Luiza Brina (e seu violão) à deriva

Produzido durante o confinamento e com colaborações ilustres, EP da artista mineira expressa as angústias de 2020 e ilumina reflexões para “quando isso passar”

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Fotos: Julianna Sá

Quando a pandemia ganhou força no Brasil, as primeiras a fecharem as portas foram as casas de espetáculos e os teatros. Nada de show, de música ao vivo ou de aglomerações no gargarejo do palco. A primeira sensação que bateu na mineira Luiza Brina foi a de vazio. Tava fazendo vários shows”, relembra a cantora, compositora, arranjadora e multi-instrumentista. “Tava tocando com o Castello Branco, com a Julia Branco, com a Maria Luiza Jobim, com a minha banda Graveola, tava lançando o Tenho Saudade Mas Já Passou e de repente deu esse vazio assim. E aí o que me ajudou muito foi o meu violão”.

Foi desse tempo ao lado do violão que surgiu a ideia das canções e dos encontros. Deriva, seu mais recente EP, surge de uma ideia clássica: a de colocar mensagens numa garrafa e deixá-las à deriva, à mercê de um possível leitor futuro. “As canções foram feitas pensando nesse momento de agora da pandemia ou pensando em expectativas para um futuro pós-pandêmico, então cada um fez uma leitura disso”, explica Luiza.

Deriva é composto por cinco canções inéditas, feitas durante o confinamento em parcerias e encontros a distância. Produzido por Luiza Brina – que também gravou violões, guitarras, baixo, teclado, percussões e samples –, o projeto traz músicas compostas pela artista mineira ao lado de Teago Oliveira, Arthur Nogueira, Julia Branco e Chico Bernardes, e participação de todos eles, além de um encontro inédito entre as vozes e os violões dela e de Josyara, em composição solo de Luiza inspirada no trabalho da baiana.

Luiza Brina é nome que circula por diferentes espaços da cena independente musical. Ela é vocalista e compositora da banda Graveola e também acompanha artistas como Castello Branco e Maria Luiza Jobim. Em sua carreira solo, soma parcerias com Thiago Amud, Ceumar, Vovô Bebê, e registros em disco com Fernanda Takai, Tuyo e Marcelo Jeneci. Seu mais recente álbum, Tenho Saudade Mas Já Passou, foi eleito pela APCA como um dos 50 melhores de 2019, e foi lançado também no Japão pelo selo Impartmaint Inc.

“Mundo é tão cruel / mas [a canção] se faz sem temer”, diz “Súbita Canção”, parceira de Luiza com Arthur Nogueira. O projeto é talvez sobre isso, sobre como as canções nascem de forma bela em meio ao universo caótico de 2020. Em conversa virtual via Google Meets, Luiza falou um pouco sobre esse temor dos nossos tempos, em que artistas competem entre si por editais e políticas que auxiliam de forma quase mínima. Nesse sentido, Deriva é como um encontro desses músicos em uma busca por alento, tentando tatear uma questão forte desse ano: como fazer e consumir arte nesse momento?

Arthur Nogueira conta uma história que pode trazer mais uma pecinha para esse quebra-cabeça da arte no mundo em isolamento social: “Em um dia difícil de quarentena, Luiza me propôs que fizéssemos uma canção juntos. Recebi a melodia por WhatsApp e, de cara, quis me envolver com seus acordes e harmonia. Fiquei feliz. Ouvi algumas vezes e a letra veio inteira. Subitamente, portanto, nascia a ‘Súbita Canção’, me dizendo que, assim como ela surgiu, tudo isso vai passar”. E é provável seja isso: a arte seja o nosso respiro, a nossa busca por compreensão e algum alento no meio do caos. E talvez cada play nessas palavras e acordes seja como destampar essa garrafinha à deriva.

“As canções foram feitas pensando nesse momento de agora da pandemia ou pensando em expectativas para um futuro pós-pandêmico, então cada um fez uma leitura disso”

Papo cabeça, né? Mas isso é coisa de análises extras, pois Deriva em si é um disco pop, cantarolável, de canções que ficam na cabeça da gente. Com direção artística de Julianna Sá e com belas ilustrações de Sara Lana, o disco foi gravado entre diferentes ruídos. “Eu fiz duas mudanças durante a pandemia”, explica Luiza. “Comecei a gravar o EP em São Paulo, numa rua bastante barulhenta, com muitos carros passando. Eu fui tentando isolar os espaços ao máximo, mas foi isso. Depois eu morei quatro meses na roça, em São Francisco Xavier, perto de São Paulo, aí já eram outros barulhos, de mato, de bicho”. Agora, Luiza está morando em Belo Horizonte, onde o EP foi finalizado.

Nesse momento, Luiza vive uma fase de planejamento, de organização e de estudo. Entre editais e lives, a artista tem trabalhado ao lado do músico Castello Branco em um próximo disco dele – “ele grava lá de São Paulo, eu gravo daqui e mando para ele e assim vamos”, explica ela. Além disso, ela faz aulas on-line, pesquisas sobre o violão, harmonias, ritmos brasileiros e assim já começa a idealizar um próximo disco, que só deve começar a ser produzido de verdade no segundo semestre de 2021.

De um modo torto, o afastamento dos palcos e o distanciamento social acabaram conectando Luiza a esses artistas da Bahia, do Pará, de São Paulo e de Minas Gerais, numa conversa interessante sobre poesia e esperança. É bonito demais que em “Quando Isso Passar”, composta ao lado de Teago Oliveira, os versos apontem para um depois da pandemia em que vamos “encher as calçadas / feito revoada / brincar no infinito / dançar no mistério”. É um pouco também nesse mistério que reside a força da arte e da poesia de Luiza Brina; e Deriva é como um convite para adentrarmos nessas ondas.

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ARTISTA: Luiza Brina

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