Paralamas – Trinta Anos de Sucesso

Uma das mais importantes bandas brasileiras completa três décadas traçamos um panorama completo da carreira de um grupo que soube se reinventar diversas vezes sem perder a qualidade

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Eu tinha 13 anos em julho de 1983. Apesar de gostar de música desde antes disso, via coletâneas de hits, discos de Roberto Carlos, trilhas sonoras de novelas da Globo ou mesmo a programação das rádios, eu não estava preparado para os Paralamas do Sucesso. Um ano antes a Blitz havia tomado o país de assalto com Você Não Soube Me Amar e tenho nítida memória de uma sexta série cantarolando “ok, você venceu, batata-frita” o tempo todo, todo dia. Mas, vocês sabem, há uma enorme diferença entre ter 12 e 13 anos. Quando os Paralamas chegaram, eu estava meio desligado da música, no entanto, se alguma banda foi responsável por me trazer de volta, o trio composto por Herbert, Bi e Barone pode levar a culpa.

Perdoem o tom confessional e em primeira pessoa desse texto, mas é impossível dissociar minha experiência com música da carreira dos Paralamas. Quando Vital e Sua Moto tocou pela primeira vez no rádio, fui despertado de um sono que parecia durar décadas. Tive a sorte de ouvir a fita demo na Rádio Fluminense FM em 1983 e, pouco tempo depois, o compacto da música anunciava o contrato que a banda havia fechado com a EMI-Odeon. Meus 13 anos eram pouco, no entanto, pra imaginar a via crúcis de shows em todos os tipos de buraco que os Paralamas estavam fazendo. A banda tinha cerca de dois anos de vida. Formada por Herbert, então cursando Arquitetura na UFRJ, Bi, aluno de Zootecnia da Universidade Rural e Vital, amigo dos tempos de cursinho. Após idas e vindas, entre festivais universitários, Vital acabou substituido por João Barone, que tocava numa banda especializada em Beatles. Com a habilidade do rapaz, aos poucos a dupla restante foi percebendo que Barone era o baterista mais indicado para dar conta do leque de influências inicial: The Beat, Police, bandas two-tone em geral.

Em 1983 na capa do compacto de Vital já está o trio definitivo, que está até hoje na batalha. Pouco tempo depois veio Cinema Mudo, o primeiro disco. A banda entrou no esquema de divulgação de uma gravadora major e logo foi parar nos programas de auditório de todo o país. Mesmo que o resultado sonoro de Cinema Mudo não seja de agrado da própria banda – eles dizem que sofreram interferências externas na produção – o disco catapultou os Paralamas para a linha de frente do Rock nacional. Em um ano, referendados pelo sucesso nacional do primeiro álbum, os Paralamas entravam em estúdio para gravar seu segundo trabalho. O Passo do Lui teria oito de suas nove músicas tocadas em rádio e o clipe de Óculos, como se o trio fosse um Police adolescente e tropical, surgiu nos nascentes programas dedicados aos pequenos filmes musicais. Na esteira dele, logo veio o de Meu Erro, mais sério, porém igualmente arejado e otimista.

Em 1985, os Paralamas já tocavam para centenas de milhares de pessoas no Rock In Rio. Nem o mais otimista dos rapazes poderia imaginar que atingiriam em tão pouco tempo o status de popstars nacionais. O trio não se intimidou com as adversidades, ganhou a multidão no peito e na raça e cravou o nome na História, apenas com poucos anos de estrada. A consequência natural foi cruzar o país de norte a sul, levando o mesmo show, a mesma vitalidade. Ao fim de 1985, a banda estava exausta e, devido a um acidente com Barone em Porto Alegre, o trio teve que parar. Bi e Herbert, totalmente influenciados pelas visões que a turnê nacional lhes trouxera. Ao mesmo tempo, no Rio, havia uma pequena dissidência em relação ao papel de novidade atribuído ao Rock naquela época. Para gente como Maurício Valadares (então integrante da equipe da Fluminense FM) e o irmão de Herbert, o sociólogo Hermano Vianna, havia a necessidade de olhar (e ouvir) a música negra que era produzida na época. Reggae, Dub, Afrobeat, vários ritmos que chegavam à Inglaterra do início dos anos 80 e que permaneciam ocultos aqui.

Esse conjunto de fatores deu origem ao conceito de Selvagem?, terceiro disco da banda, lançado em 1986. Até hoje muitos consideram este o mais importante trabalho da banda, tamanha a mistura de ritmos e sonoridades. Além disso, a coragem demonstrada pelo trio, abrindo mão de tocar “apenas Rock” para cair num caldeirão de influências. Alagados, o primeiro hit, traz guitarras highlife, letra cinematográfica e tamborins, Melô do Marinheiro é um Reggae reto, com citação de Marinheiro Só, a faixa-título entremeia paisagens do submundo da cidade com riff pesado e bateria marcial. Você é uma cover de Tim Maia, enquanto A Novidade é uma inédita e maravilhosa parceria de Herbert com Gilberto Gil. Essa nova direção trouxe a admiração ainda maior dos fãs e o estranhamento total por parte das outras bandas. Muitas, a maioria, acusou o grupo de “não fazer mais Rock”. Os rapazes rebateram dizendo que nunca haviam dito que aquela sonoridade era Rock e uma pequena celeuma se instalou na mídia, mas nada capaz de atrapalhar a majestade de Selvagem?. O sucesso foi tanto que a banda se viu na noite brasileira do Festival de Montreux, onde registrou seu primeiro disco ao vivo, D, lançado em 1987 e que estabeleceu a participação do tecladista João Fera.

Em 1988 viria Bora Bora, mais um disco que ampliava o espectro de cores tropicais, sob o ponto de vista nacional. A banda agora incorporava um naipe de metais em sua sonoridade. Viriam novos hits como Uns Dias, O Beco e Quase Um Segundo, além de pequenas e deliciosas faixas que ficaram no esquecimento, como Dois Elefantes. Ainda na onda veio Big Bang, puxado em 1989 pelo sucesso de Perplexo (com o verso maravilhoso “eu sou Maguila, não sou Tyson”) e Pólvora, além do grande hit que se tornou Lanterna Dos Afogados.

Os Paralamas adentrariam a década de 1990 com um disco considerado difícil pelo público e massacrado pela crítica, Os Grãos. A banda procurava uma sonoridade diferente, nova, ao contrário do que foi dito na época, quando foram acusados de “fazer um disco de MPB”. Pelo contrário, Os Grãos tinha música com tonalidades baianas (Carro Velho), versão de um clássico do Rock argentino (Trac Trac, de Fito Paez), um hit incontestável (Tendo A Lua) e mais daquelas pequenas canções esquecidas pelo tempo, caso de A Outra Rota. Mesmo assim, essa foi uma época de baixa da banda, algo que se agravou por conta do disco seguinte, Severino. A impressão que temos é que o público e a crítica não estavam preparados para tamanho salto qualitativo. Os Paralamas chamaram Phil Manzanera (Roxy Music) para a produção, convidaram músicos tão distintos como Egberto Gismonti, Fito Paez, Brian May (guitarrista do Queen), Linton Kwesi-Johnson, Tom Zé, entre outros, com a intenção de radiografar um Brasil esquecido e presente ao mesmo tempo. Há conexão forte com Selvagem?, como se as sementes para essa visão do país fossem plantadas lá em 1986. A capa traz ilustrações pinçadas da obra do artista Arthur Bispo do Rosário, ampliando ainda mais essa característica investigativa de uma identidade nacional.

O disco fracassou em vendas no país, mesmo com uma análise mais positiva por parte da crítica especializada. Essa circunstância fez com que a banda se voltasse ainda mais para o mercado sul americano, algo que eles já faziam desde o lançamento de Os Grãos. Severino saiu no resto do continente com o nome de Dos Margaritas, uma das poucas canções do disco a fazer razoável sucesso em rádios do Brasil. A Argentina recebeu os Paralamas de braços abertos. Com a chegada do Plano Real e a paridade com o dólar, era mais fácil comprar discos em 1995 que hoje. A idéia da banda foi lançar mais um disco ao vivo, dessa vez, gravado no Brasil. Vamo Batê Lata reuniu clássicos como Meu Erro a faixas de Severino, como Dos Margaritas e Rio Severino. A banda continuava insuperável no palco e isso é palpável ao longo das canções. O grande pulo do gato, no entanto, foi lançar um EP junto com o disco, como se fosse um brinde. Nele vinham quatro canções inéditas, gravadas em estúdio. Ali estava a primeira parceria da banda com Carlinhos Brown e Djavan, Uma Brasileira, que se tornou a grande canção noventista dos Paralamas. Além dele, fizeram sucesso Saber Amar e Esta Tarde, sobrando para Luis Inácio (300 Picaretas) um status de cult.

A maior virtude de Vamo Batê Lata foi a recondução da banda à programação das rádios nacionais. Nesse espírito, veio 9 Luas, em 1996. É um grande disco Pop; maduro, mas nunca bundão, reflexivo mas nunca banal. Grandes sucessos vieram desse álbum que, como todos os outros da banda, também traz uma quantidade grande de belas gravações que ficaram esquecidas. No setor dos sucessos temos De Música Ligeira (versão de um sucesso dos argentinos do Soda Stereo), Lourinha Bombril (outra versão de uma banda argentina, dessa vez de um hit do Los Pericos), além de composições próprias como La Bella Luna, Busca Vida (cheia de corinhos à la Beach Boys) e uma versão de um sucesso de 1972, Capitão de Indústria, de Paulo Sergio Valle e Marcos Valle. Esta coleção de canções inspiradas e luminosas faz de 9 Luas um clássico entre os fãs da banda, permanecendo como o disco noventista mais querido da banda.

