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Atrações do Clube Monkeybuzz, Bad_Mix e Rod conversam sobre parceria musical iniciada nos tempos de escola

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Acordar, tomar banho, bolar uns cigarrinhos, conferir os emails e fazer uma track, se bobear, duas ou mais. Esta é a nada usual rotina do produtor Bad_Mix, dono de um live cheio de personalidade capaz de desconstruir BPM com melodias cerebrais até virar House de pista viajante em meio a vários outros gêneros musicais.

Quem já ouviu o residente da festa Caldo ao vivo e prestou atenção, com certeza já sentiu a mente voar longe em vários momentos. “Eu gasto praticamente todo meu tempo livre pesquisando música e também priorizando a produção. Ligo as as minhas máquinas e gravo quantas tracks der por dia. Neste ano, eu gravei muitas. Tento manter isso bem alinhado na minha rotina. Para evoluir na produção musical tem que criar bastante e ter um certo desapego com a obra. Em algumas eu perco um pouco mais de tempo. Mas eu gosto quando eu consigo gravar umas tracks no dia, fico muito feliz!”.

Mentor do WET DUST Records, que já mostrou ótimas surpresas em pouco tempo, como o EP It Ain’t EZ, do Deejay Camel, projeto do CESRV, ele canaliza essa energia criativa no selo. “Estamos com lançamentos previstos para este ano”.

“Nesta segunda-feira (22/4) sai o EP do projeto Horos, de Bruno Belluomini, um cara das antigas que produz um som só com máquina, bem massa. Ele me dá várias dicas até de história da música Eletrônica, um cara dono de uma visão interessante de como pode ser o mercado musical. Provavelmente faremos fitas cassetes desse EP” revela o produtor em entrevista ao Monkeybuzz. Quem ficou curioso, pode colar no evento do selo que rola no dia 22 de maio, no espaço S/A em São Paulo.

Na trajetória do produtor, tem um cara fundamental para que as primeiras experimentações com máquinas rolassem. Parceiro da Caldo e amigo desde a escola, esse cara é Rod, que percorre um caminho musical tão interessante quanto o do amigo. “Quando eu comecei a me interessar por produção de música Eletrônica, vi que não dava mais pra ter banda, pois dava muito trabalho. Então eu comecei a criar música no computador, comprei umas máquinas, e o Rod também tava nessa. Ele me incentivou bastante, podia colar na casa dele e tocar, foi meu parceiro. Começamos a fazer experimentos junto, não sabia o que tava fazendo, qual estilo era”

Será possível ver ao vivo essa parceria sonora entre amigos de infância no palco do Club Monkeybuzz em São Paulo, que rola neste sábado (27/4) no Fabrique, com DJ-set do produtor inglês Ross From Friends (Brainfeeder), além de Rafa Toledo x Daniel Moura (Veneno), Rico Jorge (SEReVER/Veneno), Belisa (MASTERplano) e Vic Ortiz (Caldo). Para sacar um pouco do que deve rolar no final de semana, a reportagem do Monkeybuzz trocou ideia com a dupla, capaz de transpor às pistas uma sintonia digna somente dos grandes comparsas.

Monkeybuzz: Como você conheceu Rod?

Bad_Mix: Eu sou amigo dele desde a época da escola. Eu sempre tive banda, não era muito do Rock, mas gostava também do estilo. A gente tocava desde música brasileira, Jazz e Funk . Rod toca instrumentos desde pivete, acho que  por causa do lance da igreja. Ele tinha banda com os amigos dele, nós nos encontrávamos para tocar juntos

Mb: Como você conheceu Samuel?

Rod: Nos conhecemos com uns 13, 14 anos.

Mb: A partir do ponto de vista da relação musical, quais são as técnicas do Rod que você mais curte?

Bad_Mix: O jeito que ele produz sem se apegar a estilos pré definidos. Ele vai mandando e gravando de um jeito maluco, que soa bem a cara dele,  pesadão. Às vezes, faz umas coisas com bastante melodia, mas sempre bem sujo. É massa!

Mb:  E as técnicas do Samuel que você mais gosta?

Rod: Ele adora estudar música, estudar as máquinas, é parte do seu processo. Isso faz com que tenha uma enorme gama de recursos técnicos na hora de fazer som. O que nos permite ir para inúmeros caminhos tocando juntos. Além de ser virginiano (risos), leva consigo o dom de organizar bem as coisas. E organização pra um live com várias máquinas ligadas ao mesmo tempo é algo importantíssimo.

