Neil Young Contra o Neoliberalismo

Músico dispara contra mega-corporações e mantém trajetória de protesto

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Há poucos dias, Neil Young se viu numa situação interessante. Sua canção, Rockin’ In The Free World, lançada em 1989, em seu disco Freedom, foi utilizada pelo megaempresário e escroque internacional Donald Trump, que se arvora a disputar a presidência dos Estados Unidos no ano que vem. Emputecido – com muita razão – pela utilização indevida de sua obra, ainda mais por um sujeito como Trump, Neil, não só vetou sua inclusão, como a liberou para que o Senador Bernie Sanders, pré-candidato democrata, pudesse usá-la, sem custos. Chupa, Trump. Boa, Neil.

Neil Young vai lançar seu trigésimo-sexto álbum, The Monsanto Years, até o fim deste mês de junho. Em outros tempos, eu ficaria extremamente feliz com a iniciativa do velho bardo canadense de partir como um maluco pra cima de empresas multinacionais do agronegócio, como a Monsanto. E mais: o disco não dispara apenas contra a gigante dos transgênicos, mas atira também contra Chevron, Starbucks e Walmart, igualmente enormes e quase sempre dominantes em seus segmentos de negócio ao redor do planeta. Podemos até dar o desconto para Neil, uma vez que seu disco sai por uma igualmente gigantesca empresa do entretenimento, a Warner Music, através de seu tradicional selo Reprise Records, lar musical de Young desde tempos imemoriais. Mesmo assim, fica na mente a noção de que o sujeito poderia, simplesmente, não lançar um disco sobre o assunto.

Vejam, eu também quero partir como um maluco contra essas empresas gigantescas e seria bastante feliz se tivesse 1/100 do talento de Neil para confeccionar melodias marcantes, mas, convenhamos, desde Silver And Gold, lançado em 2000, Young não solta um álbum de inéditas com algum valor dentro de sua extensa discografia. Mais que isso, desde Glendale, de 2003, ele encasquetou de lançar discos temáticos/conceituais, quase sempre bobos e bem abaixo do que ele é capaz de fazer. Sustentabilidade e ecologia são temas recorrentes no ideário do homem, algo bem louvável, mas são assuntos que Young deveria dosar melhor e incorporar naturalmente à sua verve de compositor. Parece que ele, simplesmente, não consegue evitar uma torrente de canções, álbuns, sobre esses assuntos. É legal, é espontâneo, mas chega, Neil.

Não vá pensando que a luta do velho canadense não é justa. Vivemos num tempo cruel para todas as conquistas dos dois últimos séculos. Há enormes desafios nas mesas dos governantes do mundo e o poder do capital nunca foi tão grande quanto hoje. Desde o início dos anos 1980, liderado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, o mundo iniciou o período neoliberal, no qual, a grosso modo, a opção pela riqueza material tornou-se o principal valor social. À medida que os anos avançaram, o ataque neoliberal foi se intensificando, colocando em risco o atendimento a doentes, crianças e idosos, direitos trabalhistas, questões éticas de toda forma, além de comprometer os aparelhos públicos de ensino e a própria existência autônoma dos governos. Resumindo: tudo o que não gera margens enormes de lucro passou a ser desinteressante e desnecessário, transformando o planeta num balcão de negócios. Veja, esta não é uma opinião pessimista, é algo bem próximo da realidade e empresas monstruosas como Monsanto e similares são traços marcantes deste período histórico. Como este é um texto sobre Neil Young, não sobre o neoliberalismo puro e simples, tudo o que você precisa saber é que o veterano cantor/compositor se insurge contra o fato do volume dos negócios exorbitantes ser fator mais importante que a dignidade humana, colocando em risco a própria existência das pessoas no planeta.

Tema mais nobre não há. A Monsanto é a grande responsável pelo surgimento dos alimentos transgênicos e pelo maçico uso de pesticidas agrícolas, num segmento empresarial chamado agronegócio. Novamente trocando em miúdos, ter comida para todos é questão chave para a sobrevivência da humanidade neste mundo. Com oito bilhões de habitantes e uma ideologia neoliberal na pauta, não precisa muito esforço para se dar conta de que alimentar essa gente, ou a enorme e desfavorecida parte dela, não é uma tarefa fácil. Quanto menor é o poder aquisitivo das pessoas, maior é o uso de agrotóxicos e mais intensa é a alteração na estrutura dos vegetais, uma vez que essas modificações genéticas visam, quase sempre, o barateamento dos custos e o surgimento de plantas mais resistentes, o que, na maioria das vezes, significa abrir mão de nutrientes e propriedades essenciais desses alimentos. Sabemos que há alternativas sustentáveis para a Terra, principalmente a agricultura familiar, mas a mentalidade monetária dessa gente endinheirada não parece perceber. Se Neil Young é um cara com um carro elétrico não-poluente na garagem e que não usa energia elétrica em seu estúdio, como ele não iria se emputecer contra gente que decide o futuro da humanidade atrás de uma mesa de reuniões?

Convém lembrar que Young já se revoltava contra o sistema no início dos anos 1970, ao gravar Ohio, canção contra o assassinato de quatro estudantes universidade americana de Kent. A canção, lançada por Crosby, Stills, Nash & Young entrou para a grande galeria das músicas de protesto desde sempre. Ao longo do tempo, por mais doces e melodiosos que alguns álbuns fossem ou por mais incendiárias que algumas performances ao vivo se mostrassem, Neil conseguiu manter sua veia contestatória sob controle. Nos últimos anos, entretanto, o trem saiu dos trilhos. Seu disco de 2006, Living With War, é uma porrada sem fim contra o governo de George W.Bush e sua política neoliberal de rapinagem do petróleo alheio, algo que os Estados Unidos fazem desde os anos 1970. A oportunidade era perfeita para confeccionar um antológico protesto anti-Bush, que expusesse as negociatas e decisões desastrosas daquele governo, mas Young derrapou num disco auto-indulgente, que poderia servir como programa de alguma chapa candidata ao Centro Acadêmico da sua faculdade, sem falar no péssimo acabamento dado às canções.

Uma primeira audição en passant em The Monsanto Years aponta um álbum nos mesmos termos, apesar de soar melhor. Você lerá a resenha em breve por aqui e tenha a certeza de que iniciativas com intenção de protestar contra essa sociedade que compra iPhones a cada seis meses é válida e tem seu lugar no coração das pessoas que sabem que há muito de errado nestes tempos. Ainda assim, a porção fã de música ainda fica chateada por Neil Young não lançar um bom álbum há tanto tempo. Mesmo assim, ele segue com crédito.

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ARTISTA: Neil Young
MARCADORES: Discussão, Novo álbum

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.