Aproximava-se o fim do milênio e os Paralamas, sempre após idas e vindas pelo Brasil e exterior, reuniram-se para mais um disco de inéditas. Hey Na Na foi lançado em 1998 e antecipa a entrega da banda para o projeto Acústico MTV, que seria lançado um ano depois. Com dois hits emplacados no país, O Amor Não Sabe Esperar (dueto com Marisa Monte) e Ela Disse Adeus, a banda ainda oferecia ao ouvinte uma parceria com Chico Science, Scream Poetry, além de outra versão de Fito Paez, Viernes 3AM. O grande diferencial de Hey Na Na está no fato de que a banda já procura os tais arranjos acústicos, o que não descaracteriza sua pegada habitual. Em 1999 a banda finalmente estava pronta para gravar o seu MTV Unplugged. Com os testes efetuados ao longo do ano anterior na estrada, quando chegaram até a se apresentar de surpresa, os Paralamas registraram aquele que é o mais interessante e bem sucedido exemplar da série MTVística. Com um repertório de 21 canções, entre covers, citações, reinvenções, velhos e novos sucessos, participações de Dado Villa-Lobos e Zizi Possi, os Paralamas estão exuberantes neste CD/DVD. Tudo funciona, tudo faz sentido por aqui.

Em fevereiro de 2001, no entanto, tudo foi colocado em risco. Após um acidente de ultraleve em Mangaratiba, Rio de Janeiro, no qual perdeu sua esposa Lucy, Herbert Vianna iniciava uma batalha feroz por sua própria vida. Com danos neurológicos e paraplégico, o cantor e compositor da banda sempre foi peça fundamental para a existência dos Paralamas, mas nenhum dos integrantes ou parentes e amigos mais próximos desistiu de acreditar na capacidade de Herbert em recuperar-se. Ainda meio confuso e em recuperação, o vocalista apareceu numa edição do Fantástico empunhando um violão e cantando uma versão de Melô do Marinheiro, lá de 1986. O pior havia ficado para trás, agora era o momento de recuperar-se.

Em 2002, a banda lançava mais um disco de inéditas, Longo Caminho. As composições eram anteriores ao acidente, mas as gravações todas foram efetuadas após o ocorrido, mostrando uma banda mais pesada e estridente do que poderia se supor. Novamente o grupo aparece no Fantástico, mas, dessa vez, para tocar ao vivo algumas músicas do novo disco. A MTV também prepara um show de retorno para eles. O repertório de Longo Caminho seguia a lógica paralâmica, ou seja, fez sucesso com O Calibre, Cuide Bem Do Seu Amor, Seguindo Estrelas, além de trazer novas pérolas pouco ouvidas como Soldado da Paz e a bela versão para Running On The Spot, do The Jam. Com Herbert numa cadeira de rodas, a banda seguiu em frente, como se nada – ou pouco – tivesse acontecido.

Novamente na estrada, os Paralamas honraram sua tradição de banda ao vivo e registraram uma grande festa para o retorno de Herbert, no Olimpia de São Paulo. Com o nome de Uns Dias – Ao Vivo, o show foi lançado em CD duplo e DVD, com participação de Edgard Scandurra, Gustavo Black Alien e Andreas Kisser, num repertório que casava sucessos do disco anterior com clássicos da carreira da banda.

Dois anos depois, lá estavam os Paralamas lançando disco de músicas inéditas. A expectativa por Hoje era pelo fato de registrar as novíssimas composições de Herbert, as primeiras após o acidente. Logo de cara, 2A ganhou as rádios com seu ritmo dançante, mas o disco, muito mais emocional e singelo, ficou restrito ao âmbito dos fãs, apesar de suas inegáveis qualidades. A banda manteve-se ativa e fazendo shows, toda uma turnê pelo país ao lado dos Titãs, na qual as bandas trocavam funções, vocais e sucessos, num clima de camaradagem e cumplicidades após tanto tempo de carreira. Em 2007 é lançado em CD/DVD, finalmente, o show antológico no Rock In Rio de 1985. Em 2008 vem o registro da turnê em conjunto com os Titãs. No seguinte sai mais um disco de inéditas, Brasil Afora, com o hit Mormaço e a participação de Zé Ramalho e Carlinhos Brown, numa nova e sutil relação de amor com o país e seus interiores. Em 2010 é a vez da banda registrar a turnê de Brasil Afora para o canal Multishow, dando origem ao CD/DVD Multishow Ao Vivo, com participações de Pitty (dispensável) e Zé Ramalho.

Quem sair pelo país nesse primeiro semestre de 2013 corre o risco de topar com um show da turnê de 30 anos dos Paralamas. Eles já tocaram no Rio, São Paulo, Recife, Salvador, entre outras cidades, preparando-se para novos shows em Curitiba, Belo Horizonte, entre outros lugares. É um show renovado, cheio de elementos visuais e com uma banda que precisou se reinventar várias vezes e por vários motivos em sua carreira, sempre com resultados acima da média. Talvez não sejam a melhor banda brasileira de todos os tempos, mas, num consenso bem razoável, provavelmente é a banda mais virtuosa e bem sucedida dos anos 80, ainda unida por conta de amizade e intuição constante de que sempre estarão onde mais gostam de ficar: no palco e, dali, pros braços dos fãs.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.