Mb: Tocar em B2B é sempre uma surpresa, pois é outra pessoa que põe na roda o andamento do set. Quais sonoridades vocês acham que imprimem melhor o DNA musical de um e do outro quando tocam juntos?

Bad_Mix: A sonoridade que conseguimos imprimir quando a gente apresenta o nosso live é quase um B2B, mas, ao invés da gente mixar músicas, a gente leva os sintetizadores e drum machines e compõe ao vivo. Muito do que a gente foi fazendo até hoje foi experimentando e nem manjando muito de música eletrônica. Foi no decorrer dos anos que a gente foi estudar o que já existia na história. Naturalmente saiu uma coisa mais Breakbeat, quebradão.  Às vezes, mais Techno, um pouco mais agressivo. No decorrer do tempo com os projetos de festas a gente se esforçou e foi estudando para conseguir chegar em estéticas musicais um pouco mais trabalhadas, caminhando para House, que tem mais harmonias desse tipo. Eis o desafio que  nós dois seguimos na produção. Mas, naturalmente, acho que fazemos som mais puxado pro Breakbeat. Saiu meio de surpresa, quando nem sabia que estilo estava fazendo.

Rod: Ele tem um lirismo diferente do meu. Samuel é capaz de criar harmonias lindas, mesmo que às vezes mais melancólicas, às vezes, mais sujas.  Suas sequências de acordes e bass lines atingem uma beleza e sofisticação muito foda.  Sinto que quando tocamos juntos esse lirismo se transforma, deixando suas linhas mais agressivas, e eu amo isso.

Mb: Qual é a maior dificuldade em tocar neste formato? E o ponto positivo?

Bad_Mix: A dificuldade de tocar em dupla tem a ver com ajeitar as rotinas para que possam existir ensaios. É difícil porque quando você produz sozinho, você faz na suas brechas de tempo livre, e começa se organizar para isso. Em dupla, nosso caso que é um live, precisamos nos encontrar um pouco antes, preparar, ter alguns dias marcados na semana ou no mês anterior. Ou depende do nosso objetivo com cada apresentação ao ensaiar. A parte positiva: acaba saindo algo fresco e pouco diferente do que a gente acaba fazendo na produção individual. Surgem outras coisas e entramos naquele lance de ter menos controle sobre o processo, é algo positivo, fica mais daora.

Rod: Quando falamos b2b, pensamos num jogo, em que um DJ passa a bola para o outro, dando a este a vez de dar o tom à pista. No nosso caso, não é bem assim, pois estamos fazendo um live juntos. Isso significa tocar instrumentos juntos. É algo mais próximo de um duo. Uma banda. Embora nunca adotamos esse nome pra nossa formação. Mas a dinâmica é mais próxima disso. Há momentos onde um improvisa e o outro segura mais, por exemplo, mas no geral estamos ali juntos, full time, nao existe isso  de “enquanto um toca o outro pensa e prepara algo”. A maior dificuldade é compor a apresentação do live juntos. Separar um tempo pra isso. Música Eletrônica parece algo tão individual. Ver o DJ na cabine, sozinho, tocando para as pessoas. Sem dúvida, a coisa mais legal é tocar ao mesmo tempo com alguém, construir o clima da pista com alguém. A energia dobra para quem está tocando.

Mb: Como é seu processo criativo fora das pistas?

Bad_Mix: Eu gasto muito do meu tempo pesquisando música, porém, não pensando tanto em só tocá-las, mas para realmente escutar. Escuto muita música durante o dia. Eu também gosto de ir atrás das técnicas utilizadas para compor, esse lado um pouco nerd da parada de produção musical, de procurar como foi feito o som, quais instrumentos e técnicas. A partir disso, eu vou me inspirando sonoramente e nessa forma prática de como fazer. Eu gasto praticamente todo meu tempo livre pesquisando música e também priorizando a produção. Ligo as as minhas máquinas e gravo quantas tracks der por dia. Neste ano, eu gravei muitas. Tento manter isso bem alinhado na minha rotina. Para evoluir na produção musical tem que criar bastante e ter um certo desapego com a obra. Em algumas eu perco um pouco mais de tempo. Mas eu gosto quando eu consigo gravar umas tracks no dia, fico muito feliz.

Rod: To numa fase em que pesquiso muito mais, chegando em diversos gêneros e subgêneros musicais, buscando novos sons… Isso vem ajudando muito a me ver mais livre na hora de compor.  Adoro muito estar na pista. No front. Na caixa. No meio da galera… sendo público. Ajuda muito a pensar o que pode funcionar na pista, em qual momento do set cabe mais esse ou aquele som.

