uma percepção total das coisas, mas um pretexto para que o ouvinte possa colocar parte de suas interpretações em jogo. Apesar de não trabalhar com timbres de baixa fidelidade, Will capta um espírito do Bedroom Pop/Lo-Fi que nem sempre é muito óbvio de cara: a fusão de gêneros distintos. No caso específico do disco Traversa, há uma aproximação de elementos da música clássica com faíscas e timbres quebradiços da Glitch Music. Esse manejo requer muita prática, mas isso não parece ser um problema para Will, visto os experimentos de seus outros projetos. O tom do disco, no geral, é tocante e suave, com doses precisas de Ambient Music, mas também cede espaço a truques de edição e sonoplastia que criam uma jornada imprevisível em que confiamos a Will a direção.

SG Lewis – Dark (2018)

O lado sombrio também ganha força nessas novas expressões do Bedroom Pop/Lo-Fi. SG Lewis é um produtor de música eletrônica famoso pela sua predileção (e facilidade) para se apegar a gêneros dançantes e envolventes, repletos de groove. Muitos podem conhecê-lo como aquele feat desconhecido em faixas de artistas como Clairo, Robyn e Gallant, mas não se deixe enganar: seu talento vai muito além do que apenas um nome nos créditos da música. SG Lewis é um exímio manipulador de humores e, nesse sentido, ele se apropria muito bem do aspecto antagônico dos gêneros que se misturam. Particularmente em Dark, é incrível como ele consegue colocar um gênero tão dançante a serviço de emoções tão densas e melancólicas. Parte dessa tristeza vem da escolha dos timbres nas batidas, como percussão e baterias rachadas e estouradas. Elas dão uma impressão de que há algo de errado, mas, na verdade, é precisamente este “defeito” que torna as composições de SG Lewis tão únicas. É neste espaço de imprecisão que ele constrói a matéria-prima de sua sonoridade.

There’s Talk – bathed water moon (2018)

Deixando um pouco o aspecto dançante de lado, o grupo There’s Talk traz um lado do Bedroom Pop pouco associado ao gênero: a melancolia arrastada. Normalmente estamos diante de um Pop ativo que fala sobre temas tristes, mas em seu EP bathed water moon o trio optou por mergulhar com tudo nas águas profundas e escuras das emoções mais nebulosas. Ainda assim, o curto EP tem um grande potencial para tocar de forma catártica o ouvinte que mergulhe nessas águas. Há uma grande mistura de texturas Lo-Fi e ambientações volumosas que podem dar uma sensação de caos, mas que aos poucos vai fazendo sentido à medida que evoca sentimentos grandiosos dentro de nós. O EP é um trabalho preciso de um trio comprometido com a emoção, ea forma como o Bedroom Pop é construído aqui nos faz imaginar a pluralidade de significados que podem ser criados para além dos quartos e longe dos estúdios profissionais. Um trabalho em que a aparente timidez cede espaço para uma catarse emocional.

Tennyson –Telescope EP (2019)

O Bedroom Pop e o Lo-Fi podem transparecer um estereótipo de pouca complexidade musical, apelando para loops infinitos e batidas repetitivas. Entretanto, a dupla Tennyson prova que o virtuosismo também tem um grande espaço no gênero. Vindos de uma tradição do piano clássico, os membros da dupla são responsáveis pela união de timbres básicos com arranjos complexos e difíceis. Seus registros mostram tanto seus talentos como produtores, quanto como instrumentistas altamente habilidosos. Particularmente em seu último registro, Telescope EP, há uma amálgama de acordes Jazz com um suingue percussivo muito particular, quebrando convenções de gêneros e se consolidando como um híbrido musical de várias camadas. O interessante é que, mesmo sendo construído sob alicerces complexos de teoria musical, é muito fácil apreciar esse som. A fusão com a ambientação Lo-Fi certamente facilita esta audição, desconstruindo padrões e colocando o Bedroom Pop muito além de um estilo construído por uma geração Z descompromissada e supérflua.

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.