No rolê do Cereal Melodia

Artistas da plataforma musical são atrações do Clube Monkeybuzz em Porto Alegre

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Localizado entre o inferninho do Love Story e a Rua Bento Freitas, o estúdio da Cereal Melodia está cravado na “Boca do Lixo” do centrão de São Paulo. Se o endereço foi escolhido de caso pensado, não sabemos, mas combina com a programação da plataforma de transmissão musical e produtora de vídeos.

Na ativa desde o final do ano passado, o projeto encabeçado por Fernanda Carlim, Gabto e Lucas Neves virou um pólo divertido de criação de conteúdo musical. Quem já subiu as escadas do mesmo prédio do Tokyo e deu pinta por lá saiu com uma certeza: é difícil só dar uma passadinha e ir embora rápido. Isso quando não entram os desavisados que pensam ser ali a entrada da enorme boate vizinha que ocupa o mesmo prédio.  As visitas ao estúdio sempre rendem risadas, novos amigos e horas de caprichada seleta musical.

Sob a ótica do Cereal Melodia, a grade dos podcasts de artistas do Underground vai além da música. Há espaço para divertidas entrevistas com temas essenciais à comunidade da noite, como o Bom Dia Clubber, projeto da DJ Aka Linda Green, que teve até uma roda de conversas sobre redução de danos. Outro destaque é o Mote, apresentado por Paulette Lindacelva, com presença de artistas trans e de coletivos negros.

Neste domingo (28), a cidade de Porto Alegre vai receber Carlim e Gabto no Clube Monkeybuzz, mesma noite em que se apresenta Ross From Friends. Os gaúchos voltam à cidade após uma temporada de intenso convívio e intercâmbio com músicos diversos que  a dupla tem contato diariamente por conta do Cereal Melodia e outros rolês. A reportagem do Monkeybuzz trocou ideia com eles para saber mais sobre como está sendo essa experiência sonora.


Monkeybuzz: Qual foi a maior motivação que impulsionou o Cereal Melodia?

GabtoPara mim, o início de tudo foi quando comecei a pesquisar e querer tocar sons que não eram o 4×4 dominante das pistas e podcasts em geral. Percebia que, na maioria das vezes, quando um DJ era convidado para gravar uma mix, o resultado era um set bastante pisteiro (afinal, todo mundo quer ser bookado e essas gravações acabam sendo bons cartões de visita). Então, comecei a pensar no Cereal com a galera como uma plataforma para dar espaço a novas experimentações da música Eletrônica, DJs, produtores e às pessoas que movimentam essa cena.

Acho que também a vontade de explorar outros assuntos e formatos de gerar conteúdo sobre música. A gente já trabalha com produção de conteúdo dentro dos nossos trampos regulares e o Cereal foi uma forma de desaguar esse outro universo que nos interessa e que a gente vive pra dentro dessa plataforma. A ideia de estimular os DJs a pensar em outra dinâmica de set é muito divertida também, mas pensar e falar sobre música e vivência é um dos nossos objetivos. Os programas que a gente tem produzido atualmente são muito sobre isso.

Mb: Como rolaram as ideias para o Mote e o Bom Dia Clubber? Há planos para novos programas??

Gabto e Carlim: Já tínhamos ideia de fazer alguns programas ao vivo, no começo, só não sabíamos como. Nesse meio tempo, enquanto começamos a lançar os primeiros sets, a Ceci (Aka LindaGreen) e a Paulette chegaram com as ideias prontas . Abraçamos a ideia para dentro da plataforma. É uma colaboração bem aberta, trabalhamos justamente para a galera que tem alguma coisa para dizer botar suas questões no ar. O Mote tem a curadoria de conteúdo toda feita pela Paulette, que tinha experiência com programa de rádio antes de chegar em São Paulo além de ter produzido alguns episódios com a rádio Namíbia. A Linda veio com a pegada de debater outros assuntos pertinentes dentro dessa realidade clubber, o que também é muito maneiro.

Temos algumas ideias ainda para serem lançadas ainda esse semestre, umas conversas mais profundas e pontuais com alguns artistas sobre discussão de processos criativos dos produtores, qual a função do silêncio para a música, enfim, mil loucuras. Também queremos agregar outros coletivos que estão produzindo coisas iradas no Brasil para falar sobre os seus universos. Mas isso ainda não podemos contar porque estamos em fase de desenvolvimento.

Mb: De que forma vocês direcionam o planejamento da programação?

Gabto e CarlimOs dois programas que temos hoje acontecem quinzenalmente (Mote) e mensalmente (Bom Dia Clubber). O nosso projeto de gravações ainda se encontra meio flutuante, mas vai adotar uma regularidade semanal. O futuro é que novos programas se juntem a essa grade.

