Cadê – Plebe Rude – O Concreto Já Rachou (1985)

Recolocado em catálogo recentemente, o disco é uma ótima pedida para se conhecer mais da banda

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Das bandas que vieram de Brasília no início da década de 1980, Plebe Rude é, infelizmente, a menos conhecida dos que não viveram a época. Sem a adaptabilidade demonstrada por Capital Inicial ao longo dos tempos e desprovida da carga mitológica que foi atribuída a Legião Urbana, por conta da presença de Renato Russo e sua morte em 1996, o grupo era (e é, porque mantém-se em atividade até hoje) uma banda Punk. Como havia espaço para muita gente na aurora do Rock nacional oitentista, principalmente para quartetos brasilienses, a banda teve seu prestígio e talento forjados na conturbada mutação do estilo, partindo da carioquice do início da década para algo mais plural e nacional, a partir de 1985, quando o Rock In Rio provou que era viável falar de “Rock nacional” no Brasil.

Egressa da mitológica Turma da Colina, grande grupo de jovens encerrados na capital federal da segunda metade dos anos 1970, a banda formou-se na efervescência do cenário Punk de classe média-alta erguido nas quadras de superquadras de Brasília, nas quais habitavam os futuros integrantes de várias bandas, tendo Aborto Elétrico como a principal delas. Das cinzas dessa viriam Legião e Capital, mas Plebe surgia como uma concorrente ao grupo inicial de Renato Russo e dos irmãos Felipe e Flávio Lemos. Com as presenças de Philippe Seabra (vocais, guitarra), Jander Bilaphra (guitarra e voz), Gutje (bateria) e André X (baixo e vocais), o conjunto fez sua estreia em 1981 e participaria do mesmo circuito de buracos e boates que conferiu experiência e tarimba aos conterrâneos. No lendário show de setembro de 1982, na cidade de Patos de Minas, Legião (então recém-formada) fez sua primeira aparição, abrindo para Plebe Rude, mais estabelecida na época.

Pouco tempo depois, o grupo já batalhava no eixo Rio-São Paulo, em busca de um espaço para poder gravar. Suas letras sempre foram engajadas, com a inerente revolta política das melhores formações Punk inglesas, suas musas inspiradoras. O grupo se orgulha de jamais ter gravado alguma canção romântica. Em 1985, surgiria a chance de um contrato com a EMI-Odeon, gravadora que fechara com Legião Urbana e que já abrigava a primeira formação brasiliense a fazer sucesso no país: Paralamas do Sucesso. Mesmo que sua origem sempre seja assumida pela banda como misturada entre Brasília e Rio, Bi Ribeiro e Herbert Vianna também integraram o mesmo espaço social que os integrantes das bandas da capital. Uma das primeiras canções da Plebe, Minha Renda, tirava sarro com Herbert, supostamente vendido por conta da gravação do primeiro disco de Paralamas em 1983, Cinema Mudo. A letra da canção dispara munição pesada sobre os “falsos punks” ou “os punks que se venderam”. Herbert é citado nominalmente no verso já sei o que fazer para ganhar muita grana, vou mudar meu nome para Herbert Vianna. A ironia é irmã do destino, tanto que o “paralama” foi quem abriu espaço para o conjunto no cast da gravadora após ouvir a canção num show no Circo Voador, no qual a banda abriria para Legião. Ao contrário do que se esperava, Herbert adorou a letra e tornou-se amigo dos “plebeus”, oferecendo-se para produzir o primeiro disco. Ao contrário do que era usual na época, o grupo lançou um EP, contendo sete faixas.

Batizado de O Concreto Já Rachou, o primeiro registro do quarteto em disco permanece como um dos melhores trabalhos de uma banda de Rock nacional. Em pouco mais de 21 minutos de duração, a Plebe Rude conseguiu honrar a essência das bandas Punk brasilienses, mais que Legião, Capital ou Paralamas, não fazendo qualquer concessão e temas fáceis e cutucando o sistema várias vezes. A abertura do disco com Até Quando Esperar, com uma introdução em violoncello, sugerida por Herbert, já mostrava que ali não estava uma banda qualquer. A letra pegava pesado com injustiça social e péssima distribuição de renda, além da passividade da população, no verso “até quando esperar, a plebe ajoelhar, esperando a ajuda de Deus?”.

Na ressaca das Diretas Já, vinha a letra de Proteção, grande clássico da banda, levada com guitarras melódicas e furiosas ao mesmo tempo, que abria alas para Johnny Vai à Guerra, favorita dos fãs da Plebe e com letra fazendo comparação entre uma noite de diversão e uma guerra, na qual jovens dão a vida. Minha Renda surge em seguida, disparando não só contra ex-punks mas contra a lógica das gravadoras e as leis do sucesso fácil, mencionando textualmente o programa do Chacrinha, uma das vitrines dos artistas brasileiros nos anos 1980. Sexo e Caratê, canção das primeiras lavras da Plebe, surge em seguida, emulando a sonoridade de bandas como The Cure. Seu Jogo, com participação de George Israel, da banda Kid Abelha (sugerido por Herbert), vem em seguida, com letra poderosa contra as drogas “Remédio que caiu do céu, para curar a sua insegurança, se entorpecendo não é vida, é a sua angústia contida”. Brasília, um não-hino à capital federal, berço do verso que dá nome ao disco, encerra o curto, porém marcante percurso.

Eleito 57º entre os 100 melhores disco de música produzidos no Brasil, segundo a Rolling Stone brasileira, O Concreto Já Rachou permanece infelizmente atual. Suas letras, seus instrumentais simples e marcantes, as vozes e guitarras da Plebe, tudo isso é documento de um tempo em que o Rock feito no país trazia significados e declarava intenções. Havia conexão entre jovens e temas e isso parecia inevitável. O disco foi relançado recentemente em CD e encontra-se em catálogo.

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ARTISTA: Plebe Rude
MARCADORES: Cadê?

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.