Mb: Em quais sons vocês apostam quando tocam em parceria e são diferentes de quando se apresentam solo?

Bad_Mix: Quando eu toco sozinho, muitas vezes,eu gosto de fazer um set ou um live um pouco mais mental, imersivo, não sempre tão agitado… Tento ser dançante, mas acho que com a minha personalidade rola parada mais reflexiva. Eu gosto de fazer set mixando umas coisas seguindo uma linha contínua, e às vezes enfio uns Breakbeats no meio. Quando eu toco com o Rod eu não tenho essa linha. Agente viaja, perde um pouco do controle, e acaba ficando um pouco mais enérgico. Ao lado do Rod, as sonoridades ficam mais energéticas, dançantes, rápidas, um pouquinho mais agressivas

Rod: Sinto que juntos conseguimos ir para vários lugares sem muita dificuldade. Trabalhar em diversos andamentos que não apenas o 130 BPM (comum ao Techno, por exemplo). Conseguimos subir BPM, descer, tocar Dub, EBM, Rap, Pancadão, 150… Fora que, por fazermos um live quase sempre usando apenas instrumentos analógicos, ter outras mãos manipulando em conjunto esses equipamentos contribui bastante em tornar a performance mais dinâmica, e diminui um pouco a pressão também de executar tudo em modo solo. Isso é uma diferença enorme para quem está tocando.

Mb: De que jeito a Caldo está mudando seus horizontes e planos como artista? Qual maior desafio de manter um projeto independente neste formato?

Bad_Mix: A Caldo é um projetinho muito massa, que a gente tem há uns anos e incentiva muito a continuar tocando e produzindo. Ah, sobre mudar horizontes… A gente não tem um projeto tão ambicioso, mas acaba seguindo inspirado para seguir trabalhando, tocando e sonhando em poder lançar com outras labels, tocar em outros lugares aqui no Brasil e lá fora. Isso é uma parada que a gente tem que trabalhar na forma como organizar esse nosso projeto, documentar, para conseguir colher um fruto artístico. Mas a princípio é uma parada que a gente faz porque curte, é divertido, e acho que é daora para as pessoas. O público se diverte, é uma troca.

Rod: São três anos fazendo uma festa de House aberta nas ruas de São Paulo. Isso me fez entender muito sobre quanto House Music tem a ver com dança, com movimento, com groove. Fazer na rua atrai pessoas não introduzidas ao rolê. E observar pessoas diversas, de rolês diversos, e o quanto seus corpos respondem a esse estímulo musical do groove… Groove tem um apelo universal, não interessa o seu repertório musical… Isso é muito massa.

Por outro lado, sinto que um desafio para gente é conseguir passar ao público que o horizonte da House music não é apenas o tradicional, muitas vezes, cafona, apenas repetitivo que rola em clubes, ou apenas um 4×4 suave para ficar de boa.. Vai muito além…

Fazer parte da Caldo me fez entender  o quanto House é ritmo e poesia. “House Music is RAP…” (risos) acho que esse jogo tosco de palavras ajuda a definir bem. Poesia junto com ritmo podem ganhar diversas tonalidades, diversos caminhos que vão muito além de uma forma pronta de kick reto + arcodes de piano + linha de baixo + drop topzera. House é muito mais. Temos House de Chicago, House de Milao, French, Deutsch, House de bicha, House de boy, House gangsta, House ht, House com vocal, House deprê… tudo isso é tocado por DJs de um país periférico da indústria musical. Isso faz pensar tanta coisa. E a gente pensa bastante sobre esta questão na Caldo… o que mexe bastante.

Agora, a maior dificuldade é, sem dúvida, tornar rentável. Falamos de uma festa que há três anos faz edições na rua, de forma totalmente independente. Nós que compramos as coisas do bar, fazemos cenografia, pedimos autorização, vamos atrás de energia, nós que montamos, desmontamos, fazemos after, fechamos after… Sem levantar nem míseros 50 conto para gente. E mesmo assim o rolê se paga apertado. Fora a conjuntura política na qual nos encontramos e não sabemos muito aonde vai dar. Estamos começando a sentir algumas dificuldades que não tínhamos outrora e isso preocupa. Mas também faz pensar e entender o quanto é importante colocar nossos corpos na rua, conseguir manter nossos espaços, estar presente, existir em momentos como este.

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ARTISTA: Bad_mix, Rod

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