Há léguas a nos separar

Não espere por Bossa Nova no primeiro disco solo de Maria Luiza Jobim – seu debut promete uma miscelânea de gêneros musicais e um mergulho vívido em suas memórias

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Fotos: Guilherme Nabhan

Filhos de artistas monumentais, muitas vezes, seguem um script que se inicia com o medo de lidar com o legado que o seu sobrenome carrega. É o caso de Maria Rita e Pedro Mariano, Bebel Gilberto, Alice Caymmi e Chico Chico… Curiosamente, Maria Luiza Jobim, a caçula de Tom Jobim, não leu esse roteiro. Em conversa com o Monkeybuzz, ela deixou claro que não há receio de assinar com o “Jobim” de seu último nome. Importante mesmo é conseguir encontrar a sua própria voz. É essa busca que está registrada no seu primeiro single “Casa Branca” que tem o mesmo título do seu futuro álbum que está sendo produzido. Nele, as memórias se sobrepõem: “o corredor, a sala de estar, as tardes de Nintendo, os filmes que fizemos”, canta. “Eu via meus pais e queria repetir aquilo, só que com o que tem dentro de mim”, comenta a respeito de seu ímpeto artístico.

O estopim para seu investimento na carreira solo aconteceu em Nova York, enquanto ela estudava na prestigiada Juilliard School – escola pela qual nomes como Nina Simone e Ray Conniff já passaram. No meio de seus processos de composição e pesquisa musical, uma surpresa mudaria sua vida por completo: estava grávida da pequena Antônia. No entanto, muito antes do bebê chegar, Maria Luiza já vivia uma relação profunda e natural com a música. Na infância, inclusive, chegou a gravar o “Samba de Maria Luiza”, ao lado de seu pai – a faixa está no derradeiro disco Antonio Brasileiro de 1994. Aos 11, cantou “A Ciranda da Bailarina” ao lado de ninguém menos que Chico Buarque. Na época, a jovem sequer tinha noção da grandiosidade desses artistas. Era tudo diversão.

“Eu via meus pais e eu queria repetir aquilo, só que dentro do meu universo. Sou filha dele [Tom Jobim], mas tenho uma história completamente diferente”Maria Luiza Jobim

Tanto que, antes de enveredar pela música, Maria Luiza queria ser arquiteta. O que mudou drasticamente quando ouviu sua chefe dizer a uma das clientes: “Luiza faz um café maravilhoso, já seus desenhos…” Depois da catarse, deu chance ao que se tornou o Opala – duo ao lado de Lucas Paiva, com quem lançou um ótimo homônimo em 2016. A investida, na época, passou longe da Bossa Nova e mergulhou no Pop eletrônico. Lucas, recentemente, por sua vez, produziu o Tem Conserto (2019) de Clarice Falcão, vale dizer. De todo modo, Maria Luiza avisa: “o Opala não morreu”, ele só está abrindo espaço para esse respiro dos dois músicos.

No caso dela, o respiro ganha forma em canções em português – diferente das inclusas em Opala – rememorações mais íntimas no que ela classifica como “um momento de muita coragem” depois de ser mãe. É desse encontro consigo e dessa experiência transformadora que nasce o desejo de assinar sozinha, com seu nome completo. Antônia tem apenas um ano e meio, mas já tem papel fundamental na obra de sua mãe. Com a pequena, Maria Luiza tem escutado os discos de Adriana Partimpim, Saltimbancos e Nara Leão. A retomada de discos de Gilberto Gil e Gal Costa também tem a ver com a criança. Até o clássico Tábua de Esmeralda (1974), de Jorge Ben, entrou em cena. Sob essa cama de referências é que, em breve, teremos Casa Branca.

Composto entre Nova York e Rio de Janeiro, o novo disco foi gravado na capital carioca com produção do multivalente Kassin. “Eu resolvi chama-lo porque esse não é um álbum de um só gênero. O Kassin já trabalhou com nomes tão plurais como Erasmo Carlos e Mallu Magalhães”, explica Luiza que soltou a voz sobre as bases eletrônicas criadas pelo produtor. Para completar, apenas Danilo Andrade e Lux Ferreira tocam piano em algumas faixas. “As categorizações vão chegar depois do disco pronto. O trabalho foi feito sem pensar nisso”, diz sobre o processo. Dividindo-se entre a carreira e a maternidade, a intenção da artista é a de ter atingido um patamar de sinceridade absoluta no disco. Quando ele já estiver no mundo, espera fazer shows no Rio e em São Paulo para abrir as portas de seu universo particular. Casa Branca é um convite para quem quiser entrar ali e conhecê-la.

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