Cello Rock: O Encontro com o Erudito

Utilizando violoncelo como base, estilo resgata o Neoclássico e se mistura ao rRock. Rasputina (foto) é um dos principais nomes

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O Rock sempre foi visto como uma vertente que afrontava o clássico e o tradicionalismo. A rebeldia frente a elegância, a cultura pop frente a cultura culta e clássica. Entretanto, o Rock é um gênero imenso e que, em seus subgêneros, se mostra sempre aberto para resgates e revivais. Em certo momento, via-se a hora de usar as partituras amareladas nos estúdios ao lado de guitarras com pedais e das baterias.

Com essa influência erudita, o músico popular adicionava uma diferente carga emocional para o seu som, tornando-o diferenciado e carregado de técnica, mas sempre deixando um ou dois palmos de distancia de seus sapatos do solo, transcendendo e incorporando a sonoridade clássica sem se ater a uma amarra, sendo ainda o Rock libertário.

Como dito, a maioria das influências eruditas agora se mostraria menos engessada, como com o uso dos instrumentos elétricos ou numa utiliziação mais popular. Três bons exemplos são: Post-Rock, Heavy Metal (pode soar estranho para alguns, mas as linhas são fortemente pautadas no clássico) e, por que não, em nosso tão famoso estilo brasileiro, Bossa Nova.

Um outro estilo que poderia estar nessa lista é do qual falaremos hoje: Cello Rock.

Tendo, como o próprio nome já diz, o violoncelo (cello) como seu instrumento fundamental e básico, o Cello Rock consegue ser um subgênero trabalhado de diferentes formas pelos artistas que o compõe. As variações podem ser desde um resgate mais apegado ao neoclássico, quanto para uma influência de outros subgêneros, como Darkwave, Gótico e Metal. Entretanto, sempre há a presença desse hibridismo entre o Rock, mesmo que como um elemento de apoio, como baterias acústicas, e o erudito.

Uma banda que consegue trabalhar com essa mistura de maneira tanto sonora quanto visual é Rasputina. Formado em Nova York no início dos anos 90, o grupo liderado por Melora Creager sempre teve sua formação totalmente feminina e só foi dar espaço para um homem em 2008, com a entrada de Daniel DeJesus. O som do trio é um Cello Rock com uma atmosfera mais sombria e gótica, mas sem deixar de lado o lirismo do erudito ou do ultraromantismo gótico. O detalhe interessante do trio é o uso de pedais de efeitos nos violoncelos, resultando numa mistura entre o clássico o moderno, o erudito e o popular, de uma maneira bem harmonizada, ainda mais com os belos vocais femininos, letras e sua caracterização característica da era vitoriana muito bonita e transformando as apresentações da banda em show teatral.

Como dito anteriormente, Metal e Post-Rock também se veem atrelados ao clássico, tendo esse gênero como uma das bases. Dessa maneira, também vemos esses dois estilos misturados ao sons graves do violoncelo. Bandas como Judgment Day, que traz um peso harmonioso entre levadas de baterias e violinos mais pulsantes nos rementendo ao Heavy Metal clássico, e Break of Reality, que passa uma harmonia mais sublime, com altos e baixos típicos do Post-Rock, são bons exemplos de mais duas dessas misturas.

Como a música é cheia de surpresas, podemos ver o Cello Rock visitando estilos fora de sua zona de conforto, que é o lado mais dark ou transcendente. Trazendo uma influência mais incomum ao estilo, Murder by Death apresenta uma mistura Folk amplamente bela, com elevadas bem íntimas e com doses de sofrimento, que são aumentadas com o choro de solos de violão e as notas do violoncelo. Outra a ser citada é The Loneliest Monk, um duo de violoncelo elétrico com seus efeitos de fuzz e bateria acústica que varia entre a cadência e carregada de contratempos dando um toque alternativo ao Cello Rock.

Por ser um estilo que consegue trabalhar bem entre o erudito e o Rock, há também as bandas que ganharam notoriedade ao fazer covers de bandas de Rock. É o caso de Apocalyptica e Primitivity, que ganharam fama ao se dedicarem a fazer versões em Cello Rock/Metal de músicas do Metallica e Megadeth, respectivamente. O trio de cellistas conquistou vários ouvidos e, inclusive, de fãs das duas bandas que compõem o Big Four. Outro nome da cena dos covers em versões de violoncelo é o 2Cellos, um duo o qual também apresenta suas versões de faixas de Coldplay, Muse, Nirvana e Guns’n’Roses no instrumento clássico.

O Rock, mais uma vez, se mostra um gênero que merece toda a sua atenção. Mesmo surgindo como um movimento de rebeldia e contracultura ao tradicionalismo, ele soube muito bem escolher a dedo influências clássicas para o som de seus subgêneros. No Cello Rock, o destaque total fica para apenas um instrumento, o violoncelo. Porém, não podemos esquecer dos violinos, harpas, flautas transversais e outros instrumentos de orquestras que vemos presente em diversas vertentes do gênero. É por essas e outras que a música encanta, se juntando ao invés de se mostrar contrária e preconceituosa, quebrando paradigmas, e resultando sempre em algo fantástico para nossos ouvidos.

Discografia:

RasputinaThanks for the Ether Break of RealitySpectrum of the Sky Murder by DeathBitter Drink, Bitter Moon The Loneliest MonkThe Loneliest Monk Judgment DayDark Opus 2CELLOS2CELLOS ApocalypticaApocalyptica: Plays Metallica by Four Cellos

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Autor:

Marketeiro, baixista, e sempre ouvindo música. Precisa comer toneladas de arroz com feijão para chegar a ser um Thunderbird (mas faz o que pode).