O Misterioso Boards of Canada

Duo escocês é uma das poucas bandas que podem realmente ser chamadas de lendárias – daquelas que sua mitologia é uma extensão de sua própria música

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De fato existem poucas bandas que podem ser realmente chamadas de lendárias. Daquelas que os contos são mais importantes do que os fatos em si, daquelas que o mistério que as envolve ultrapassa a qualquer realidade, mas, sobretudo daquelas em que a mitologia da banda se torna uma extensão à sua própria música. Decididamente o duo escocês Boards of Canada cumpre esses pré-requisitos e alguns mais para se tornar um verdadeiro mito das últimas duas décadas.

Se aproximando dos 30 anos de carreira os irmãos Michael Sandison e Marcus Eoin conseguem manter toda essa mística em volta de sua música, criando grande mistério sobre si mesmos (concedendo pouquíssimas entrevistas e raramente falando sobre sua música) e produzindo relativamente pouco (em todo esse tempo existem somente quatro discos e seis EPs sob seus nomes). É claro que as estratégias de marketing envolvendo esses pouquíssimos lançamentos também ajudam a construir o mito, mas certamente sua música consegue falar por si mesma – criando narrativas e paisagens sensoriais delicadamente desdenhadas (não importando o humor que elas sigam).

Gerando grande adoração dos velhos fãs e criando um enorme fascínio aos que ouvem pela primeira vez, a dupla chega a 2013 – mesmo produzindo pouco – como um dos grandes nomes da música contemporânea. Grandes sim, atingindo uma enorme gravadora (a Warp Records) e lá obtendo total autonomia sobre seu som etéreo e completamente viajado. Superando a produção em pequena escala do começo de carreira e atingindo boas posições nas paradas em seus últimos lançamentos, o duo pôde experimentar uma ascensão incrível nestas quase três décadas.

Geralmente ultrapassando a marca de 18 faixas (sendo o menor deles seu álbum de estreia Music Has The Right To Children), seus discos são longos, muitas vezes se estendendo por mais uma hora, e conseguindo comunicar muito com pouco – neste caso o pouco se refere à veia minimalista presente em seu som. Ainda assim há grande distanciamento no humor de cada álbum; cada um se enveredando para um clima específico. Enquanto Geogaddi cria um suntuoso e sombrio, The Campfire Headphase segue uma vibe mais amena e simplória – algo bem pastoral e bucólico.

Quanto à sonoridade, o que mais chama a atenção é a harmonia e a calma que as composições da dupla emanam. Transitando em territórios ermos da Música Eletrônica como IDM e a Ambient Music (esse não necessariamente um território eletrônico), suas faixas trazem uma sensação acolhedora, onírica, hospitaleira – que segundo as poucas entrevistas concedidas pelo duo, são sons que remetem a sua infância e aos documentários que assistiam durante esta época (um deles o National Film Board of Canada, filme sobre a vida natural do tal país do título e o qual inspirou a alcunha tomada pelo projeto musical de Michael e Marcus).

Já deu para perceber que toda essa aura misteriosa é a principal aliada quando o assunto é Boards of Canada e não por menos o anuncio de seu quinto disco, Tomorrow’s Harvest (esperado para 10 de junho deste ano), foi envolto em uma série desses mistérios que, é claro, elevaram a expectativa dos fãs à níveis inimagináveis.

Tudo começou em março, quando, no Record Store Day, o duo lançou um EP surpresa com uma espécie de senha que foi complementada em diversos lugares e lançamentos. Depois de anunciado, ele foi sendo lentamente mostrado nos lugares mais inimagináveis do planeta (algumas lojas minúsculas, no meio do deserto, no centro de Tóquio) e recentemente mostrado em sua plenitude em um streaming oficial único (ou seja, foi tocado somente uma vez e quem não ouviu terá de esperar até a data oficial de seu lançamento).

Se na música pode não haver unanimidade, a estratégia de marketing da dupla com certeza é. Somando isso ao mito “Boards of Canada”, vemos ressurgir, depois de mais de oito anos adormecido, um dos grandes estandartes musicais das ultimas décadas.

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MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts