Filipe Massumi e o futuro

Girando por entre os universos da música eletrônica e da MPB, o violoncelista Filipe Massumi finalmente está produzindo seu primeiro disco e revela tudo sobre o processo ao Monkeybuzz

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Fotos: Vincente Hosenbher

Filipe Massumi transita por universos díspares. Ao mesmo tempo em que é um rosto conhecido do circuito MPB dos teatros do Sesc, ele também frequenta a efervescente noite eletrônica paulistana. O violoncelista já tocou ao lado de Teto Preto e de L_cio, mas no seu currículo também aparecem performances com Alaíde Costa, Zé Miguel Wisnik, Zé Manoel e Arthur Nogueira. Como se não bastasse, para além disso ele ainda trabalha com música sinfônica produzindo trilhas para espetáculos diversos. No meio dessa agenda-furacão, conseguimos nos encontrar no Café do Centro da Terra, espaço cultural na Zona Oeste de São Paulo, poucos dias antes dele embarcar para o Japão. Ainda neste ano, inclusive, ele passa também por Londres – as duas viagens acontecem, é claro, a trabalho.

Nascido em Vitória da Conquista, no sertão da Bahia, ele começou a estudar música clássica aos 9 anos de idade: “Minha família é de músicos. Eles migraram de Pernambuco para a Bahia na década de 1940. Meu bisavô era músico, tocava violão. Tinha dez filhos e todos eles também tocam e cantam”, remonta. Criado em nesse reduto de referências locais, a dedicação à música clássica levou Massumi para Salvador. O intuito da viagem era o de aprofundar-se na relação do violoncelo com a música popular. Nessa mesma onda, ele cruzou o oceano e foi parar no Leeds College of Music, na Inglaterra. Depois ainda passou por festivais e cursos de verão de renome na Suíça e na Alemanha. “Eu migrava de instituição em instituição, de festival em festival… Minha formação sempre foi meio irregular”, explica o músico que acabou não se formando em nenhum desses programas uma vez que eles dedicavam-se ao violoncelo clássico e não ao popular como ele desejava.

“A melhor coisa de São Paulo, para mim, é poder fazer parte das coisas, mas conseguir enxergá-las de uma forma panorâmica, com certo distanciamento. Entender o todo.” – Filipe Massumi

Foto: Paola Alfamor

Com 22 anos e a cabeça cheia de ideias, Massumi finalmente chega a São Paulo, mas sem rota pré-definida. Encantado pela intensa vida cultural da cidade entre ocupações, movimentos e coletivos, ele logo tratou de enfiar-se na Ocupação 63, hoje considerada a maior ocupação artística da América Latina. “Eu não tinha moradia fixa: ficava nas ocupações, depois em casa de amigos, era meio cigano. Numa dessas que encontrei a Laura Diaz e o pessoal do Teto Preto”, recorda. O Teatro Oficina, curiosamente, também entra nesse mapa de Massumi por São Paulo. Logo que chegou à cidade, trabalhou lá. “Ninguém passa pelo Oficina e vai embora. O lugar fica. Foi muito importante estar ali porque encaminhei muitas coisas: desde questões de trabalho, até novos contatos que fiz” – é por isso que, hoje, seu nome consta nos créditos de tantos discos.

Essas trocas, apesar de extraordinárias, acabaram por fazer com que Massumi negligenciasse, em certa medida, suas próprias composições. Por mergulhar tão profundamente em cada colaboração que fecha, o artista não encontrava espaço dedicar-se a isso. Em julho deste ano, no entanto, tudo mudou. Depois de muitos pedidos de seus amigos, ele tirou suas músicas da gaveta e colocou algumas delas no show “Hiato”, ao lado de Zé Manoel. Essa demora em se expor dessa maneira é “fruto de muita insegurança, muita timidez de colocar as cartas na mesa e falar: ‘olha, gente, é isso que eu tenho para apresentar’. Sempre fui muito hesitante, nervoso”, reflete. Agora, o violoncelista está preparando o seu primeiro disco solo e pretende começar as gravações em janeiro.

“Meu maior desafio neste momento é alinhar as composições e criar uma unidade para o disco. Queria conseguir amarrar neste álbum um registro de cada um dos lugares que influenciaram minha trajetória até aqui”.  Os encontros e a própria capital paulistana servem de pontapé para suas criações: “A melhor coisa de São Paulo, para mim, é poder fazer parte das coisas de uma forma panorâmica e, ao mesmo tempo, olhar para elas com certo distanciamento. Entender o todo”. Filipe deixa claro que não tem “fama de pessoa organizada. Minha personalidade é estabanada”, mas está animado com a produção do LP dedicado ao encontro entre voz e violoncelo. Levando em conta as composições de peso, a personalidade única e as vivências múltiplas de Massumi, a expectativa para o lançamento é das melhores.

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