Entrevista: Biquini Cavadão

Conversamos com Bruno Gouveia, líder da popular banda de Rock Brasileiro que lançou neste ano “Roda Gigante”, seu novo trabalho de estúdio

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Era 1986 e eu lembro bem disso. Ano decisivo na minha vida escolar-sentimental, tudo entre as paredes e muros do Colégio Santo Agostinho, no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro. Tudo que for música, filme, gosto e cheiro daquela época, passará sempre pelo meu colégio. É um conjunto de informações que não se desfaz, mas que, ao longo dos anos, foi perdendo cor e precisão, afetado pela ação inexorável do Tempo.

As mídias sociais serviram para reencontrar vários amigos de colégio e reatar laços sentimentais com muitos participantes desses anos dourados. Biquini Cavadão está entre eles. Era tarefa árdua ligar o rádio na época e não topar com algum sucesso do recém-lançado primeiro disco de Bruno Gouveia (vocal), Miguel Flores da Cunha (teclados), Sheik (baixo), Carlos Coelho (guitarra) e Álvaro Birita (bateria), Cidades Em Torrente. Tédio, Timidez e No Mundo da Lua puxaram o álbum, mas emissoras diferentes escolheram suas apostas entre as canções da estreia do Biquini. Sendo assim, era possível ouvir Domingo aqui, Reco ali ou Inseguro de Vida acolá. E, claro, Múmias, que vinha num dueto com timing preciso, alternando as vozes de Bruno Gouveia e Renato Russo. Lembro especialmente de uma versão da Transamérica FM (ou seria da Cidade FM?) para No Mundo da Lua, a primeira grande ode ao onanismo, que se ouvia uma voz feminina dizendo: “Anda logo, garoto” e a resposta: “pô, mãe, pera aí”.

Biquini era a mais jovem dentre as bandas do chamado Rock de Bermudas, ainda estava no auge da criatividade inicial quando Paralamas, Titãs, Legião, entre outras formações, já experimentavam oscilações. Após A Era Da Incerteza (1987) e (1989), discos que mereciam melhor sorte e mais sucessos, se bem que teve dois dos maiores hits do Biquini, Teoria e Meu Reino tocando em alta rotação nas rádios, os anos 90 vieram implacáveis para a banda. No melhor dos sentidos. Com o quarto trabalho, Descivilização, o Biquini entrou na nova década com os dois pés direitos. Logo de cara, Zé Ninguém veio na mesma época das manifestações contra o governo Collor. Uma letra com vários questionamentos cotidianos aproximava a canção de várias faixas de público. Depois vieram Impossível (que, ao vivo, recebia a adição de versos de Gostava Tanto de Você, de Tim Maia) e o maior sucesso da carreira da banda, Vento Ventania, que foi a música mais tocada em rádios daquele distante 1992. Isso credenciou a banda para a participação no Hollywood Rock de 1993, no mesmo dia de medalhões como Red Hot Chili Peppers.

Além disso, Biquini Cavadão sempre fez intensas turnês. Nunca teve medo de ir aonde o povo está, como diz a canção. Lembro que, já na Uerj, por volta de 1993/94, reencontrei a banda no Imperator, num belo e competente show. Estavam bem. Saíram da Polygram original e foram para a Sony Music e mantiveram o nível com uma boa versão de Chove Chuva, de Jorge Ben, que, na época, era revisitado e redescoberto pelo público mais jovem. Além da versão, Ilusão teve bons índices nas playlists Brasil afora.

Depois desse disco, os integrantes da banda deram uma parada. Entre produção de outros artistas, viagens e outras atividades, retornaria em 1998 com um outro traço marcante: a tecnologia. O novo disco vinha com um kit de acesso à Internet, num tempo em que isso passava muito longe da normalidade. Entitulado convenientemente de biquini.com.br, o novo trabalho, lançado pela BMG, trouxe mais um massivo sucesso: Janaina. Ampliando o conceito da presença da tecnologia como algo capaz de ampliar a experiência de ouvir música, lançaram um diário digital do processo de gravação do disco seguinte, Escuta Aqui, lançado em 2000. Além do registro das gravações, a banda postava fotos das sessões em seu site, o pioneiro – em termos de artistas nacionais – www.biquini.com.br, que ainda está no ar até hoje. Este disco marcou a saída do baixista Sheik, posto que seria ocupado pelo ex-Los Hermanos Patrick Laplan, na condição de músico convidado. Com os quatro integrantes originais e Laplan, participaram do Rock In Rio III e lançaram 80, um disco em que reliam sucessos de contemporâneos de Rock Nacional daquela década. A nova versão para Múmias, hit do primeiro disco, puxou 80 para o topo das paradas. Mantiveram intensa a agenda de shows e novos sucessos vieram ao longo do tempo, sobretudo outra canção com nome de mulher, Dani. Era a hora do primeiro disco ao vivo, que se materializou em 2005, quando o registro da apresentação da banda no Ceará Music foi lançado com o nome de Biquini Cavadão Ao Vivo, em CD e DVD.

Em 2007, Biquini se tornou uma banda independente e aumentou ainda mais a agenda de shows. Gravou três discos, as coletâneas de regravações dos próprios sucessos, chamadas 1985/2007 (volumes 1 e 2), mais um ao vivo, dessa vez no Circo Voador, com uma homenagem a bandas nacionais e internacionais da década de 80 e um disco de inéditas, Quem Sonha Acordado Vê O Sol Nascer.