Mb: Acompanhar outros artistas na Cereal Melodia está expandindo o horizonte criativo de vocês? Como está sendo essa experiência? 

Gabto e CarlimTotalmente. Abrir o diálogo com outros artistas é o melhor caminho para expandir de forma criativa e tecer novas redes é necessário. Estamos muito contentes com a maneira plural e orgânica que o Cereal tem se comportado. Essa troca de realidades diferentes entre os participantes, artistas e organizadores dos programas só faz crescer.

Mb: Como surgiu o interesse por discotecagem?

GabtoComecei a me interessar por discotecagem no meio dos anos 2000 quando ainda frequentava raves. Na época, queria aprender para poder tocar do meu jeito. Ficava horas na internet procurando vídeos em sites específicos para ver como a galera fazia, como eram montados os lives, etc. Porém, foi só em 2010 que comecei a discotecar de fato, em festas de Soul e Funk – nada a ver com raves, mas outro gênero que escutava desde pequeno.

Carlim: Descobri a discotecagem junto com a noite, sempre tive aquela proximidade com o som . Quando eu descobri que existia um universo no qual eu podia mostrar tudo o que eu gostava para as pessoas dançarem comigo foi um divisor de águas, criativamente falando. Logo após eu descobrir do que se tratava a discotecagem e tive a oportunidade de aprender, la em meados de 2013, eu já comecei a produzir minhas próprias festas para poder tocar o que eu queria. E to nessas até hoje.

Mb: Como vocês ocupam mais tempo: pesquisando ou mexendo em máquinas? Os dois iguais?

Gabto: Acho que pesquisando. Eu estou sempre pesquisando. Se estou trabalhando, arrumando a casa, indo de um lugar para outro na cidade, eu estou sempre ouvindo música. Nesse processo, eu acabo guardando ou me aprofundando toda vez ao me deparar com alguma sonoridade capaz de chamar a minha atenção.

Agora, este é o ano que me dei como definitivo para produção começar a tomar um papel mais protagonista na minha vida. Estou quase sempre com o Ableton aberto, brincando e experimentando em qualquer intervalo que consigo, mas quero cada vez mais ter um tempo organizado na minha rotina para me dedicar especificamente a isso.

Carlim: Pesquisando com certeza. A produção musical ainda é um caminho não muito explorado por mim, mas eu tenho a minha rotina de pesquisa bem regrada, cada vez mais fixa na minha rotina de trabalho. Todos os dias eu separo umas horas do expediente para organizar e descobrir sons novos que eu possa usar nos meus sets. Além de toda a vivência que eu tenho com o meu trampo como curadora e produtora cultural que abre algumas janelas criativas nos encontros com artistas de outros universos musicais.

MB: Gabto, você tem algumas produções, saiu uma track muito massa sua na coletânea da Gop Tun, você tem planos de lançar algo nesse caminho em breve? Planos de EP, essas coisas…

Gabto: Tem um pequeno EP que estou preparando ainda para este semestre, que é de certa forma uma continuidade da estética sonora do tune lançado pela Gop. Algo complementar aos meus sets, que no momento estão pendendo bastante para uma sonoridade da House meio 80’s–90’s. Em paralelo, tenho experimentado bastante com outras sonoridades e tempos mais rápidos (135-150BPM). É algo que estou gostando muito, porém, sem planos muito concretos no momento. É algo capaz de desaguar em algum outro projeto… Por fim, ainda tem algumas coisas mais antigas que quero finalmente lançar e colocar na rua (originais e edits). Estou meorganizando para fazer aos poucos.

Mb: Vocês são de Porto Alegre, certo? O que vocês falariam sobre a noite de lá se aparecesse alguém agora querendo saber?

Gabto e CarlimFelizmente, a cena de Porto Alegre hoje é bem consolidada, com festas regulares e coletivos articulados em fazer acontecer. Saímos da cidade há uns dois anos, e hoje executamos todos os roles do Cereal em São Paulo. Mas POA tem essa “fama” de criar e exportar artistas desde sempre, então, se você chegar lá vai encontrar núcleos muito potentes que estão lutando pra abrir espaço pra geral.

Tem o Coletivo Turmalina, o Coletivo Plano e a Greta, além dos núcleos que estão no corre a algum tempo como o Coletivo Arruaça que movimentou muito o rolê de rua desde a sua criação. A Goma.rec está lançando uma galera e ainda tem a festa Base. Se você quiser podemos ficar aqui horas falando sobre as festas Bronx, Fennnnda, Hot, Neue, o selo Zona…enfim, a cidade anda bem servida de variedade musical e criativa. Apesar de ser uma cidade não muito grande e ainda mais nesse momento político atual, é foda ver os coletivos fazendo o corre e resistindo a cada evento que sai pra rua 

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ARTISTA: Carlim, Gabto

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