O Grajaú de Nayra Lays em sons e palavras

Com a produção de seu primeiro disco adiada, a cantora criou uma rede de diálogos virtuais por meio do Projeto Casulo

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Fotos: Divulgação

O plano inicial de Nayra Lays para 2020 era essencialmente mergulhar de cabeça em seu primeiro disco, porém a pandemia de coronavírus fez com que tudo ficasse em stand-by. A saída encontrada foi expandir os processos criativos e abrir diálogos com parceiros, amigos e ouvintes, no que foi chamado de Projeto Casulo, em que Nayra trocava cartas virtuais sobre criação artística, memórias, afetos e referências.

Aos 23 anos, natural do Grajaú, bairro da zona sul de São Paulo, Nayra Lays é cantora, compositora e comunicadora. Estudou jornalismo na agência-escola Énois, voltada para jovens de periferias. Na música, passou por uma residência na Red Bull Station ao lado de outros artistas independentes, e lançou o EP ORÍ em 2017.

Hoje em dia ela trabalha com comunicação e equilibra seu tempo com a criação artística, bem como com a gestão de sua própria carreira. Meio que entre três empregos, Nayra diz “ao mesmo tempo que eu me sinto amparada, no sentido financeiro, eu me sinto meio frustrada às vezes de não conseguir ter tempo de absorver as coisas como a arte pede, como a música pede”.

Em janeiro deste ano, Nayra começou a trabalhar ao lado de Levi Keniata, produtor musical e responsável pelo Nebulosa Selo. “Eu estava fazendo o esquema de passar alguns dias ao lado de Levi: eu ia na quinta-feira pra casa dele, aí ficava quinta, sexta, às vezes até sábado, juntos em estúdio, começando a viver esse mergulho”, explica Nayra. “O Levi tem bastante essa coisa de entender como é que a gente consegue mergulhar no universo do próprio artista, para depois começar a trabalhar efetivamente na música, então a gente tem muitas trocas de ideias”.

Com a paralisação desse processo, Nayra Lays buscou novas ideias para compartilhar esse momento de mergulho e assim surgiu o Projeto Casulo, com a troca virtual de cartas em um debate sobre o processo criativo. “Quando a gente fala de processo criativo, muitas pessoas pensam que é algo restrito a quem já se considera artista, mas aí através do projeto eu busquei elementos que mostrem às pessoas que o processo de criar é muito intrínseco a nós, enquanto seres humanos buscando nos expressar”, explica a artista.

Para criar esse diálogo, Nayra trouxe outros elementos para essa narrativa: a nossa relação com o corpo, o bairro de origem, coisas que são mais comuns às pessoas e com as quais elas podem se identificar mais, independentemente de serem artistas ou não. A proposta deu certo e de quatro cartas enviadas, Nayra recebeu mais de 40 respostas, com papos profundos que surpreenderam a artista: “Muitas respostas me trouxerem outros olhares sobre o meu próprio processo e também sobre a minha vida, pois muitas pessoas se sentiram confortáveis para trazer aspectos bem profundos sobre elas mesmas, sobre as próprias trajetórias”.

Uma dessas mudanças de olhar veio também desse tempo de se voltar para sua própria casa e para o seu bairro. Natural do Grajaú, Nayra gosta de dizer que é no bairro que se descobriu como artista e gosta de cantar a partir de sua história e de sua família. O tio que tocava samba, os almoços de família e os retratos guardados criam um amálgama de referências que formam o que Nayra gosta de chamar de auto pesquisa, isto é, o processo de tornar a si mesmo um objeto de pesquisa e estudo.

E nessa busca nem tudo é necessariamente celebração, mas também entender o que te forma de maneiras obtusas: Nayra conta, por exemplo, que fez parte de um grupo religioso junto da família, porém se afastou disso e a partir desse momento houve uma quebra em muitas relações familiares. O episódio, de todo modo, deixa mais claro os caminhos independentes que ela busca a partir de agora, mas não apaga suas intenções de celebrar aquilo de positivo que ela viveu e aprendeu com eles.

“Agora, eu tenho entendido cada vez mais que o disco é um projeto primeiro de reconexão comigo”, explica Nayra. “Quero explorar várias coisas sobre mim, mas também olhar de novo para essas sonoridades, essa musicalidade que me formou”. Das canções de casa, vêm nomes como Fundo de Quintal, Branca Di Neve e a sambista Geovana, de quem Nayra lembra-se da voz efetivamente sonorizando seu crescimento. Já nomes como Itamar Assumpção, Jovelina, Dona Ivone Lara, Elza Soares e Gilberto Gil surgem num cenário de encontro de Nayra com a história da música preta brasileira.

“O meu disco não é de samba, mas a gente vai beber muito nessas musicalidades do samba e da música preta brasileira de uma forma geral, e o meu bairro tem e teve uma força fundamental para essa escolha, pois depois de quatro anos de carreira, eu entendi que nesse primeiro disco eu queria olhar de novo para esse lugar de origem e entender como é que eu consigo resgatar em mim essas musicalidades que me formaram”. Parte desse resgate, por exemplo já pode ser ouvida no Spotify, na playlist #ProjetoCasulo: inspirações do meu quintal, organizada por Nayra.

A primeira fase do Projeto Casulo já se encerrou, agora a ideia da cantora é trocar ideias com outros artistas, de diferentes linguagens, sobre seus processos criativos, em uma segunda fase do projeto. Nesse momento, ela também começa a dar novos passos para a construção do primeiro disco, ainda tentando encontrar meios de produção nesse tempo de distanciamento social.

Enquanto isso, Nayra trabalha em suas composições e diz que cada dia mais tem se interessado em escrever sobre coisas novas, buscando se desafiar. “Eu tento através da minha arte criar pequenos espaços, tanto de respiro quanto espaços para que a gente também fale sobre questões que às vezes são difícil de falar ou que a gente não costuma compartilhar muito”.

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ARTISTA: Nayra Lays

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