Uma decisão interessante foi tomada pela banda, a de não gravar mais discos e aproveitar as canções. Com a independência das gravadoras e a constante agenda de shows pelo país e Portugal, o grupo gravou algumas músicas, acumulou outras, mas percebeu que a carga simbólica do lançamento de um novo trabalho, um novo álbum era poderosa demais para ser desprezada. Veio então Roda Gigante, novo disco dos rapazes. 2012 foi um ano decisivo para a banda, sobretudo para Bruno, que perdera seu filho Gabriel em 2011, num desastre de helicóptero. A banda manteve-se ativa na medida do possível e viabilizou o lançamento do novo trabalho, que alia passado e presente de forma bem harmônica. A faixa-título tem uma bela melodia e letra afiada: “só quero o amor das grandes paixões, ser como criança num parque de diversões, aquele amor que, em menos de um instante, faz a vida girar como uma roda-gigante”. Entre Beijos E Mais Beijos também é uma beleza de otimismo e contemplação de uma maturidade que chegou como chega para todos: com prós e contras e o verso “te vejo abrir a porta, tanta história pra contar, entre beijos e mais beijos, te conto o segredo do medo que eu tive de nunca mais te ver voltar”.

Entre Beijos E Mais Beijos

Bruno Gouveia conversou com o Monkeybuzz sobre o momento atual da banda, carreira e as expectativas para o novo disco. Confira abaixo.

Monkeybuzz: Conte como foi o processo criativo e como surgiu a inspiração para o novo disco, Roda Gigante.

Bruno: Decidimos em 2009 fazer músicas, mas não necessariamente discos. Lançamos uma a cada 9 meses, com direito a clipe, e divulgação em radios e shows. Foi uma experiência interessante, mas em 2011 concluimos que estas canções poderiam estar dentro de um trabalho único e assim o disco chegaria aos fãs com um número maior de músicas conhecidas. O CD ficou pronto em 2012 e então batalhamos para lança-lo com uma boa gravadora. Foram meses negociando até chegarmos ao contrato com a Warner no fim do ano. Assinamos o contrato e esperamos o carnaval passar para dar início ao trabalho de divulgação do novo CD.

Mb: Qual o segredo da longevidade do Biquini Cavadão?

Bruno: Em uma palavra, respeito. A banda se respeita internamente. Conhecemos nossos limites, virtudes e fraquezas. Respeito também respeita a mídia, quem nos contrata e principalmente os fãs. Agora, sem música boa, nada disso adianta, e a gente agradece a todos por tornarem cada lançamento nosso um sucesso.

Mb: Parece haver um desinteresse da mídia atual em relação ao Rock Nacional. Parece que o gênero foi sobrepujado pelo sertanejo ou pelo pagode. Como você a cena musical brasileira atual?

Bruno: A cena vive hoje o reinado do Sertanejo. Normal. O Rock também teve uma dinastia entre 80 e 90. A cena de hoje privilegia o entretenimento, nem sempre a poesia. Mas a Internet ao menos ajuda hoje os que gostam de outros estilos a encontrar suas bandas favoritas e novos talentos. Pensando bem, talvez por isso mesmo, os modismos demorem. Se ninguém tivesse outra opção de ouvir música a não ser a radio e TV, talvez as mudanças acontecessem mais rapidamente.

Mb: A que você atribui a constante má vontade de crítica especializada para com o Biquini Cavadão?

Bruno: Ignorância, no sentido de não saber ou não conhecer, eu acho. E são poucos os críticos de hoje que ficam com esta picuinha. A maioria, mesmo quando não gosta, ao menos respeita.

Mb: Há algum lugar do país que seja especial pra banda em termos de público?

Bruno: Não há um lugar que a gente vá e seja mal recebido, portanto, todos os lugares são especiais.

Mb: Como foi o início do Biquini Cavadão?

Bruno: Tivemos a sorte, bem como muitas bandas, de estar na hora certa e no lugar certo com a música certa. Portanto, seria muito mais difícil começar a carreira hoje.

Mb: O que mudou em termos de cenário para as bandas de Rock nacionais dos anos 80 pra cá?

Bruno: Hoje temos muitas bandas lutando no underground, gente boa como Los Porongas. O que não falta é trabalho bom. Mas o funil é gigante e poucos aparecem do outro lado. Se uma banda como o Biquini, Plebe, Capital ou RPM quisesse mostrar uma música como Loiras Geladas, Até Quando Esperar, Tédio…seria bem mais complicado..

Mb: Ao mesmo tempo em que vocês se valeram do surto de nostalgia dos anos 80 ocorrido no início dos anos 00, vocês sempre se mantiveram ativos em termos de novos discos. É possível equilibrar os dois lados, sendo o BC uma banda típica dos anos 80 e, como a maioria delas, com história encerrada apenas naquela década?

Bruno: Curioso é que, da década de 80, tivemos 3 hits: Tédio, No Mundo da Lua e Timidez, além de outros sucessos menores. Temos mais sucessos na década de 90 (Vento Ventania, Impossível, Zé Ninguém, Janaína, Chove Chuva) ou mesmo dos 00’s (Quando Eu Te Encontrar, Múmias, Dani, Vou te Levar Comigo, Quanto Tempo Demora Um Mês) do que da década em que começamos. E nisso se explica a longevidade da banda, a renovação de seu público, a interatividade e conectividade que temos .

Mb: Como é amadurecer numa banda de Rock?

Bruno: É bom ver que nossas músicas frequentam a trilha sonora de tanta gente.

Mb: Qual sua canção preferida da carreira do BC e por que?

Bruno: As mais recentes sempre são as mais queridas. São como filhos caçula 😉

Mb: Quais os planos para o Roda Gigante? Turnê? DVD ao vivo?

Bruno: Vamos tocar por todo o país e Portugal também no NORFEST. Já estamos compondo para um novo disco que poderá ser de inéditas ou um DVD desta tour. Vamos ainda decidir.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.