Cadê: Evandro – Evandro Mesquita (1986)

Disco do ex-integrante da banda Blitz é um dos mais esquecidos e importantes da música brasileira

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Por uma série de fatores históricos e circunstanciais, coube à banda Blitz, conjunto carioca surgido em 1982, assumir uma certa pole position no Rock nacional dos anos 80. O Rio foi a cidade que mais se preparou para o surgimento de grupos e artistas dentro do estilo, dispunha de uma emissora de rádio, a Fluminense FM, totalmente disposta a tocar o novo (lembrando que “novo” é a mesma coisa que “inédito”, não tem nada a ver com algo cronologicamente recente) e uma casa de espetáculos ímpar, o Circo Voador. Além disso, com a maior emissora de TV estabelecida na cidade há décadas, seus programas de auditório, jornais e variedades eram os veículos certos para divulgação e difusão do Rock como algo verdadeiramente jovem e identificado com aquele país que desejava sair da ditadura e mostrar que poderia ser jovem e arejado. Resumindo: entre 1982 e 1985, nenhum artista brasileiro foi tão prolífico como Blitz.

Durante este intervalo de tempo, o grupo lançou três discos, emplacou vários hits e percorreu um caminho singular. Era o representante presumido de todo um momento musical, logo, era justo imaginar que Blitz poderia participar do primeiro Rock In Rio, excursionar pelo país, pela Argentina e fazer shows num festival mundial na… União Soviética, tudo num espaço de tempo tão reduzido. Por mais que fosse evidente que o grande atrativo da banda era o entrosamento entre a figura central ultracarioca de Evandro Mesquita, as vocalistas-gatinhas Márcia Bulcão e Fernanda Abreu, além do instrumental New Wave, sem falar no ar teatral, herdado dos tempos do grupo Asdrúbal Trouxe O Trombone. Tudo estava nos seus devidos lugares, mas, no interior, Blitz não funcionava mais como um conjunto. O stress das viagens, as divergências internas, além de uma discreta inclinação da mídia a pensar que Evandro poderia ser a verdadeira alma da banda, foram minando o grupo até que, em fins de 1985, Marcia Bulcão e o guitarrista e compositor Ricardo Barreto comunicaram sua saída. Foi a senha para o fim propriamente dito. A banda se preparava para gravar um quarto disco pela EMI, estava sem shows marcados e, como os remanescentes preferiram não substituir Barreto e Márcia, a Blitz suspendia suas atividades sem data para voltar. Ricardo montou um grupo chamado Prisioneiros do Ar, que gravou um disco em 1987 sem muito alarde. Fernanda seguiria carreira solo pelo caminho da música dançante brasileira, sempre com bastante projeção e sucesso. E Evandro Mesquita? Após algum tempo sem planos, o ex-vocalista da Blitz entrou em estúdio para gravar seu primeiro trabalho solo.

Evandro havia saído da EMI com o fim da Blitz e adentrara os domínios da Phillips/Polygram, com a proposta de gravar três a quatro discos solo. Para assumir as guitarras e a produção, foi recrutado o ex-Herva Doce Marcelo Sussekind e a ideia era desenvolver uma sonoridade um pouco mais adulta e livre do estigma de ser “apenas rock”. As letras ficaram sob a responsabilidade de Evandro, com participação de amigos como Frejat, Chacal, Antônio Pedro (ex-Blitz), Ari Mendes e Patricia Travassos em sua maioria, garantindo a mesma verve bem humorada dos trabalhos com a Blitz. Três canções foram destacadas com o potencial de hit: o Reggae Andar No Céu e as funkeadas Greg E Sua Gang (sua melhor composição pós-Blitz em todos os tempos) e Acorda Pascoal, todas bem produzidas, bem tocadas, mas com algo faltando. Além delas, uma releitura Reggae para um velho Samba, Gago Apaixonado, de Noel Rosa.

Como em qualquer movimento cultural em que o tempo pode andar bem rápido, o Rock brasileiro dos anos 80 mudou bastante entre 1982 e 1986. Discos que ampliaram o espectro sonoro da época já haviam sido lançados: Dois (Legião Urbana), Selvagem? (Paralamas Do Sucesso) e Revoluções Por Minuto (RPM) e Cabeça Dinossauro (Titãs) vieram em bloco, todos no mesmo ano em que a Blitz encerrava atividades e Evandro entrava em estúdio, tornando ingênuo e sem sentido quase tudo feito anteriormente. Nesse espaço de meses, Evandro perdeu a conexão que possuía e seu disco solo assumiu ares de anacronismo. Além disso, com o fim da parceria com Ricardo Barreto, as canções ficaram sem o elemento Pop irresistível, algo que havia facilitado bastante as coisas na época da Blitz. Além disso, a censura implicara com algumas letras, o que retardou o lançamento do álbum em quase um ano, fazendo com ele ele saísse somente em 1987.

Mesmo com toda a estrutura midiática a favor, o disco de Evandro estacionou nas 100 mil cópias vendidas, número considerado baixo para os padrões de venda estabelecidos pela Blitz. A carreira solo dele ainda rendeu outros três discos e a reativação da antiga banda no início dos anos 90, tornando-se um veículo para suas aparições musicais. Com uma carreira solidificada de ator e com livre trânsito pelas produções com a chancela Globo, Evandro Mesquita está por aí, sem muito compromisso com a carreira musical e fazendo shows com as encarnações recentes da Blitz. Dentre seus discos solo, apenas o último, Almanaque Sexual dos Eletrodomésticos, saiu em CD. Os outros, incluindo sua estreia, permanecem inéditos no formato até hoje.

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MARCADORES: Cadê?

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.