Minimal: Com pouco se faz muito

O estilo detalhista, ao mesmo tempo simplista, de artistas como Andy Stott (foto) se conecta diretamente com o mundo contemporâneo e urbano

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Não são necessárias grandiosidades para se fazer ou criar algo notável, belo, importante e de valor. Não é necessário quilos e quilos de aço para se fazer uma escultura notável ou rebuscações de design para se criar um quadro. Muitas vezes, é no simples, no básico, no preto e branco que se encontra um dos melhores jeitos de se expor a arte, seja ela plástica, arquitetônica ou musical. No último caso, temos o simplista mas envolvente estilo musical eletrônico que é o destaque de hoje: o Minimal.

Minimal vem de minimalista, algo que pode significar duas coisas: ou a preocupação com os mínimos detalhes, ou o desapego ao exageros e excessos, prezando pela simplificação. Apesar de o minimalismo ser uma vertente mais presente no campo visual da arte, na música ele também se faz presente, e curiosamente consegue passar uma música visual ao envolver o ouvinte com seu modelo repetitivo e hipnótico.

Surgido nos anos 90 em três pólos pelo globo – Chicago, Detroit e Berlim – o Minimal que conhecemos assim generalizado, acaba sendo na verdade uma redução do nome Minimal Techno, visto que foi/é o minimalismo mais comum e presente no mundo da música. Seguindo essa ordem de detalhista e reducionista, as músicas dos artistas do estilo são, como o grande produtor do estilo, Robert Hood diz “(…)bateria, linhas de baixo e apenas o que for essencial para fazer as pessoas se mexerem.”. Com suas repetições em rotações por volta de 130 BPM (o que deixa o som mais cadenciado e envolvente, tornando-se assim um dos pontos marcantes do estilo) as músicas são compostas a partir de batidas firmes com ênfase nos médios (diferente do Dub e da House que focam mais nos graves) e de samples de canções de pássaros à murmúrios de pessoas, o que não impede de dizer que o Minimal seria algo como um Ambiente Music contemporâneo.

Por volta do final dos anos 90 e início de 2000, o estilo começou a ganhar mais notoriedade no mainstream musical e se espalhou principalmente por outros países da Europa. Entretanto, foi na Alemanha, um de seus berços, que se desenvolveu mais, a ponto de gerar ali nas terras bávaras os principais selos do sub-gênero, como Kompakt, Traum Schallplatten, BPitch e Cocoon. Nomes como Robert Hodd (já citado) e Daniel Bell, que foram um dos primeiros a dar as caras no som, começaram a ganhar novos colegas como Ricardo Villalobos e Gui Borato.

Assim como todos os estilos, ainda mais no eletrônico, as influências e referências vão se misturando, e visto que o Minimal não se restringe apenas ao Techno, outros produtores e artistas se aventuraram a misturar o modelo simplista e hipnótico do mesmo com outras roupagens, como Gold Panda em seu novo trabalho, Trust, e seu som mais voltado para o Chillwave/Glo-Fi, Aphex Twin com algo mais Ambient, Fyfe mais para o lado do R&B adicionando inclusive alguns vocais, e Andy Stott e Raime caindo mais para o lado do Dark Ambient e do Drone.

Apesar de parecer contraditório, o Minimal consegue através de sua simplicidade de elementos trazer o repetitivo, o o ciclo e se faz assim a cara do cotidiano urbano: conectado, dinâmico e sempre em rotina, mas sem deixar que isso se torne algo monótono e ruim. Gerando uma atmosfera entorpecente, o estilo envolve o ouvinte ao mesmo tempo que relaxa com sua pureza de detalhes e mostra que com pouco se faz muito.

Discografia:

Robert HoodMininal Nation

Daniel BellBlip Blurp Bleep

The FieldFrom Here We Go Sublime

Gui BorattoCromophobya

Ricardo VillalobosAlcachora

Gold PandaTrust

Apehex TwinMelodies From Mars

Andy StottLuxury Problems

RaimeQuarters Turns Over a Living Line

FyfeSolace

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Autor:

Marketeiro, baixista, e sempre ouvindo música. Precisa comer toneladas de arroz com feijão para chegar a ser um Thunderbird (mas faz o que pode).